Vila catalã aprova plantação de canábis contra a crise

10 de abril 2012 - 23:53

A vontade da maioria do povo de Rasquera, perto de Tarragona, foi expressa em referendo: querem acolher a plantação de um clube social de canábis de Barcelona para ajudar a pagar a dívida do município.

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56,3% deram a vitória ao Sim à plantação de canábis na vila catalã de Rasquera

A proposta está a causar polémica e o autarca eleito pela Esquerda Republicana Catalã (ERC) que a lançou pôs a fasquia alta, ao dizer que se demitiria se a proposta não tivesse o apoio de 75% dos eleitores. O resultado não foi tão expressivo, mas mostra que o povo de Rasquera compreendeu a mensagem: 68% dos 840 eleitores compareceram à chamada e o "Plano Anticrise 2012" aprovado na Câmara teve o "Sim" de 56,3% dos votos.  



"Votei 'sim'. É uma coisa boa para a nossa terra. Não concordo com o uso de droga, mas se não for aqui vão plantar noutros sítios; por isso, que fiquem aqui", afirmou a octogenária Paquita Torres ao El País, recordando que "toda a vida" houve plantações de canábis em Rasquera.



Desde o início, o alcaide Bernart Pellisa fez questão de despartidarizar a sua proposta e até deixou de ser militante da ERC para afastar os ataques políticos da oposição liderada pela Convergência e União (CiU). Com a autarquia a braços com uma dívida avultada, Pelissa propôs uma medida inédita: autorizar a plantação de canábis em sete hectares e meio de terreno para abastecimento da Associação Barcelonesa Canábica de Autoconsumo (ABCDA), um entre dezenas de clubes sociais de canábis em atividade em todo o estado espanhol.



A ABCDA, que conta com cinco mil sócios, propôs uma parceria com a autarquia, comprometendo-se a pagar 1,3 milhões de euros nos próximos dois anos e a criar 40 postos de trabalho. Mas a aprovação por parte da maioria nas urnas pode não significar a luz verde definitiva para o projeto. Depois de contados os votos, Bernart Pellisa recuou nas anteriores declarações inflamadas, dizendo que demitir-se agora "seria uma frivolidade" mas as atenções dos tribunais estão a virar-se para Rasquera.  



Ao contrário do município catalão, a ABCDA já sofreu as consequências da polémica e viu as suas instalações no bairro de Barceloneta invadidas pela polícia local a 22 de março, com o sensacionalismo mediático da ocasião a falar em suspeitas de tráfico de drogas. A Associação respondeu denunciando a "vontade de criminalizar as associações canábicas" e "destruir a luta das associações contra as mafias que controlam o mercado negro". E dias depois o juiz acabou por devolver os computadores e dados apreendidos e o espaço gerido pela associação retomou normalmente as suas atividades.



A ABCDA tem apenas dois anos mas os clubes sociais de canábis são uma realidade com algumas décadas na sociedade catalã e em todo o estado espanhol, aproveitando a lei que não penaliza o consumo pessoal de canábis. Esta associação sem fins lucrativos tem como finalidade criar um espaço privado onde produz e disponibiliza canábis exclusivamente aos seus associados - consumidores ou utilizadores terapêuticos maiores de 21 anos - para além de promover o estudo científico sobre a planta e o debate social sobre a regulação legal e a normalização do consumo de canábis, que ainda é alvo de arbitrariedade policial e judicial.



Independentemente do negócio avançar ou não, o debate sobre o tema está lançado na sociedade catalã e a vila de Rasquera já vê vantagens: para além da azáfama de jornalistas e curiosos que enchem os cafés, o site da ABCDA começou a aceitar encomendas de garrafas do azeite produzido pela cooperativa local, que está à venda nas suas instalações.