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BES utilizou a Zona Franca da Madeira como placa giratória

De acordo com uma investigação do PÚBLICO, uma sucursal do BES situada na zona franca serviu para angariar clientes da Venezuela e Angola. O dinheiro era depois investido no GES.
Foto de Miguel A Lopes / Lusa

Durante mais de duas décadas esteve licenciada, na Zona Franca da Madeira, a sucursal do Banco Espírito Santo (BES) chamada Sucursal Financeira Exterior (SFE), autorizada a atuar com clientes não residentes em Portugal. De acordo com a edição do Público desta quinta-feira, esta sucursal foi utilizada por Ricardo Salgado como placa giratória das relações com a Venezuela e com Angola, captando dinheiro que era depois investido no GES.

O esquema funcionava da seguinte forma: a SFE atraía clientes internacionais para esta sucursal, nomeadamente grandes empresas estrangeiras, como a famosa Petróleos da Venezuela (PDSVA), mas também clientes singulares (emigrantes na Venezuela) que aqui abriam contas bancárias.

O BES emprestava dinheiro a estes clientes e, ao mesmo tempo, obtinha liquidez ao direcionar as poupanças dos depósitos na SFE para investimentos em entidades do GES – da Espírito Santo Internacional (ESI). O jornal refere que as empresas venezuelanas chegaram a ter aplicadas no GES quase 7.000 milhões de dólares em 2013.

Esta placa giratória é descrita na acusação elaborada pela equipa do DCIAP, que mostra como esta sucursal, que funcionou até 2018, já depois do colapso do BES, funcionava como “núcleo de atendimento” para clientes de África e Venezuela.

Uma peça chave para todo este processo era João Alexandre Silva, que veio a subir na hierarquia da SFE até se tornar seu director-geral em abril de 2000. João Alexandre Silva reportava a José Manuel Espírito Santo, mas respondia directamente a Ricardo Salgado.

Este director-geral foi o responsável por, a partir de 2008, iniciar uma relação comercial com bancos públicos venezuelanos, assim como com grandes empresas e fundos de desenvolvimento deste país que operavam com receitas das exportações de petróleo.

Seria assim, através de João Alexandre Silva que, alegadamente, Ricardo Salgado acedia aos centros de decisão financeira de várias entidades estatais venezuelanas.

Depois de 2012, o ESI começa a sentir dificuldades de tesouraria e Salgado inicia o direcionamento da liquidez dos depósitos bancários da SFE para a dívida desta holding do grupo. No final não foram apenas estas grandes empresas que acabaram por perder dinheiro com o colapso do GES. Também foram apanhados neste esquema emigrantes venezuelanos que subscreveram obrigações, as quais acabaram por nunca ser reembolsadas.

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