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A vida demonstrou que uma resposta tímida não vence a crise

No encerramento do debate sobre o Estado da Nação, Catarina criticou a “política de mínimos que adia as soluções e a resposta aos mais frágeis, ao invés de garantir investimento que vença a crise”. E denunciou o discurso climático do governo que “parece ter como maior inimigo a própria ação do governo, desviando os recursos do desenvolvimento rural e da produção biológica para latifundiários rentistas”.
"Uma governação de curto prazo não responde à mais longa pandemia das nossas vidas", disse Catarina Martins. Foto António Cotrim, Lusa.
"Uma governação de curto prazo não responde à mais longa pandemia das nossas vidas", disse Catarina Martins. Foto António Cotrim, Lusa.

No Debate do Estado da Nação, marcado pelo governo para esta quarta-feira, Catarina Martins abordou os maiores desafios do país, definidos pelas alterações climáticas e pela crise económica e social provocada pela pandemia da covid-19, e criticou a resposta do governo a ambos os problemas, apresentando soluções. “Hoje olhamos para o ano que foi e para o que será e o governo parece pouco disponível para outro fôlego, outra política”.

“Nos últimos anos, e em particular nos últimos meses, está a bater-nos à porta a realidade brutal para a qual cientistas e ativistas climáticos alertam desde há muito”, começou por dizer. “O sistema económico assente no extrativismo desenfreado e na irresponsabilidade climática colhe hoje as suas dramáticas consequências”.

“Isto é apenas o início de um mundo novo que o capitalismo criou, e essas consequências são pagas ao longo do tempo por todos nós, em particular pelos mais pobres do mundo e pelos mais pobres dentro de cada país”, continuou por dizer.

E as respostas à emergência climática têm sido débeis. Perante o aumento do preço dos combustíveis,  “há quem orgulhosamente lance a crise climática para trás das costas e apoie a subsidiação dos preços dos combustíveis fósseis. Outros há que, envergonhadamente, atiram para uma futura transição para o automóvel elétrico individual, sabendo que essa resposta é pouco menos insustentável que o atual modelo. Apostar na proliferação de automóveis individuais nas grandes cidades é como tentar parar o vento com as mãos”.

Para a coordenadora do Bloco de Esquerda, a solução “tem de passar por partilha de veículos e transportes coletivos, com mais oferta e tendencial gratuitidade. E passa também por uma política de território que, em vez de promover a especulação e o abuso imobiliário, asseguram cidades e vilas sustentáveis e garanta o direito à habitação. Sem isso, não haverá transição justa que proteja o planeta. Sem isso, estaremos apenas a perder o tempo que já não temos”.

E por isso critica o Primeiro-Ministro que, na abertura deste debate, elogiou a presidência portuguesa da União Europeia por ter incluído preocupações climáticas e sociais na Política Agrícola Comum, ao mesmo tempo que a Ministro da Agricultura, que irá gerir um pacote financeiro comparável a todo o Programa de Recuperação e Resiliência (10 mil milhões de euros), “se ocupa a torcer os mesmos critérios aprovados durante a presidência portuguesa da União Europeia para desviar os recursos do desenvolvimento rural e da produção biológica para latifundiários rentistas que a sul do Tejo acumulam privilégios há décadas e comprometem a coesão territorial e a transição ecológica da agricultura e da floresta”.

“O discurso climático do governo parece ter como maior inimigo a própria ação do governo”, acusa, relembrando as conclusões do relatório do Observatório Técnico Independente sobre o Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais, onde afirma mesmo que a falta de propostas de ação sobre as alterações climáticas é “a mais grave omissão do Programa Nacional de Ação” sobre fogos florestais.

“No clima como no resto, o que conta é para onde vai o dinheiro. Se vai para as rendas pagas a uns poucos grandes proprietários rurais e não para a transformação da floresta ou para o povoamento do território, então ficamos a saber que o governo se resignou à sina dos incêndios. E nada seria mais irresponsável”, disse.

Uma governação de curto prazo não responde à mais longa pandemia das nossas vidas

O Estado da Nação “é marcado pela pandemia que estamos a viver”, continuou por dizer Catarina Martins. O primeiro-ministro “apostou que o Verão passado já seria de retoma. Não preparou a segunda vaga pandémica (nem a terceira, nem a quarta). Pediu ao parlamento um orçamento suplementar e depois não usou o dinheiro. Fez um orçamento para 2021 que já estava desatualizado no momento em que foi aprovado. O governo recusou as propostas do Bloco e passou este ano a acrescentar medidas avulsas, insuficientes e tardias para conter os estragos”, relembrou.

No SNS, “os profissionais esticam uma manta curta demais e estão exaustos”, nos apoios sociais e à economia, Portugal “manteve-se nos mínimos europeus e o governo preferiu levar as famílias e empresas para as moratórias. Num país já endividado, a omissão da resposta pública cria uma situação ainda mais pesada. Pagaremos caro esta omissão”, sintetizou.

Para Catarina, “olhamos para o ano que foi e para o que será e o governo parece pouco disponível para outro fôlego, outra política. Não se conhecem novas propostas e o governo decidiu iniciar o próximo ciclo mantendo um conjunto de ministros cujos mandatos se arrastam sem capacidade de fazer as mudanças necessárias”. O ministro do Ambiente “está marcado pelo descrédito devido à sua transigência com a fraude da EDP no negócio das barragens”. Desde o “inexplicável silêncio” sobre o assassinato de Ihor Homeniuk, “o Ministro da Administração Interna já só se livra de um caso quando se mete noutro”. Por seu lado, a Ministra do Trabalho e Segurança Social “acumula confusões e omissões no apoio aos trabalhadores afetados pela crise”.

“A única forma de compensar esse desgaste é impor sempre o critério do interesse público e responder pelo país. A vida demonstrou que uma resposta tímida não vence a crise. E esta é a primeira lição da pandemia: uma governação de curto prazo não responde à mais longa pandemia das nossas vidas.

“É por isso que, no momento em que debatemos o Estado da Nação, temos de nos perguntar se o país pode contentar-se com uma política de mínimos que adia as soluções e a resposta aos mais frágeis ou se, pelo contrário, vamos à luta pelo investimento que vence a crise? Pela nossa parte, nunca hesitamos. Salário e saúde, dignidade e respeito, é isso que nos move”, concluiu.

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