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A alvorada do século das grandes revoluções e contrarrevoluções

Este livro é um documento frenético, uma reportagem vivida, uma coleção de memórias e de documentos de cada um dos momentos dessa vertigem que foram esses dias do final de 1917, um manifesto de vontade. Prefácio de Francisco Louçã à nova edição de Os Dez Dias que Abalaram o Mundo.
Capa do livro

John Reed (1887‑1920) escreveu Os Dez Dias que Abalaram o Mundo com 32 anos e morreu no ano seguinte em Moscovo, onde ficou enterrado, junto ao muro do Kremlin. A sua narrativa sobre a tomada do poder pelos sovietes, nos dias cruciais de novembro de 1917, seria publicada ainda em vida do autor e depois, em 1922, nos Estados Unidos, com um prefácio de Lenine, que recomendava vivamente o livro, e outro da sua mulher, Krupskaia. A edição russa sofreu, no entanto, as vicissitudes do tempo: Estaline não podia aceitar uma descrição da revolução que destacasse o papel de Trotski e o livro desapareceu depois da morte de Lenine (1924) – e só veio a ser republicado na URSS depois da morte de Estaline (1953). Diligentemente, alguns partidos comunistas, como o britânico, editaram versões expurgadas de qualquer das muitas referências à intervenção de Trotski, como foi denunciado por George Orwell. Naturalmente, o que aqui tem é a versão verdadeira do livro de Reed.

Este livro que tem em mãos, Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, não é, portanto, uma peça literária. É um documento frenético, uma reportagem vivida, uma coleção de memórias e de documentos de cada um dos momentos dessa vertigem que foram esses dias do final de 1917, um manifesto de vontade. Descreve o que se passou sobretudo em Petrogrado, o epicentro da revolução, com alguns testemunhos das frentes de guerra e de Moscovo ou de outros grandes centros, onde se decidia o destino do império czarista e do governo que lhe sucedeu, de Kerenski.

Em contrapartida, Reed fala pouco de si no livro. Salvo alguns episódios narrados na primeira pessoa, o seu próprio papel é desvalorizado, mesmo que tenha sido simbolicamente importante: discursou no congresso dos sovietes, pegou em armas para fazer parte de piquetes e defender um dos ministérios durante os dias de novembro, promoveu a defesa da revolução e combateu a intervenção militar norte‑americana, participou num congresso internacional em Baku (onde se travou de razões com Zinoviev, o primeiro presidente da Internacional Comunista), foi delegado ao primeiro congresso da Internacional Comunista, fez parte do dispositivo de propaganda soviética nos primeiros anos.

Mas o livro fala‑nos dos dirigentes e dos militantes, lembrando sempre os soldados ou trabalhadores anónimos cujas intervenções e discussões iam marcando a viragem vertiginosa que, em poucos dias, assegurou a maioria bolchevique no congresso dos sovietes e, portanto, a legitimidade revolucionária. Nesse contexto, Reed não nos apresenta um retrato de Lenine, ou de Trotski, ou de Martov, ou de Kamenev, ou de Kerenski, ou dos chefes dos outros partidos e fações. Esboça, apesar de tudo, alguns traços, quando transcreve as suas intervenções e os debates em que participaram, as suas ações e decisões. Ficamos, no entanto, a saber muito de como se moveu o mapa político, do sentimento das multidões, das organizações populares, das atitudes dos comités de soldados, dos representantes das fábricas, da imprensa, do que se discutia nos transportes públicos, dos boatos, das frases da rua, das posições dos empregados de café e de muita gente. Isso é a luta de classes, o confronto de ideias e de posições e movimentos.

É certo que ao lerem os Dez Dias alguns leitores ou leitoras podem ser tentados a buscar analogias com a sua própria experiência ou com a sua imaginação, e essa busca marcou muito do que se passou nas esquerdas ao longo das décadas seguintes. No entanto, dificilmente se encontrarão tais analogias. Uma revolução não é um jantar de gala, dizia trinta anos mais tarde um comunista chinês, e não é, de facto. Se fosse uma cerimónia ou um protocolo, poderia repetir‑se. Mas não é.

É certo que ao lerem os Dez Dias alguns leitores ou leitoras podem ser tentados a buscar analogias com a sua própria experiência ou com a sua imaginação, e essa busca marcou muito do que se passou nas esquerdas ao longo das décadas seguintes. No entanto, dificilmente se encontrarão tais analogias. Uma revolução não é um jantar de gala, dizia trinta anos mais tarde um comunista chinês, e não é, de facto. Se fosse uma cerimónia ou um protocolo, poderia repetir‑se. Mas não é. É uma luta pelo poder em que se decidem desequilíbrios fundamentais, em que se jogam forças decisivas, em que a radicalização destrói normas políticas e formas de organização social que pareciam eternas. Assim foi em Petrogrado naqueles dez dias. E, como é a luta pelo poder, é política pura, não é imaginação. Só está ao alcance das forças sociais que têm a determinação de mudar o mundo. Ora, os pequenos grupos que na Europa das décadas seguintes se imaginavam a caminho do Olimpo ignoraram frequentemente a coerência estratégica, o pragmatismo, a necessidade de conjugação de forças, numa palavra, a luta denodada pela maioria. A esquerda, presa nas suas analogias, viveu mais a luta pela minoria do que a luta pela maioria, e isso faz toda a diferença.

Ora, há pelo menos três grandes diferenças entre a situação do colapso do czarismo e as evoluções dos regimes posteriores do capitalismo liberal no pós‑Segunda Guerra. A primeira é que um império autocrático do czar desabou porque a sua frente de guerra colapsou e milhões de soldados ficaram à mercê das intempéries do mundo. Nem com a derrota militar do império colonial português e consequente queda da ditadura esta situação se pode comparar.

A segunda é que os partidos políticos russos configuravam um mapa muito diferente do que veio a ser a evolução posterior da política europeia, não tanto na direita, mas antes no centro e na esquerda. Os partidos menchevique e socialista‑revolucionário, ou o Bund, a organização social‑democrata judaica, que representavam antes de outubro e novembro a maioria das organizações populares, eram partidos que seriam incomparáveis com os de hoje: opunham‑se à guerra (lembremo‑nos de Blair em todas as guerras ou de Os Verdes alemães no Afeganistão), defendiam a distribuição das terras, afirmavam a necessidade de uma revolução social e, no caso de uma fação dos socialistas‑revolucionários, participaram mesmo no governo de Lenine. A deslocação para a direita da social‑democracia e de outras formações políticas, em particular com a sua inclusão estrutrual no universo da finança, marcou o século e as suas contrarrevoluções, e essa mudança não tem retorno, só tem contradições.

A terceira é que a Revolução de Outubro (que ocorreu em novembro, como se sabe, dada a diferença entre os calendários russo e europeu) se baseava na expectativa de uma revolução na Europa central, em particular na Alemanha. O tema foi então muito debatido, mas é evidente que Lenine ou Trotski, se não todo o estado‑maior bolchevique, esperava desesperadamente o apoio da população alemã. Lenine, num episódio célebre, dançou na neve no pátio do Kremlin quando o seu governo durou mais um dia do que a Comuna de Paris, pois não estava certo de que chegasse a tanto: sem a Alemanha ao seu lado, os dirigentes russos sabiam do perigo do isolamento. Ao longo do livro, encontramos muitas referências a essa expectativa, que mais tarde a Internacional Comunista alimentaria, em 1918 e sobretudo em 1923, quando Radek e Trostki se empenham em acompanhar os preparativos da insurreição, que veio a fracassar.

Há uma lição desta revolução, e essa é fundamental para todas as tentativas de conquista do poder pela massa dos trabalhadores: sem uma organização popular que represente e decida, que organize a maioria dos trabalhadores, que permita a expressão das suas opiniões, que sinta o pulsar do povo, que oriente a luta e que tome decisões democráticas, a revolução não tem a legitimidade que lhe permite perdurar e organizar o Estado e fica limitada ao golpe palaciano.

Não é, portanto, possível encontrar hoje uma comparação direta entre as condições sociais e a memória política do movimento operário, ou dos seus partidos, que aproxime as condições conjunturais da Revolução de Outubro das condições da disputa política um século depois. Há, no entanto, uma lição desta revolução, e essa é fundamental para todas as tentativas de conquista do poder pela massa dos trabalhadores: sem uma organização popular que represente e decida, que organize a maioria dos trabalhadores, que permita a expressão das suas opiniões, que sinta o pulsar do povo, que oriente a luta e que tome decisões democráticas, a revolução não tem a legitimidade que lhe permite perdurar e organizar o Estado e fica limitada ao golpe palaciano. A diferença é toda a diferença, tanto mais que, mesmo com estes dias que “abalaram o mundo”, o isolamento da revolução cercada e bombardeada – as potências ocidentais invadiram a Rússia e foram derrotadas – facilitou depois a emergência de um poder burocrático e a tragédia estalinista.

Dessa tragédia não nos fala o livro. Isso veio depois e não estava escrito. Foi o resultado de uma derrota dentro do partido bolchevique e dentro do poder soviético. Em contrapartida, o livro conta‑nos o tempo em que tudo era possível. E é esse turbilhão de revolta e de esperança que faz deste um grande livro, porque é verdadeiro para com a sua gente.

A saga de Reed foi bem contada no filme Reds, de Warren Beatty (com Warren Beatty, Jack Nicholson, Diane Keaton, recebeu o Óscar de melhor realização em 1981). Diane Keaton representa Louise Bryant, casada com Reed e que acompanhou os seus últimos anos na Rússia, mas também reconhecemos outras personagens, como a fascinante Emma Goldman, defensora e depois crítica da Revolução Bolchevique, anarquista e feminista, um portento na luta pela criação do movimento operário nos Estados Unidos, ou o escritor Eugene O’Neill. Mas a história é centrada em Reed, jornalista, boémio, comunista, correspondente de guerra, percorreu o México com as tropas de Pancho Villa, veio para a Europa cobrir a Grande Guerra, fundou e cindiu o Partido Comunista dos EUA, foi cônsul russo em Nova Iorque quando o governo de Lenine não era reconhecido, foi preso e perseguido, foi adorado pelos seus amigos e detestado pelos seus inimigos.

John Reed era um aventureiro empenhado, um revolucionário de combate e um escritor de mérito. Este livro é por isso testemunho de uma vida e de uma revolução. É um monumento de esperança na abertura do século das grandes revoluções e tragédias.


Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, de John Reed, tem nova edição comemorativa do centenário da Revolução de Outubro, com tradução de Ana da Palma e ilustrações de Catherine Boutaud. O livro está disponível em venda online pelas Edições Combate e em dezenas de livrarias por todo o país: Bertrand, Fnac, Ler Devagar, Leya, Mob, Almedina, Lello, Oficina do Livro, Book House, Bulhosa, Lacio, Barata, Ler, Latina, Unicepe, Somar (Ponta Delgada), Fonte de Letras (Montemor-o-Novo), Bucholz, Arquivo (Leiria), Boa Leitura (Leiria), Centésima Página (Braga), entre outras.


Veja aqui a apresentação de Francisco Louçã no lançamento do livro em Lisboa:

 

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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