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Legislativas em França: Esquerda desafia o macronismo

A coligação de esquerda e o seu projeto de rutura com o liberalismo esteve no centro das legislativas francesas. Do outro lado, Macron promete um liberalismo ainda mais feroz em nome da estabilidade e Marine Le Pen perdeu protagonismo mas a extrema-direita continua à espreita de oportunidades. Dossier organizado por Carlos Carujo.

Poucas semanas após a reeleição de Emmanuel Macron nas presidenciais, o eleitorado francês regressa às urnas a 12 e 19 de junho para escolher os membros do Parlamento. Ao contrário do que acontece em Portugal, o sistema eleitoral francês tem 577 círculos  que elegem um único representante. Se alguém alcançar mais de 50% dos votos fica eleito à primeira volta, caso contrário passam à segunda volta os candidatos que obtenham mais de 12,5% dos votos os eleitores inscritos.

Foi Jean-Luc Mélenchon quem protagonizou a campanha eleitoral para as legislativas em França. Imediatamente depois de ser conhecido o desfecho da segunda volta das presidenciais em que não participava, subiu ao púlpito para anunciar que nessa noite começava a “terceira volta” das eleições. O líder da França Insubmissa roubou o palco ao anunciar que apontava para o lugar de primeiro-ministro do país e ao desencadear um processo unitário à esquerda.

Assim nasceu a NUPES, Nova União Popular Ecológica e Social, juntando “insubmissos”, comunistas, socialistas e ecologistas. E foi sobretudo dela se falou ao longo de toda a campanha. O Esquerda.net seguiu esse percurso. Analisando como foi construída e as suas razões, contextualizando com Laurent Lévy o seu enquadramento numa longa história de encontros e desencontros dos partidos mais votados da esquerda francesa, olhando para o seu programa, dando voz ao próprio Mélenchon para se explicar, numa campanha em que afirmava querer nada mais nada menos do que “mudar a orientação geral da vida em sociedade”.

Neste dossier, com Patrick Le Moal, regressamos à análise do programa da NUPES para melhor entender o fenómeno e, com Stefano Palombarini, aprofundamos a questão das possibilidades de afirmação desta “esquerda de rutura” que desafia a liberalização que tem dominado há muito a política francesa.

Olhamos ainda para os outros dois blocos mais importantes: o centrão liberal do atual presidente Macron e a extrema-direita da veterana Marine Le Pen. Olivier Guyottot disseca as diferenças estratégicas dos três principais contendores, nomeadamente, a “escolha crucial” da nova primeira-ministra nas vésperas das eleições.

Macron, que esteve meio desaparecido de toda a campanha, regressou na ponta final da campanha para estigmatizar os dois adversários como extremistas que trariam a crise. A “estabilidade” que ele promete, mostra-nos Myriam Martin, é a do recuo social. Também passadista e com dificuldade em mostrar que não foi ultrapassada, Marine Le Pen fez campanha com os temas de sempre da extrema-direita, continuou a tentar “desdiabolizá-la” e juntou-se ao coro mediático e político que tratou de diabolizar a NUPES, como nos conta Carlos Carujo.

Jean-François Deluchey destaca que a extrema-direita fica de fora de uma alternativa em que ou se inicia “um novo ciclo sócio-político e uma refundação profunda das instituições francesas e do seu papel no cenário internacional” com Mélenchon, ou o projeto antipopular de Macron poderá resultar numa situação que fique “rapidamente insustentável socialmente”.

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Neste dossier:

Legislativas em França: Esquerda desafia o macronismo

A coligação de esquerda e o seu projeto de rutura com o liberalismo esteve no centro das legislativas francesas. Do outro lado, Macron promete um liberalismo ainda mais feroz em nome da estabilidade e Marine Le Pen perdeu protagonismo mas a extrema-direita continua à espreita de oportunidades. Dossier organizado por Carlos Carujo.

Do "Futuro em Comum" ao programa da NUPES, o que muda?

Entre o programa de Mélenchon nas presidenciais e o da coligação há poucos avanços, como salário mínimo e empregos para transição ecológica, omissões e recuos como sobre a Nato e a União Europeia. Enunciam-se muitas diferenças que podem travar decisões. Mas o combate ao neoliberalismo macroniano mantém-se. Por Patrick Le Moal.

Stefano Palombarini com Mélenchon.

Stefano Palombarini: “A esquerda será uma esquerda de rutura ou não será”

O economista que faz parte do “Parlamento da União Popular” analisa o papel dos três grandes blocos saídos das últimas presidenciais: o macronismo, a extrema-direita e a esquerda que se juntou à volta de Mélenchon. Sendo evidente que esta deve cortar com o neoliberalismo e o social-liberalismo, nesta entrevista equaciona-se como.

Macron e Elisabeth Borne, então ainda ministra da Transição Ecológica, nas vésperas de ser nomeada primeira-ministra. Foto de LUDOVIC MARIN/POOL MAXPPP OUT/Lusa.

Três estratégias desiguais para um resultado incerto

Olivier Guyottot analisa o papel do aproveitamento da temporalidade, dos diferentes posicionamentos que os líderes políticos assumiram, das dinâmicas de alianças e da “escolha crucial” da nova primeira-ministra nas vésperas do processo.

Macron, o presidente do recuo social e do passadismo liberal

A partir do programa eleitoral de Macron para as presidenciais, Myriam Martin mostra a essência do seu projeto e como o “presidente dos ricos” se prepara para intensificar os ataques sociais nos próximos cinco anos.

Cartaz eleitoral rasurado da campanha de Marine Le Pen. Foto de Mohammed Badra/EPA/Lusa.

Le Pen: a extrema-direita de sempre tenta fazer-se ouvir

Ultrapassada como principal desafiadora do atual presidente, a líder da extrema-direita apostou nos temas de sempre da União Nacional nas legislativas, somou-lhe as críticas à idade de reforma e ao aumento da inflação e fez parte ativa do coro que achou por bem criar uma nova diabolização na vida política francesa: a do perigo da esquerda.

Cartazes da primeira volta das eleições presidenciais francesas. Foto de CHRISTOPHE PETIT TESSON/EPA/Lusa.

“As legislativas francesas são uma verdadeira terceira volta das presidenciais”

Se Mélenchon for eleito primeiro-ministro, abrir-se-á um novo ciclo com uma refundação profunda das instituições e do seu papel no cenário internacional. Caso Macron ganhe é provável que a sua situação fique insustentável porque o seu projeto antipopular não pode ser realizado sem grandes tumultos, defende Jean-François Deluchey.