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Venezuela: uma invasão de pechisbeque, enquanto a crise continua

A recente invasão da costa perto de Caracas por pequenos comandos foi derrotada por forças leais a Nicolás Maduro com surpreendente facilidade. A parte difícil, por outro lado, vem do fecho dos canais para acordos políticos, sob o peso de uma grave crise social e económica. Por Humberto Márquez.
Forças especiais da Venezuela vigiam a zona onde ocurreu o enfrentamento com un grupo armado que desembarcou com lanchas na costa da localidade de Macuto / Foto: Xinhua, Marcos Salgado
Forças especiais da Venezuela vigiam a zona onde ocorreu o enfrentamento com um grupo armado que desembarcou com lanchas na costa da localidade de Macuto / Foto: Xinhua, Marcos Salgado

Os rebeldes venezuelanos, com o apoio de mercenários norte-americanos, tentaram um golpe, a 3 de maio, para atacar e provavelmente capturar o presidente Nicolás Maduro: a bordo de pequenas lanchas, tentaram infiltrar-se nas praias próximas da capital, mas foram descobertos. Oito foram abatidos e 18 foram detidos, segundo a informação oficial.

O primeiro episódio registou-se em Macuto, uma cidade na margem do Mar do Caribe e 32 quilómetros a nordeste de Caracas, onde dez indivíduos, que chegaram ao amanhecer num pequeno barco turístico, foram para uma casa em que se supõe que tivessem veículos com armas. Foram descobertos por um comando da polícia, que os confrontou com apoio militar. Aí deram-se oito mortes e duas das prisões. Do lado oficial, não houve vítimas.

Apenas a identidade de um dos falecidos foi divulgada, o capitão da Guarda Nacional Robert Colina (36), conhecido como Pantera, autoexilado na Colômbia desde o ano passado. Horas depois, em Chuao, uma pequena vila costeira a noroeste de Caracas, oito indivíduos a bordo de um barco foram intercetados por pescadores, que os capturaram com a ajuda da polícia, sem disparar um tiro. Outros indivíduos foram presos noutros pontos do litoral e em Maracaibo, a capital petrolífera do Ocidente, até completar 18 detidos. As autoridades ainda estão a procurar mais.

Entre os cativos de Chuao estão dois capitães aposentados da Guarda Nacional, o filho de um ex-comandante-geral do Exército, e dois norte-americanos, Airan Berry e Luke Denman, que serviram nas forças especiais do seu país e ao que parece ajudaram durante semanas a treinar os atacantes numa casa no norte da Colômbia. De lá, os barcos partiram para a incursão na parte centro-norte da Venezuela, um percurso de de centenas de milhas nas águas do Caribe.

Boinas, mentiras e vídeo

Num vídeo do interrogatório a Denman, mostrado por Maduro numa conferência de imprensa virtual a 6 de maio, o norte-americano declarou que foi contratado pela empresa de segurança Silvercorp, registada na Florida e propriedade de Jordan Goudreau, um ex-boina verde, que esteve como médico militar no Afeganistão e no Iraque.

Denman disse que a sua missão era assegurar e controlar um aeroporto para quando chegasse um avião transferir Maduro. Isto é, o comando contemplava a captura do presidente e a sua subsequente transferência. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos acusa o sucessor de Hugo Chávez de narcotráfico e de outros crimes e ofereceu uma recompensa de 15 milhões de dólares pela sua captura, além de quantias um pouco menores para uma dúzia dos seus colaboradores civis e militares.

A história da invasão mostra que Goudreau combinou, com assessores da oposição radicados no exterior, treinar os expedicionários e infiltrá-los na Venezuela

A história da invasão, parcialmente desvendada pelas revelações da imprensa anteriores aos factos, mostra que Goudreau combinou, com assessores da oposição radicados no exterior, treinar os expedicionários e infiltrá-los na Venezuela para atacar instalações militares, promover levantamentos e desmembrar o governo. Discute-se se Juan Guaidó, presidente do parlamento e reconhecido como "presidente legítimo" por Washington e outros cinquenta governos, assinou um contrato milionário com Goudreau para financiar a falhada Operação Gedeón.

Enquanto a operação falhava nas costas da Venezuela - obviamente o governo tinha-a infiltrado e esperava-a, Goudreau declarou em Miami, juntamente com outro militar desertor da Venezuela, que Guaidó não tinha cumprido os pagamentos previstos no contrato, o que, segundo o ex-boina verde, somaria 200 milhões de dólares. Por sua vez, Guaidó negou que tivesse assinado um contrato, recusou qualquer envolvimento com o ex-boina verde norte-americano e com a invasão fracassada, reivindicou o respeito pelos direitos humanos dos capturados e reiterou a sua exigência de que Maduro se afaste do poder para formar um governo de transição que responda à crise e organize novas eleições.

Por sua vez, Maduro acusou Guaidó e a oposição radical de cumplicidade, lembrou que está em marcha um processo para renovar o poder eleitoral - não para eleger um novo presidente, mas um novo Parlamento - e insistiu na tese oficial de que os governos dos Estados Unidos e da Colômbia são cúmplices na Operação Gedeón. Bogotá rejeitou a acusação e o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que a sua administração não tem nada a ver com o que aconteceu. "Se tivéssemos participado, o resultado teria sido diferente", disse à imprensa o seu secretário de Estado, Mike Pompeo.

Entretanto, a crise continua

A Operação Gedeón surpreende os venezuelanos no terceiro ano de hiperinflação, com mais de 80% da população em situação de pobreza

A Operação Gedeón surpreende os venezuelanos no terceiro ano de hiperinflação (130.160 por cento em 2018 e 9.589% em 2019, segundo dados oficiais), com mais de 80% da população em situação de pobreza (o salário mínimo equivale a 3 dólares por mês) e nove dos seus 28 milhões de habitantes está em insegurança alimentar, segundo agências das Nações Unidas. E com os serviços essenciais - água, eletricidade, gás, transportes e acesso à saúde - em colapso, a ponto de causar dezenas de protestos diários em todo o país, mesmo com a quarentena implementada devido à covid-19 em andamento, e causando, em algumas cidades de província deprimidas, saques a lojas de alimentos (veja "Maduro caminha num campo minado", Brecha, 30-IV-20). A deterioração da qualidade de vida levou quase cinco milhões de venezuelanos a emigrar, desde 2015.

Um capítulo aparte merece a escassez de gasolina, num país que durante um século foi um grande exportador de petróleo e derivados. As refinarias não funcionam e as sanções impostas pelos Estados Unidos dificultam a importação de combustível e, sobretudo, a obtenção de divisas para poder comprá-lo. Além disso, o colapso do mercado de petróleo devido à queda da economia global com o avanço do covid-19 pode deixar a Venezuela com receitas de exportação de petróleo de cerca de 3.000 milhões de dólares, quando há uma década eram quase 100.000 milhões anuais.

fecham-se mais os caminhos do diálogo, do entendimento e dos acordos próprios da luta política pacífica e democrática. Não é um bom presságio

Nas poucas estações de serviço que fornecem combustível, todas da estatal Petróleos da Venezuela, formam-se filas de centenas de veículos, durante horas ou dias, para adquirir alguns litros de gasolina se o proprietário mostrar que trabalha, num serviço essencial no meio da quarentena. A Venezuela tem oficialmente a gasolina mais barata do mundo, cerca de dez milésimos de dólar por litro, mas no omnipresente mercado negro tem a mais cara, até quatro dólares por litro de combustível.

Nesta crise social e económica está a política, com os herdeiros de Hugo Chávez - falecido em 2013 – dominando o poder e uma oposição que falha em reunir forças e estratégias para desalojá-los. Não há acordos para resolver eleitoralmente essas diferenças e acertar uma coexistência mínima. E agora, quando a luta política armada se manifesta através da Operação Gedeón - mesmo que seja um grupo marginal que não expressa a maioria da oposição – fecham-se mais os caminhos do diálogo, do entendimento e dos acordos próprios da luta política pacífica e democrática. Não é um bom presságio.

Artigo de Humberto Márquez, jornalista e correspondente de imprensa internacional em Caracas, publicado em Correspondencia de Prensa e originalmente em Brecha. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

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