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Bitcoin, a alta da moeda falsa

No início deste ano, o conjunto das criptomoedas atingiu a valorização de um bilião de dólares, ganhando 130 mil milhões de dólares num só dia e tendo passado a ser, no seu conjunto, a quinta moeda de maior circulação no mundo. Artigo de Francisco Louçã.
Foto de Executium via Unsplash.com

O assunto foi manchete na imprensa económica e reforçou um sustentado aumento da sua procura e uma espiral dos preços. A bitcoin, que representa cerca de metade desse valor, está agora cotada a 36 mil dólares por unidade e o boato de que grandes empresas estariam a criar stocks de criptomoedas tem mantido o seu preço em alta.

As apostas são frenéticas. A ethereum, a litecoin, a polkadot, a cardano, todas as principais criptomoedas beneficiaram destas aplicações financeiras, por onde se escoa algum do excesso de liquidez que inunda o sistema financeiro. No entanto, uma aplicação financeira não é o mesmo que uma moeda. Uma moeda tem de ter valor de troca e servir para transações; as criptomoedas servem para um tipo especial de transações, as que procuram evitar ser rastreadas, ou seja, o crime, e para outros agentes servem como acumulação de capital. Logo, a criptomoeda não é uma moeda por não ter um uso generalizado no comércio e na vida comum. Nem vai ter: se alguém detém um bitcoin, não vai usá-lo para comprar um jornal ou uma piza, porque espera beneficiar no dia seguinte de uma forte valorização (também já teve quedas catastróficas) e, portanto, vai guardá-lo no cofre forte. Como este valor depende somente da oferta e da procura e não da utilidade prática, de uma equivalência com a economia ou das garantias prestadas por uma entidade pública, estamos no domínio puro da especulação. Por isso, o seu preço tem uma enorme volatilidade e depende das informações e perceções do mundo financeiro, pelo que é inviável utilizá-lo para pagamentos correntes, a função primeira de uma moeda, e duvidoso que possa ser uma reserva de valor a longo prazo. As criptomoedas são jogos arriscados sobre o embuste financeiro.

Apesar dessa evidência, esta tecnologia, que aliás pode servir noutros contextos para objetivos bem mais respeitáveis, está a consolidar-se. Alguns bancos centrais discutem mesmo se podem criar criptomoedas, como uma nova geração de ativos financeiros. Correm atrás do prejuízo: se triunfar, a expansão das criptomoedas relegará os bancos centrais para uma função menor e as consequências políticas e democráticas dessa alteração seriam tão fundamentais como o foi, a seu tempo, a criação de uma única moeda correspondente a cada Estado-nação, uma era que se encerraria com esta transformação social.

Deste modo, está em curso um processo de privatização das moedas, que teve como maior expressão o anúncio de que o Facebook iria criar a sua própria criptomoeda (entretanto alterou substancialmente os seus planos). A PayPal admite começar a aceitar pagamentos em criptomoedas em 2021. Duvido que funcione, dado que os agentes económicos olham para estes valores como uma riqueza e não como um equivalente de preços. Mas outras iniciativas virão para normalizar esta ideia da moeda privada. Ela é a face visível, ou a primeira enunciação de uma revolução nas economias capitalistas modernas, a financeirização, agora como inflação aparentemente ilimitada do capital fictício. Como não há bela sem senão, essa inflação revelar-se-á como o que é, uma bolha. Ponha o seu dinheiro a salvo, não se meta em aventuras.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 22 de janeiro de 2021

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Neste dossier:

Criptomoedas: Do autoritarismo libertário à privatização da moeda

Entre a vertigem especulativa e um mundo descentralizado, a ausência de regulação onde todo o mundo é uma offshore e regressões sociais e anti-democráticas, as tecnologias blockchain e distributed ledgers vieram para ficar. Dossier organizado por Tiago Ivo Cruz.

Moedas digitais centralizadas

Bancos Centrais por todo o mundo discutem a criação de moedas digitais nacionais, que possam competir com a crescente popularidade das criptomoedas e substituir o uso físico de dinheiro. A urgência em adaptar o sistema monetário à mais recente inovação do sistema financeiro poderá aumentar ainda mais o poder dos interesses privados na esfera pública. Artigo de Izaura Solipa.

Protesto que juntou centenas de milhares de trabalhadores e pensionistas contra a imposição de Bitcoin em El Salvador. Foto de Rodrigo Sura via EFE/EPA/Lusa.

El Salvador, o autoritarismo Bitcoin ou o neoliberalismo revisitado

Os defensores de um sistema financeiro livre da intromissão governamental através de criptomoedas têm em El Salvador o primeiro teste de algodão. E ele está sujo.

Portugal é uma offshore de criptomoedas

Em entrevista ao Esquerda.net, Mariana Mortágua considera que as criptomoedas devem ser antes consideradas criptoativos, instrumentos especulativos que devem ser regulados como tal. E alerta para a sua utilização como meios de crime financeiro ou fuga fiscal em Portugal.

Imagem do cruzeiro Pacific Dawn, renomeado Satoshi em honra do fundador da Bitcoin. Foto via site da Viva Vivas.

A viagem do cruzeiro Satoshi

Como melhor definir um libertário? São o equivalente a um gato: absolutamente convencidos da sua independência e absolutamente dependentes de um sistema que não apreciam nem compreendem. A viagem do Satoshi parece dar vida à metáfora.

Um dos paradoxos deste setor é que a popularidade da Bitcoin está em relação inversa com a sua utilidade ou eficácia operativa.

Da vertigem especulativa a um mundo descentralizado

Atualmente com um valor nocional de cerca de 3 biliões de dólares, o mercado de criptomoedas está dominado por Bitcoins, mas esta está longe de ser o seu futuro e nem a especulação financeira define a sua razão de ser. Com um potencial anti-democrático explosivo, a tecnologia veio para ficar e é bom percebermos porquê.

Da Bitcoin à Ethereum, Ripple à Hashgraph, os saltos tecnológicos de cada uma das gerações de criptomoedas já lhes garantiu uma relevância própria. Foto via Bermix Studio, Unsplash.com.

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Lobbying nos EUA revela os interesses atrás das criptomoedas

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O capitalismo puro não quer só privatizar os bens públicos, quer dirigir os sonhos individuais. Zuckerberg é o que está mais próximo da distopia de criar um mercado total. Artigo de Francisco Louçã.

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