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Extrema-direita e liberalismo, a nova receita do sistema

A nova vaga de partidos de extrema-direita tem aspeto e política económica diferentes das anteriores. Agora, grande parte, é descomplexadamente liberal no seu programa, servindo dessa forma os interesses dos mais poderosos economicamente. Como o prova o Chega em Portugal. Dossier organizado por Carlos Carujo.
Manifestação anti-fascista em Londres. Dezembro de 2018.
Manifestação anti-fascista em Londres. Dezembro de 2018. Foto de Socialist Apeal/Flickr.

A nova extrema-direita mudou de imagem para ser mais apresentável. Mas não só. O velho fascismo era corporativista para matar o sindicalismo e monopolista para reforçar o poder dos grandes empresários que o apoiavam. As extremas-direitas que se lhe seguiram em tempo de globalização agarravam-se com unhas e dentes ao protecionismo. Esta nova onda que cresce é, muitas vezes, descomplexadamente liberal no seu programa. Serve assim os interesses dos mais poderosos economicamente.

Em Portugal é o Chega que cumpre este papel, gritando indignação contra o sistema por um lado, sendo um seu acérrimo seguidor do liberalismo que pretender destruir o Estado Social por outro. Não faz nada de novo. Copiou o modelo do Vox aqui ao lado e de Salvini na Itália.

A nova extrema-direita é um fenómeno que irrompe um pouco por toda a Europa, e de que apresentamos aqui um atlas imperfeito, tendo chegado a vários governos com plataformas diferenciadas, como nos explicam Stefanie Ehmsen e Albert Scharenberg,mas a vaga é mundial. E a tendência para um liberalismo de extrema-direita é comum a outras paragens. O sociólogo Ruy Braga explica-nos como, no Brasil, o governo de Bolsonaro reformou a Segurança Social contra os direitos dos trabalhadores, privatizou e precarizou ainda mais as relações de trabalho, para além do seu discurso sexista, racista, homofobo e autoritário. A mesma tendência nos Estados Unidos, onde Trump, ídolo de muitos destes movimentos, alia um discurso intensamente discriminatório e ineditamente violento para o cargo que ocupa com uma governação em benefício dos mais ricos.

Através de análises mais globais, Jaime Pastor analisa esta relação entre liberalismo e extrema-direita, sintetizando algumas das suas caraterísticas, e Fernando Rosas inscreve-a na comparação histórica entre novas e velhas extrema-direitas.

O outro lado da moeda, é que o casamento entre liberalismo e extrema-direita não é tão contra-natura como se poderia pensar. Francisco Louçã mostra-nos as simpatias autoritárias de alguns dos ídolos dos liberais. E, ao explicar liberalismo e neoliberalismo, João Rodrigues, também desmistifica a ideia do liberalismo como ideologia e prática da liberdade. A filósofa brasileira Marilena Chauí vai mais longe na sua análise da relação entre autoritarismo e liberalismo, considerando o neoliberalismo como uma forma de “totalitarismo”.

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Resto dossier

Manifestação anti-fascista em Londres. Dezembro de 2018.

Extrema-direita e liberalismo, a nova receita do sistema

A nova vaga de partidos de extrema-direita tem aspeto e política económica diferentes das anteriores. Agora, grande parte, é descomplexadamente liberal no seu programa, servindo dessa forma os interesses dos mais poderosos economicamente. Como o prova o Chega em Portugal. Dossier organizado por Carlos Carujo.

André Ventura junto com Pedro Passos Coelho na campanha eleitoral que o irá eleger como vereador do PSD em Loures. Foto de Nuno Fox/Lusa.

Só de liberalismo é que não Chega

O partido com mais sucesso da extrema-direita nacional pretende passar por partido de protesto. Mas em questões económicas é totalmente alinhado com os interesses dominantes. O seu programa levaria à destruição da escola pública, ao fim do Serviço Nacional de Saúde e do princípio de que quem ganha mais, paga mais impostos.

Cartaz anti-extrema-direita numa manifestação em Londres. Julho de 2018.

Atlas imperfeito da extrema-direita na Europa

Assume faces diferentes mas sempre reconhecíveis, escolhe inimigos diferentes mas sempre nos mais fracos, faz discursos diferentes mas sempre promovendo o ódio. A extrema-direita que juravam há pouco tempo ser coisa do passado e não ter lugar na Europa, chegou em força e governa vários países. Conheça alguns dos movimentos.

Capa da brochura A extrema-direita no governo.

A extrema-direita no governo

Há um casamento de conveniência entre nacionalismo e neoliberalismo e os novos autoritarismos fazem perigar a democracia. É o que defendem Stefanie Ehmsen e Albert Scharenberg em “A extrema-direita no governo: seis casos por toda a Europa” da Fundação Rosa Luxemburgo. Trazemos a introdução de um texto que pode ser lido aqui.

Marilena Chauí por Patrícia Araújo. Foto de Outras Palavras

O que é a “nova” ultradireita?

A nova ultradireita submete a nação aos poderes globais apesar da sua retórica. O seu totalitarismo já não se inscreve na lógica do Estado mas sim na da Mercadoria, da Empresa, da Meritocracia, do Investidor. Esta é a tese da filósofa brasileira Marilena Chauí.

Manifestação anti-fascista em Itália.

O Autoritarismo Pós-liberal

Neste artigo, Fernando Rosas explica-nos que a história não se repete, mostrando as diferenças dos novos autoritarismos de caráter liberal dos velhos fascismos e lembrando a urgência do combate contra estes fenómenos.

Cartaz na caravana contra as multinacionais, uma iniciativa dos sindicatos da Colômbia em julho de 2014.

Liberalismo e neoliberalismo

“O liberalismo é o outro nome da utopia capitalista, ou seja, da distopia capitalista para os subalternos”. Publicamos aqui em conjunto duas entradas, uma sobre liberalismo e outra sobre neoliberalismo, elaboradas pelo economista João Rodrigues para o Alice Dictionary do CES da Universidade de Coimbra.

A União Europeia, as políticas sociais, e os fundamentos: de Hayek para Salazar, até aos liberais autoritários

Neste artigo trato brevemente da relação entre a crise estrutural e as ameaças recentes contra o Estado Social e, em particular, da forma como diversas correntes do liberalismo moderno, incluindo Hayek ou os ordoliberais, abordaram a questão da relação entre a democracia e o funcionamento do Estado. Por Francisco Louçã.

Jaime Pastor.

Direitas radicais, neoliberalismo e pós-democracia

Neste artigo de 2018, Jaime Pastor sublinha a captura pela extrema-direita da agenda política. Para além de serem pseudo-outsiders, de mobilizarem o ódio contra migrantes e refugiados, de apostarem na guerra cultural ultra-conservadora, têm em comum serem coniventes ou fervorosos adeptos do neoliberalismo.

Ruy Braga.

“A bolso-economia está destinada ao fracasso”

Para além do sexismo, racismo, homofobia e autoritarismo, Bolsonaro é também nome de uma reforma da Segurança Social que corta direitos e aumenta o tempo de descontos, de uma política

de cortes nos gastos públicos, privatizações, precariedade e desemprego. É o que nos explica o sociólogo Ruy Braga nesta entrevista.

Donald Trump. Setembro de 2016. Nova Iorque.

Trumponomics: uma política de classe

Pela retórica truculenta, Trump tornou-se ídolo da extrema-direita. Os ataques a minorias, negacionismo climático e ultra-conservadorismo tornaram-se mainstream. Com o arsenal do reacionarismo, o presidente norte-americano criou o mito de ser contra o sistema. Mas representa apenas o poder retocado do velho sistema económico.

Manifestante contra Salvini. Dezembro de 2019. Itália.

Salvini: falhanço económico e impunidade política

As contradições sobre nacionalismo, Europa e corrupção parecem não afetar o líder da extrema-direita italiana. A má prestação económica do governo em que participou também não. O facto de ter prescindido de políticas centrais ainda menos. Conseguirão as “sardinhas” acabar com o estado de impunidade permanente de Salvini?

Santiago Abascal, líder do Vox.

Radiografia do Vox, o novo partido da extrema-direita espanhola

O Vox emergiu em dezembro de 2018 nas eleições andaluzas e parece ter assegurada a entrada no parlamento com as eleições legislativas do próximo fim de semana. Radiografia de um partido militarista, racista, clerical, pró-imperialista, anti-feminista e neoliberal. Por Daniel Pereyra/Viento Sur.