“A violência como arma política é o contrário da democracia

28 de fevereiro 2019 - 0:19

O ex-deputado federal brasileiro Jean Wyllys esteve esta quarta-feira no Parlamento a convite do Bloco. Catarina Martins frisou que “quando alguém que é eleito tem de sair do seu país porque é vítima de violência, de ameaça à sua vida, não há democracia”.

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Foto esquerda.net

"Jean Wyllys é alguém que foi eleito e que não pôde ocupar o seu cargo no Brasil porque as ameaças à sua vida e o facto de o Estado brasileiro ter recusado a dar-lhe a proteção que lhe era devida e que ele devia ter direito o obrigaram a sair do país", lembrou a coordenadora bloquista.

Referindo-se às “coisas mais extraordinárias escritas sobre a visita deste parlamentar brasileiro” e às mentiras propagadas pela extrema-direita, Catarina Martins afirmou que “este é um caso em que a mentira e a propagação da mentira são ataques à democracia”.

“É preciso acusar a mentira e dizer onde a mentira está porque ela mina a democracia e acho que o papel da comunicação social é também muito importante por isso", acrescentou.

A dirigente do Bloco deu ainda ênfase a outra matéria: a da "violência enquanto política".

"Quando alguém que é eleito tem de sair do seu país porque é vítima de violência, de ameaça à sua vida, não há democracia. A violência como arma política é o contrário da democracia", vincou.

Catarina Martins defendeu que “é por isso que toda a gente, concorde ou não com as posições que Jean Wyllys tenha, tem de dizer que não pode haver violência como instrumento político e que, pelo contrário, todas as vozes se devem confrontar e fazer ouvir com liberdade”.

A violência que está a ser feita no Brasil "contra grupos que são identificados como minoritários" é, de acordo com a coordenadora bloquista, "uma violência contra toda a gente".

"Porque um país em que alguém, seja pela sua orientação sexual, seja pelo seu género, seja pela sua religião, seja pela cor da sua pele, se sente em ameaça é um país em que não há liberdade para ninguém. A liberdade de todos nós depende da segurança de todos nós também", destacou.

Catarina Martins assinalou que "a violência como arma política serve sempre e só para esconder um programa de violência contra toda a gente e de violência social".

"Quem vai a eleições - ou quem ganha eleições como aconteceu no Brasil - tendo a violência como instrumento político, o que faz é nunca debater o seu programa e, ao mesmo tempo que foram cavando o ódio e raiva de minorias e fazendo apelos à violência contra minorias, está um programa político, económico a desenrolar-se que ataca os direitos de toda a gente", sinalizou.

Para a dirigente do Bloco, "quem não diz ao que vem e só é capaz de despejar raiva no seu discurso político é porque tem vergonha do seu próprio programa", programa esse que, mesmo que "diga que é contra as minorias, acaba sempre por ser contra toda a gente, contra a generalidade, contra a maioria que vive do seu trabalho".

Extrema-direita portuguesa é patética e inexpressiva

Já Jean Wyllys alertou que Portugal "corre o risco de ter uma extrema-direita mais muscular se a imprensa der espaço a pessoas da extrema-direita", apelando à "responsabilidade" da comunicação social.

“No momento, eu vejo a extrema-direita daqui como patética, inexpressiva, sem autoridade moral, intelectual nem política. Mas, a extrema-direita no Brasil é hegemónica hoje, venceu as eleições [Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil]. Acho que a extrema-direita no Brasil está de alguma maneira em contacto, por causa da mesma língua, com a extrema-direita daqui, tentando insuflá-la, tentando usá-la como bucha de canhão para as suas ações lá”, apontou o ex-deputado federal brasileiro.

"A extrema-direita aqui, que talvez se reduza a 12 pessoas, lamentavelmente ela está se dispondo a fazer isso. Quando a imprensa dá espaço a essas pessoas, ou quando a imprensa não desmascara essas relações, aí sim a extrema-direita pode-se tornar muscular e acho que Portugal tem que se orgulhar, se orgulhar mesmo, de na Europa ser um lugar onde a xenofobia não é tão expressiva”, continuou.

Jean Wyllys participou ainda numa sessão pública "Porque se exilar do Brasil hoje?", que teve lugar na Casa do Alentejo, a partir das 17h30. O espaço foi pequeno para perante a mobilização massiva que se registou, com mais de duzentas pessoas a ficarem à porta por falta de espaço.