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A viagem do cruzeiro Satoshi

Como melhor definir um libertário? São o equivalente a um gato: absolutamente convencidos da sua independência e absolutamente dependentes de um sistema que não apreciam nem compreendem. A viagem do Satoshi parece dar vida à metáfora.
Imagem do cruzeiro Pacific Dawn, renomeado Satoshi em honra do fundador da Bitcoin. Foto via site da Viva Vivas.
Imagem do cruzeiro Pacific Dawn, renomeado Satoshi em honra do fundador da Bitcoin. Foto via site da Viva Vivas.

A metáfora sintetiza a curiosa aventura de um conjunto de bitcoiners à procura de um espaço livre das amarras da sociedade ou Estados e, claro está, de impostos.

A filosofia tinha um plano - SeaSteading - e um grupo de apoiantes onde não faltava Peter Thiel, o homem forte do capital de risco de Silicon Valley e um dos primeiros apoiantes de Donald Trump na sua ascenção à presidência dos Estados Unidos da América (os eleitores deveriam levar Trump "a sério, não literalmente", afirmou na altura numa frase que se tornou um programa).

Em resumo, o objetivo era encontrar um território livre de governos onde os entusiastas de criptomoedas possam viver livres de responsabilidades ou burocracias. E se a terra está dominada por governos, então porque não criar "casas em alto mar"?

Para Patri Friedman, um engenheiro da Google e fundador do Seasteading Institute (e neto de Milton Friedman), o futuro da humanidade passa por cidades flutuantes em mar alto, onde o próprio conceito de liberdade de escolha seria reescrito pela possibilidade de a comunidade de casas flutuantes (chamar-lhes barcos seria uma ofensa conceptual) se poder rearranjar de acordo com as escolhas de quem detém as unidades flutuantes. "A Democracia seria reinventada para um sistema onde as comunidades mais pequenas, incluindo indivíduos, poderiam votar com as suas casas”, descreveu.

Entre o delírio e a palermice ideológica não faltavam entusiastas para apoiar os esforços de Friedman. E a crise pandémica foi a oportunidade perfeita para um grupo de bitcoiners, Grant Romundt, Rüdiger Koch e Chad Elwartowski, avançarem com os seus planos.

Com o colapso das empresas de cruzeiros, adquiriram um navio de 245 metros de comprimento e onze andares que renomearam de Satoshi em honra do criador da Bitcoin. Mas converter um cruzeiro numa nova sociedade foi um pouco mais difícil do que antecipavam.

Em outubro de 2020, o grupo anunciou uma nova empresa para gerir o Satoshi, a Viva Vivas (do latim vive ut vivas, ou “vive de forma a que possas viver”). No Reddit, as explicações de Elwartowski rapidamente esbarraram com os problemas grandes e pequenos que se levantam quando se colocam milhares de pessoas a viver num espaço confinado.

O cruzeiro seria amigo do ambiente e totalmente independente mas a internet teria de ser fornecida por terra e a utilização de eletricidade teria de ser tarifada para impedir os excessos previsíveis de um conjunto de mineradores de criptomoedas a bordo. E as cozinhas? Existia apenas uma e, por razões de segurança, microondas não seriam admissíveis nos quartos (mas alguns poderiam ter mini-frigoríficos).

Animais a bordo eram altamente desencorajados. Não deveriam ter mais do que 9 quilos e não poderiam ladrar ou fazer barulho por mais do que 10 minutos. Segundo a Secção V do Satoshi Purchase Agreement or Secion IV of the Satoshi Master Lease, se um animal perturbasse os passageiros mais do que três vezes num mês ou cinco vezes num ano, seria expulso do navio.

A venda de cabines começou logo em novembro de 2020. As opções iam de um quarto sem janelas por 570 dólares por mês, a um quarto com janela por 629 dólares ou um quarto com varanda por 719 dólares. Os pagamentos seriam aceites numa multiplicidade de criptomoedas. Mas, primeiro, o navio teria de chegar ao Panamá (o único país que aceitou o plano na perspetiva de ser um foco turístico).

O empreendedorismo do grupo não era acompanhado por um grau mínimo de conhecimento sobre o que implicava gerir um cruzeiro, muito menos as responsabilidades e obrigações que um navio deste tipo traz consigo.

Antes de ser rebatizado, o Satoshi tinha o nome de Pacific Dawn e estava ancorado no Chipre. Era um navio com 30 anos de carreira essencialmente no Mediterrâneo e a crise tinha-o condenado à sucata. Vendido por 9,8 milhões de dólares (quando os valores pré-crise andariam pelos 100 milhões), a compra foi uma pechincha. Os problemas vieram depois.

A 29 de outubro, o Pacific Dawn sai do Chipre e é entregue à Ocean Builders, empresa dos novos donos, no porto de Pireu, na Grécia. A equipa contratou a Columbia Cruise Services para arranjar uma equipa de 40 pessoas, o mínimo necessário para o navio funcionar, incluindo um capitão, de nome Harris.

Harris descreve Rüdiger Koch, um dos três membros da equipa que comprou o navio, como um homem agradável mas ingénuo sobre a forma como um navio funcionava e que nutria um considerável desprezo por regras. “Ele pensava que podia tratá-lo como o seu iate privado”.

Para sair do porto, um cruzeiro necessita de certificados de navegabilidade. Normalmente, os compradores certificam-se de que os certificados anteriores têm alguns meses de validade para a primeira viagem para a sua base de operações, mas a equipa não sabia disso. Assim, antes que o Satoshi pudesse rumar ao Panamá, a equipa foi obrigada a levar o navio para uma doca seca em Gibraltar para reparações e certificação.

A viagem pelo Atlântico começou apenas a 3 de dezembro. Agora, os problemas estavam no destino. Elwartowski assumiu que as autoridades do Panamá iriam não só autorizar que o navio ancorasse permanentemente nas suas águas como autorizariam que deixasse de estar registada como um navio, passando a ser uma residência flutuante de forma a evitar as leis marítimas e as suas obrigações. E se o governo do Panamá não levantou problemas em ter o navio nas suas águas, exigiu que se mantivesse oficialmente como um navio. O que levantou outro problema: as descargas de esgoto.

Um cruzeiro deste tipo tem capacidade para renovar águas de esgoto de forma eficaz mas, ainda assim, o esgoto acumulado nos tanques tem de ser evacuado a cada vinte dias. E isso tem legalmente de ser feito a pelo menos doze milhas da costa, em águas internacionais.

O problema não era tanto a necessidade de mover o navio, mas antes a recusa das seguradoras em garantirem uma apólice para o Satoshi. A utilização do navio como uma residência de bitcoiners simplesmente não se acomodava a nenhum modelo de risco que a indústria de seguros estivesse disponível para aceitar.

Com o navio já a meio do Atlântico, Grant Romundt, o terceiro membro da equipa de empreendedores, concluiu que um cruzeiro está “condenado por regulação excessiva”, a par da indústria aérea e indústria nuclear. Os 12 mil dólares de combustível por dia e os cerca de 1 milhão de dólares necessários para manter o navio ancorado durante um mês não ajudaram à motivação da equipa.

A 19 de dezembro, o site da Viva Vias anunciou que “perdemos esta batalha. O Novo Normal, Great Reset ganhou mais uma vítima”, escreveu sem qualquer ironia em referência à tese conspirativa de que a crise e a própria resposta à pandemia teriam sido orquestradas por uma elite global.

O Satoshi aportou em Colon a 22 de dezembro. Por essa altura, a equipa tinha já assinado um contrato com uma sucateira indiana para lhes entregar o cruzeiro, mas mesmo isso correu mal porque, segundo a convenção de Basel, de que o Panamá é signatário, material tóxico não pode ser enviado para países não signatários como a Índia, e o contrato acabou cancelado.

O navio foi finalmente revendido à Ambassador Cruise Line, uma nova empresa com base no Reino Unido, que recuperou o Satoshi para a sua velha missão de cruzeiros para um público alvo acima da faixa dos 50 anos.

 “Um cruzeiro não é um bom local para pessoas que querem ser livres”, desabafou Elwartowski no Reddit meses mais tarde.

Fonte: The disasitrous voyage of the Satoshi, the world's first cryptocurrency cruise ship [The Guardian]

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