El Salvador, o autoritarismo Bitcoin ou o neoliberalismo revisitado

Os defensores de um sistema financeiro livre da intromissão governamental através de criptomoedas têm em El Salvador o primeiro teste de algodão. E ele está sujo.

15 de dezembro 2021 - 18:01
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Protesto que juntou centenas de milhares de trabalhadores e pensionistas contra a imposição de Bitcoin em El Salvador. Foto de Rodrigo Sura via EFE/EPA/Lusa.

El Salvador foi o primeiro país a reconhecer uma criptomoeda – a Bitcoin – como moeda nacional. Em poucas semanas, as máquinas de multibanco foram substituídas por máquinas de bitcoin e as lojas passaram a reconhecer pagamentos em bitcoin. Mas o processo denuncia um governo autoritário e puramente anti-democrático.

O anúncio foi feito em setembro pelo Presidente de El Salvador, Nayib Bukele, uma personagem difícil de perscrutar, atualmente com laços à extrema-direita, com um caminho político tão aleatório quanto caricatural e que não existiria sem a administração Trump.
Em 2012, foi eleito presidente da câmara de Nuevo Cuscatlán e, em 2015, da capital San Salvador, apoiado pela Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), partido herdeiro de diferentes partidos e guerrilhas de esquerda ativas durante a ditadura militar apoiada pelos EUA (1980-1992).

Em 2017, Bukele é expulso da FMLN por violações éticas e funda o seu próprio partido, o Nuevas Ideas, que define como “democrático, descentralizado, plural, e inclusivo”, livre de “ideologias obsoletas”, programaticamente a favor de um mercado livre e “economia social”.
Num país com violência e corrupção endémicas, o seu discurso anti-corrupção ganha um extenso apoio popular que o leva a uma vitória expressiva nas eleições presidenciais de 2019, ganhando uma supermaioria de 56 assentos num parlamento de 84 deputados.               

Sem surpresas, a narrativa pós-ideológica aliada a um discurso populista sobre corrupção degenerou rapidamente numa ação política reacionária. Nos primeiros meses de governo, vários programas sociais da FMLN foram atacados sucessivamente. Simbolicamente, os centros de apoio a mulheres – Cuidad Mujer – foram extintos. Seguiram-se os secretariados anti-corrupção e transparência, inclusão social e direitos LGBT, direitos das mulheres e reparações para as vítimas do massacre de Mozote.

À semelhança de Trump, transformou o Twitter na sua arma política, muitas vezes contra os seus próprios ministros, lançando ordens que recebiam a resposta de “é para já, Sr. Presidente”. Apesar da sua cruzada anti-nepotista, rapidamente nomeou vários familiares para o Governo.

O tio de Bukele, após ser nomeado secretário do investimento, tomou como primeira iniciativa estender o horário de trabalho de oito para dez horas por dia. Milhares de trabalhadores da função pública foram despedidos e o assédio a jornalistas tornou-se rotina, ao mesmo tempo que uma ação agressiva de forças policiais justificada pelas medidas de combate à covid-19 lançou alertas de violações repetidas de direitos humanos.

Desde que chegou ao poder, vinte instituições da administração de Bukele foram colocadas sob investigação pelo procurador-geral do país devido a uma “explosão de irregularidades e casos de corrupção” mas, em maio deste ano, Bukele utilizou a sua supermaioria parlamentar para despedir o Procurador-Geral, bem como cinco juízes do Supremo Tribunal.

Pelo meio de todo o caos e improvisação aparente, a deferência para com o setor privado e interesses financeiros parece ser a única constante da sua ação política, a receita clássica das políticas neoliberais que destruíram vários países da América do Sul durante décadas.

[Parte II sobre El Salvador para ler aqui]

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