As várias gerações de criptomoedas e a sua utilização

Atualmente existem dezenas de milhares de criptomoedas que qualquer pessoa pode adquirir, ou criar, através do seu telemóvel. Destas, alguns milhares estão disponíveis em mercados especulativos, algumas centenas têm utilidade teórica e algumas dezenas ou menos têm utilização comprovada.

11 de dezembro 2021 - 17:29
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Da Bitcoin à Ethereum, Ripple à Hashgraph, os saltos tecnológicos de cada uma das gerações de criptomoedas já lhes garantiu uma relevância própria. Foto via Bermix Studio, Unsplash.com.

Podem distinguir-se já várias gerações de criptomoedas, cada uma com novas tecnologias. Se Bitcoin popularizou a blockchain, Ethereum introduziu uma função inacessível a Bitcoin: smart contracts. Esta tecnologia funciona com base em blockchain mas permite a realização de operações complexas quando as condições pré-determinadas no contrato são alcançadas, sem a necessidade de autoridade externa que garanta ou imponha o cumprimento do contrato e sem qualquer possibilidade de alterar ou eliminar o contrato (porque está registado em blockchain). E isso pode incluir operações tão simples como ordens de mercado ou, teoricamente, operações que exigem advogados como a gestão de heranças.

Esta função transformou a Ethereum na rede mais popular com base na qual milhares de outras criptomoedas foram construídas, criando novamente um problema de capacidade e limites de transações nesta blockchain que lançam os custos para níveis proibitivos para os utilizadores de pequena dimensão.

Em julho de 2021, foram registadas 1,1 milhões de transações num único dia, com preços por transação (Gas fees) que chegaram a uma média de 400 dólares por transação. Um utilizador que tivesse hipoteticamente comprado 100 dólares de uma criptomoeda na rede Ethereum numa altura de fraca especulação (e taxas baixas) e tivesse depois realizado ganhos de 400% (totalizando 400 dólares), perderia tudo se tentasse converter nesse momento a criptomoeda em moeda fiduciária.

A razão para estes níveis de taxas prende-se com a própria natureza do mecanismo de consenso da Ethereum, que funciona num mecanismo proof of work semelhante a Bitcoin. Como já descrevemos, é um mecanismo espantosamente ineficiente e, teoricamente, sujeito a possíveis ataques maliciosos. Mas existem outras tecnologias já no terreno que ultrapassam estes problemas.

Ripple e Hedera, as ledgers de bancos e empresas

A blockchain da Ripple funciona simultaneamente como criptomoeda (XRP) e como rede de pagamentos digitais para transações financeiras. Ao contrário de Bitcoin ou Ethereum, o seu objetivo de origem foi ser uma alternativa à rede SWIFT, que atualmente domina as transações interbancárias a nível internacional, criando um sistema cujo mecanismo de consenso opera nos servidores das próprias instituições bancárias e que lhes permite realizar operações de enorme volume em poucos segundos.

Qualquer pessoa que já tenha transferido dinheiro entre fronteiras recorrendo ao SWIFT sabe o tempo que demora a que a transação seja confirmada entre as instituições bancárias. XRP resolve o problema com transações comparativamente instantâneas e com custos de transação de milésimas de cêntimos.

Hedera Hashgraph recorre ainda a outro método. Ao invés de uma blockchain no sentido clássico definido pela Bitcoin, a Hedera funciona com base num algoritmo de consenso que funciona ordenando transações através de timestamps registadas num registo público descentralizado [Distributed Ledger].

DLT são sistemas onde grupos de computadores vão partilhar algum tipo de informação e nenhum agente do grupo confia noutro agente para não falsear informação, mentir ou tentar impedir consenso. Mas confiam no grupo como um todo partindo do princípio de que não haverá matematicamente demasiados maus agentes no grupo. Ao contrário da Bitcoin e outras blockchain, a DLT da Hashgraph foi construída com novas tecnologias e garantias de descentralização publicamente verificáveis.

Se na maioria das blockchain cada transação é registada e introduzida num bloco que estrutura a cadeia do registo de informação, a Hashgraph não obriga à introdução da transação no bloco e posterior consensualização em toda a rede, mas antes simplifica o processo criando timestamps que funcionam como peças de encaixe únicas, que consensualizam exclusivamente com o que vem antes e depois.

O resultado é drástico. Ao invés de 3 transações por segundo com Bitcoin ou uma dúzia com Ethereum, Hashgraph garante centenas de milhares de transações consensualizadas por segundo. E garante isso com uma latência praticamente nula entre a realização da transação e a emissão de prova criptográfica que o utilizador possa apresentar como prova.

Esta diferença tecnológica é o que lhe permite apresentar custos para o utilizador e recursos de energia de níveis tão baixos que nem a XRP rivaliza. Ou seja, será a primeira tecnologia de Distributed Ledgers que poderá ser adoptada de forma útil pelo “mundo real”.

Algumas indústrias nos EUA já adotaram a tecnologia como a base do seu funcionamento, como a indústria de cupões comerciais. Com cerca de 1,7 biliões de cupões redimidos por ano, a indústria até recentemente funcionava com base nos códigos de barras, obrigando a uma extensa infraestrutura interna a cada empresa, com graus de erro elevados e interoperabilidade reduzida. Agora, todos os cupões são emitidos através da Hashgraph que, por ser um registo público (DLT), garante que a informação do cupão é sempre rastreável e consensualizada com a sua emissão original. Esta função de rastreamento de confiança foi o que levou a indústria farmacêutica a adotar o sistema no processo de distribuição de vacinas da covid-19, por exemplo.

Quer isto dizer que sejam quais forem as criptomoedas que marquem os mercados especulativos, a tecnologia que lhes subjaz veio para ficar e a sua utilização será provavelmente tão estrutural ao sistema económico quanto a própria internet dentro de poucos anos.

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