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Vais ao museu? E o que vais lá fazer?

A propósito do Dia Internacional dos Museus, algumas reflexões. Os museus como os conhecemos estarão ultrapassados? De facto, não basta parecer, é preciso ser uma instituição patrimonial, com conhecimento cada mais profundo sobre as colecções e o público. Por Maria Luísa Cabral
Biblioteca do Museu Nacional de Arte Antiga, foto do respetivo museu, retirada de museudearteantiga.pt
Biblioteca do Museu Nacional de Arte Antiga, foto do respetivo museu, retirada de museudearteantiga.pt

1. O museu é uma instituição patrimonial - Um museu assenta a sua existência e intervenção nos objectos reunidos durante anos ou séculos, em temáticas definidas, e na determinação em continuamente fortalecer as linhas previamente escolhidas, permitindo-lhe enriquecer o espólio e crescer. Depois de coleccionar, estudou e organizou as peças para agora as poder expor. Se não fizer este trabalho, é um armazém, inaceitável. O museu também não é uma sala de exposições. Se não se tiver cuidado na construção de núcleos com lógica interna, não haverá colecções, dificilmente haverá museus. Hoje em dia há muitas instituições que se autoproclamam de museus mas que não são detentoras de uma única peça. Vivem do empréstimo, da cedência, de mecenatos mais ou menos generosos (conseguirão manter a sua independência?), organizam exposições cuja entrada é devidamente cobrada (como haveriam de pagar os seguros e as despesas que cada empréstimo exige?). Fazem um trabalho interessante mas não são museus, são galerias de exposições. Do ponto de vista patrimonial, não contam ou contam muito pouco. Como comunidade, para compreender o passado e projectar o futuro precisamos das instituições patrimoniais. Sobre a responsabilidade das instituições patrimoniais, a entrevista de Joaquim Caetano, Director do MNAA, à Revista do Expresso (1 Maio 2020) é muito esclarecedora.

2. Os museus já não são um local de deleite e reflexão? - Os melhores museus do mundo encontramo-los na Europa. Embora outros países do mundo também possuam museus magníficos, a excelência da Europa é indiscutível. Os museus europeus reflectem um percurso histórico extraordinário e, se no tocante à expansão europeia o debate ainda vai no adro, o resultado de milhares de anos de história são colecções inacreditáveis na variedade, quantidade e qualidade. Museus grandes ou pequenos, que o tamanho não elimina o gosto da descoberta, do conhecimento e do prazer. Ou, como resume Clair e eu traduzo, “A frequência das grandes superfícies não impede o deleite singular dos pequenos santuários” (CLAIR, J. – Malaise dans les musées. Paris: Flammarion, 2007, p. 13). Estes museus riquíssimos, com reservas inimagináveis e recursos ilimitados, têm promovido mega exposições. A exposição sobre Leonardo demorou dez anos a ser preparada, alcançou mais de um milhão de visitantes e cifras astronómicas indispensáveis ao funcionamento do Louvre.

Por melhor que uma visita virtual seja preparada, desde o guião à apresentação, não há nada que substitua o contacto directo com o objecto

As colecções permanentes também atraem milhões de visitantes. O prestígio de um museu tem este reboliço como dado adquirido. As multidões ruidosas, em ondas sucessivas que impedem a fruição de uma peça exposta, são detestáveis. Não é possível apreciar e reflectir sobre uma peça quando, entre nós e ela, há dezenas de pessoas arregimentadas em grupos identificados com bandeirinhas ou chapéus de chuva; não é possível apreciar e reflectir sobre uma obra quando somos interrompidos por visitas que se sucedem a cada 2 ou 3 minutos. Estas multidões, estes grupos contínuos que fazem a felicidade da bilheteira, deveriam ser reencaminhados para a chamada Uffiziland na expressão irritada e matreira de Eco. “Considerando as multidões frente ao Palazzo Vecchio (Florença) que admiram o David que não é o original (coisa que ignoram), porque não mandá-los para a Uffiziland? Se houvesse menos bocas a emitir fumos tóxicos para cima da Primavera de Boticelli, isto contribuiria para a sua preservação…” (ECO, U. – Temples for tourists. In New York Times, 2 April 2007). Comentário extremo, claro, mas que merece alguma atenção. As mega exposições estão, no contexto de saúde pública que nos atormenta, postas em causa. Também deixarão de ser recomendadas as entradas massivas em museus mesmo para visitar as colecções permanentes. Os museus preparam com afã os espaços para receber visitantes a quem, inevitavelmente, será pedido que mantenham a cautelosa distância social. Grupos, nem vê-los; pessoas que queiram permanecer um pouco mais em frente de um quadro, ou de uma escultura, serão convidadas a seguir em frente porque a fila de espera não pára de aumentar. Qualquer visita comum exigirá marcação, uma súbita vontade de conhecer aquele museu cuja porta mesmo agora passámos, é coisa do passado.

3. O museu no tablet é bom mas não é museu – os museus podem optar pela visita virtual e muitos já entraram nesta era, aqui e lá fora. Por melhor que uma visita virtual seja preparada, desde o guião à apresentação, não há nada que substitua o contacto directo com o objecto. Porque é que eu vejo uma pintura intimista de Columbano numa plataforma digital e vou a correr para o museu? Não é para me certificar que ela existe, nem é para me assegurar que não estou a comer gato por lebre; é para poder contemplar e apreciar todos os detalhes da intensidade da pincelada à autenticidade da cor, aspectos que o digital apenas me sugeria. Exactamente por isso se chama visita virtual para a distinguir da visita real, concreta e palpável. A visita virtual não substitui a visita tradicional, pode acalmar a falta que sentimos do museu real, até pode ter a vantagem de aliviar a pressão sobre os museus quer em número de visitantes quer sobre o trabalho técnico do museu enquanto desempenha lugar significativo na divulgação e ensino. O abrandamento é bom mas é transitório e, em última análise, levará ao aumento da procura num futuro mais ou menos breve. Muitos museus queixam-se da falta de visitantes: o público tipo tradicional falta, cada geração não substitui a anterior, há um longo trabalho a fazer para aumentar as audiências. Esse trabalho começa muito cedo, as escolas têm um papel fundamental, a disponibilidade virtual pode virar uma alavanca. Não podemos perpetuar a ida ao museu como “um íntimo suplício”, confissão desassombrada de Mário Dionísio quando reclamava, em 1956, um programa para a educação da sensibilidade estética (DIONÍSIO, M. – A paleta e o mundo. Lisboa: Europa-América, 1956, v. 1, p. 12). Não sei calcular se esta designação hoje vingaria mas a ideia que dava corpo à crítica era, e é, válida. Os museus terão de rever a forma como renovam os públicos.

4. O museu, local de conhecimento e criação - Elaborar na ideia chave de museu imaginário de Malraux (MALRAUX, A. – Le musée imaginaire. Paris: Gallimard, 1965, 1ª ed. 1947) é enriquecedor e sugestivo, irá valorizar enormemente o trabalho dos conservadores de museu. Entre historiador e curador, esta figura central na vida do museu passará a dedicar o seu tempo a investigar a história, a técnica, o contexto histórico de cada peça. Esse conhecimento vai-se reflectir na forma como a peça é exibida, como ela interage com outras peças e com a história em geral. Admirar esta ou aquela obra não se confina a ela própria, não termina ali. Essa outra realidade menos visível, imaginária, agora aprofundada pode fornecer respostas à situação de crise que se adivinha. Os conservadores de museu, como os bibliotecários nas bibliotecas, não estão ali para tomar conta; estão ali para nos ajudarem a ver e compreender para além do óbvio. Na companhia dos conservadores, podemos desfrutar do imaginário. Em simultâneo, os museus podem ganhar ainda outra dimensão se houver a ousadia de encenar a partir do que está exposto. Uma pintura pode inspirar uma encenação dramática ou um bailado. Há motivo, há cor, há história. Qualquer recriação é possível, não é obrigatório que os museus sejam locais soturnos. A observação de uma escultura pode ser valorizada por um adequado trecho musical e qualquer destas sugestões performativas são suficientemente enriquecedoras e atrativas quer para audiências escolares como para um público adulto. Podemos transformar um museu numa aventura, explorando as peças expostas ou os segredos das colecções em reserva. À volta de uma peça, qualquer interpretação artística é legítima. Certamente uma saída para tempos pós Covid19 sem lamentar a inexistência de mega exposições, olhando para dentro na redescoberta de peças menos utilizadas e contornando o problema das visitas massificadas. Por muitos anos, como apontam as previsões.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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