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Candidato ou PR?

Marcelo Rebelo de Sousa fala facilmente, mas alguém sabe o que pensa sobre os grandes assuntos? Esconde metade do que pensa na metade da vida que é visível. Não é claro, não é sincero, não é frontal. Postado por João Ramos de Almeida em Ladrões de Bicicletas
Marcelo Rebelo de Sousa fala facilmente, mas alguém sabe o que pensa sobre os grandes assuntos?
Marcelo Rebelo de Sousa fala facilmente, mas alguém sabe o que pensa sobre os grandes assuntos?

Os novos tempos não precisam de meias pessoas.

A situação do país está demasiado condicionada e fechada, quase condenada à estagnação e à desigualdade, à violência e explosão emocional gerada por essa desigualdade que precisa de gente menos preocupada com a sujidade dos punhos de renda e que olhe o futuro de frente, não através do retrovisor.

Marcelo Rebelo de Sousa fala facilmente, mas alguém sabe o que pensa sobre os grandes assuntos? Esconde metade do que pensa na metade da vida que é visível. Não é claro, não é sincero, não é frontal. Em cada evocação de um princípio básico esconde uma agenda própria.

É por isso que, quando confrontado com questões difíceis e essenciais, se esquiva, se refugia em Belém, usando geralmente, à vez, dois argumentos (como foi possível ver na entrevista dada à TVI):

Primeiro: "o candidato só pode dizer aquilo que o pode dizer o Presidente da República que é. Eu sou PR e depois sou o candidato a uma reeleição. E o PR já disse o que tinha a dizer". Segundo, o PR não comenta. "Já fui comentador durante muitos anos, várias décadas. E gostei muito. Mas agora fui eleito para decidir. E para ser comentado".

Se Hitler chegasse a Portugal, consagrasse os sagrados princípios nacional-socialistas portugueses (PNSP), mas evocasse na rua a estigmatização racial e a defesa progressiva da solução final, Marcelo Rebelo de Sousa não faria nada, porque estaria já a pensar como é que uma nova maré de deserdados que opte pela extrema-direita violenta poderia recentrar o espectro da política à direita e revelar a civilidade de uma direita tradicional pouco interessada em resolver os conflitos sociais do país, mas mais em mantê-los, ao apostar nas velhas "soluções" de redução dos custos salariais que acarretam consigo a subjugação sindical. Como em França, o povo português passaria a escolher entre a direita e a extrema-direita. E tudo ficaria igual.

Se fosse questionado sobre esse facto, adoptaria a táctica usada na entrevista à TVI:

- Vê algum problema constitucional nas posições que o [PNSP] tem assumido? 

- Quem tem que ver é o ...

O entrevistador começa a enumerar as diversas posições e declarações políticas dessa organização. Mas Marcelo Rebelo de Sousa não se demove e continua onde parara:

- ... é o Tribunal Constitucional. O Tribunal Constitucional é que tem de ver, tem de julgar. Sabe, o processo hoje é muito claro: Ministério Público pede, o Tribunal Constitucional decide.

- Mas o senhor é constitucionalista...

[a Constituição da República Portuguesa, que o PR jurou cumprir e fazer cumprir, determina no seu artigo 46º que "não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista"]

- Sou constitucionalista, mas sou PR. Portanto, não me posso esquecer que sou PR. E o PR usa os seus conhecimenros constitucionais para o exercício da sua função. Não para comentar. (...) Eu não posso descriminar por razões de simpatia ou antipatia um partido e os deputados desse partido (...). Nem os eleitores. Quando digo que sou o presidente de todos os portugueses não sou de todos menos 10%, não sou de todos menos 15%.

Hitler agradeceria e continuava a militar em Portugal. E Marcelo sorriria quando o visse a rondar o poder, sem se aperceber que a História o estava julgar, não pelo que tinha evitado dizer, mas pelo que não fez.

Postado por João Ramos de Almeida em Ladrões de Bicicletas

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