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Vídeo fatal

Quantas vezes prevaleceu a versão policial, em situações semelhantes, não havendo vídeo que desmonte a mentira? Como se lê no cartaz: "Quantos Nahel não foram filmados?" Por José Manuel Rosendo em meu Mundo minha Aldeia
Nanterre, Praça Nélson Mandela, local onde foi embater o carro conduzido por Nahel.
Foto: jmr

A morte do adolescente Nahel (17 anos), em Nanterre, França, talvez fosse “apenas” mais uma morte, não houvesse um pequeno vídeo amador com o registo do momento em que Nahel foi baleado por um polícia. Um tiro à queima-roupa.

Num primeiro momento, após a divulgação do vídeo, pairou uma dúvida que o vídeo não esclarecia: o que teria acontecido no interior do carro que pudesse ter provocado o tiro do polícia? O Procurador de Nanterre acabou com essa dúvida: “nada de perigoso foi encontrado no interior do carro. Também não foi encontrada droga”. Isto é: não havia armas! O Procurador de Nanterre explicou ainda que não estavam reunidas as exigências legais para que o polícia utilizasse a arma, e por isso pediu a prisão preventiva para o polícia autor do disparo. A investigação decorre e o polícia deverá ser julgado.

Ficamos assim a saber que nada justifica o tiro e a morte de Nahel. O polícia espera pela investigação e provável julgamento; Nahel está no cemitério de Mont-Valérien, a 2 quilómetros de Nanterre e da Avenida Pablo Picasso onde vivia com a mãe.

“Indesculpável” e “inexplicável”, palavras do Presidente Macron quando falou sobre a tragédia.

Quando a mentira é impossível

Volto ao pequeno vídeo que tudo muda. As imagens são fatais para o polícia. Ou para os polícias, porque há um outro polícia envolvido. Na versão inicial dos polícias – antes de ser conhecido o pequeno vídeo – o jovem Nahel teria atirado o carro contra eles, colocando em risco a vida dos polícias e justificando uma reacção – o tiro – em legítima defesa. Não foi isso que aconteceu! As imagens mostram que os polícias estavam a mentir. Mesmo reconhecendo que um ou dois polícias não são a Polícia, a mentira, tão evidente, deixa margem para uma interrogação: quantas vezes prevaleceu a versão policial, em situações semelhantes, não havendo vídeo que desmonte a mentira? É precisamente essa a pergunta num cartaz colocado no local onde o carro ficou imobilizado após Nahel ter sido abatido pelo polícia: “Combien de Nahel n’ont pas été filmes?” (Quantos Nahel não foram filmados?)

E foi esta certeza – dada pelas imagens – de que a polícia não tinha motivo para disparar à queima-roupa, que “incendiou” as ruas de França. Foi uma espécie de grito: “desta vez não nos enganam, não podem arranjar desculpas, todos sabemos como mataram Nahel”! Depois disso, todos sabemos o que aconteceu. E também sabemos que muitos participaram nos tumultos e nos saques apenas para saquear e destruir.

A Polícia e o racismo

Evidentemente que a violência que se seguiu, com a destruição de bens públicos (escolas, transportes públicos e mobiliário urbano…), e privados (agências bancárias, lojas…), nada resolve. No entanto, e embora não sirva de atenuante, é preciso entender que é a expressão de um divórcio de muitas décadas entre a Polícia e uma parte significativa da população dos bairros mais pobres, principalmente os jovens, nos subúrbios das grandes cidades. Queixam-se de frequentes abordagens violentas e intimidatórias por parte da polícia; a polícia diz que muitas vezes é agredida nestes bairros. Os jovens queixam-se de racismo na polícia e a porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, veio alertar que chegou a hora de França “se debruçar seriamente sobre os problemas profundos de racismo e discriminação racial na polícia”. O Governo reagiu e diz que não é assim, mas é! Há sinais de racismo em algumas das abordagens da polícia. As mães destes bairros, onde há muitos habitantes de origem magrebina e árabe, incluem nos ensinamentos que transmitem aos filhos o saber enfrentar a polícia. Saber enfrentar no sentido de não dar motivo para agressões ou detenções nos momentos em que a polícia vai ao bairro em operações de controlo; saber não responder mesmo que, eventualmente, a polícia provoque. Mesmo que isso possa ser sentido como uma humilhação.

Apesar dos muitos milhões de euros aplicados nas últimas décadas para a renovação destes bairros, o cimento e o alcatrão não resolvem tudo. Faltam creches, escolas, médicos, bibliotecas, empregos… e dinheiro. Há mais pobreza e menos esperança. Os pais, a quem o Presidente Emmanuel Macron apontou o dedo por não cuidarem devidamente dos filhos, muitos deles têm dois e três empregos e trabalham de noite para que os escritórios das grandes cidades estejam limpinhos quando abrem a porta.

O Ministério do Interior revelou que foram detidas pessoas entre os 12 e os 59 anos; a média de idades está nos 17-18 anos. É uma nova geração com a qual é urgente dialogar e construir pontes, sob pena de crescer à margem de valores que nos permitam a todos viver no mesmo mundo.

Maioria são franceses

Depois da prioridade para repor a ordem pública, chegou o tempo da política. Alguma esquerda tardou em condenar a violência de forma explícita e sem ambiguidades; a direita e a extrema-direita cavalgaram a onda fazendo o habitual discurso contra a imigração.

Precisamente num momento em que a França tem na agenda uma nova lei sobre a imigração, o Ministro do Interior respondeu no Senado a um membro do partido de Marine Le Pen e forneceu dados que fazem cair pela base os argumentos de quem considera os estrangeiros o principal problema do país: “Menos de 10% dos 4.000 detidos eram estrangeiros, senhor deputado. 90% Eram franceses. Apenas 40 pessoas foram colocadas num centro de detenção administrativo (para estrangeiros que incorrem em pena de expulsão). Mas a questão hoje, são os jovens delinquentes e não os estrangeiros. Há aqui muitos (deputados e ministros), senhor deputado, que vieram dos bairros, da imigração, e amamos o nosso país.”

A França é um país onde a imigração tem muitas décadas. Todas as profissões e áreas da vida social, económica, financeira e política, têm pessoas em lugar de destaque cujas origens estão muito longe de França. Os estrangeiros deram e dão um forte contributo para que o país funcione. Apontar-lhes o dedo como causa de todos os problemas é irrealista e desonesto. Só é uma estratégia a seguir para quem pretende chegar ao poder não tendo outras soluções a propor, a não ser instigar o ódio pelo outro e daí tirar dividendos políticos. O resultado adivinha-se desastroso e quem permitiu que aqui chegássemos, não pode lavar as mãos como Pilatos. E a questão não se coloca apenas em França.

Publicado por José Manuel Rosendo em meu Mundo minha Aldeia

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