Raul Solnado, "uma fábrica de rir"

08 de agosto 2009 - 23:34
PARTILHAR

Raul Solnado era, nas suas próprias palavras, uma Um dos mais reconhecidos actores e humoristas portugueses, Raul Solnado faleceu aos 79 anos vítima de doença cardiovascular. O homem que dizia ser "uma fábrica de rir" inaugurou um novo estilo de humor e fê-lo chegar a milhões de portugueses, mesmo quando a censura ainda apertava o cerco.  

Raul Solnado nasceu em Lisboa, a 19 de Outubro de 1929, na Madragoa, bairro onde pela primeira vez pisou o palco, na Sociedade Guilherme Cossul. Consta que o nome de Solnado foi-lhe dado pela família de uma expressão que ouvira na aldeia de Fundada (Tomar) - "Acordem que já é sol nado".

Desde o palco da Sociedade Guilherme Cossul, Solnado tornou-se primeira figura em diversas revistas do Parque Mayer, em Lisboa, ao lado de nomes como António Silva, Humberto Madeira, Vasco Santana entre outros, e de muitas comédias "que se mantinham em cartaz durante anos". Uma vida cheia, como lembram os amigos, de "generosidade", "grande humildade" e cheia de sucessos no teatro e na televisão.



Até à sua morte, foi director da Casa do Artista, sociedade de apoio aos artistas situada em Carnide, Lisboa, que fundou juntamente com Armando Cortez, entre outros.

Estreou-se como actor em 1953, na revista "Canta Lisboa". O seu primeiro grande sucesso surgiu em 1961, com "A Guerra de 1908", um texto espanhol adaptado para português por Solnado. A história de um soldado que vai "bater à porta da guerra", torna-se um "best-seller", pela qualidade do texto mas também porque Portugal estava em plena guerra colonial e, mesmo falando sobre outra guerra, "o texto foi como um grito". Solnado achou estranho que a censura na época o tivesse deixado passar.



Foi já a partir desta peça que se mostrou a particularidade do humor de Solnado, um humor totalmente diferente da graça brejeira a que o público da revista estava habituado, jogando no "non-sense" em vez do "double-sense".



Segundo o actor Morais e Castro, Solnado deixa a sua marca no desafio à censura e ao atraso do fascismo: "Deve realçar-se durante o fascismo o importantíssimo trabalho do teatro de revista, sempre pronto a criticar o poder e a enganar a censura, com excelentes autores e sobretudo actores: Laura Alves, Aida Baptista, Ivone Silva, entre outras; Eugénio Salvador, Humberto Madeira, José Viana, Raúl Solnado, entre outros."



Em 1969 surge o segundo momento marcante da carreira: o programa Zip-Zip, gravado no Teatro Villaret, apresentado por Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz, muda a televisão em Portugal. Dura apenas sete meses, mas, em plena primavera marcelista, é uma "pedrada no charco", desafiando tabus e contagiando o público. As noitadas em "negociações" com os censores eram longas e árduas. Ao fim de 6 meses, o esgotamento, grande parte dele devido à censura, acabava por fazer terminar o "Zip -Zip". A carreira de Solnado continuou no teatro e ainda noutros programas de televisão.



O actor faleceu aos 79 anos, num altura em que preparava o regresso à televisão. Seria apresentador de um programa na RTP, que iria estrear ainda este ano.



{youtube}pCIkMNduAT4{/youtube}

Termos relacionados: Sociedade