“Voltamos aqui novamente porque os problemas continuam”, foi assim que Luís Batista, dirigente do Sindicato de Hotelaria Sul, iniciou a sua intervenção durante a concentração de trabalhadores dos bares de comboios, em frente à Comboios de Portugal (CP). “Desta vez quem explora é a empresa ITAU, desde 1 de abril”. Foi nesse dia que a nova empresa assumiu a transmissão de estabelecimento dos bares da Comboios de Portugal. Um mês depois, as práticas da empresa já levaram os trabalhadores a fazer greve e concentrações em Lisboa e no Porto durante esta quinta-feira.
O dirigente sindical diz que a empresa vai “cortar, cortar, cortar” apesar de já ganhar bastante dinheiro da CP e de as vendas correrem bem. E apesar também de a empresa que tinha a concessão de serviço anteriormente, a NewRail, ter assinado um Acordo de Empresa que previa o aumento dos salários e complementos salariais aos trabalhadores. Agora, a ITAU, que foi uma das empresas assessorada pela consultora de Luís Montenegro, a Spinumviva, que mais dinheiro fez com contratos públicos durante este último ano, não quer cumprir a totalidade desse acordo.
Quando a concentração ainda se estava a montar, os trabalhadores falavam em roda precisamente sobre os seus problemas. Uns trabalham a bordo dos comboios e não vão ver as suas ajudas de custo por pernoitar longe de casa a aumentar. Outros trabalham nos armazéns e quando tiverem de trabalhar horas extra, também não verão esse pagamento a aumentar.
A coordenadora do Bloco de Esquerda juntou-se à concentração nesse momento, para ouvir os problemas destes trabalhadores e perceber a sua situação. Mariana Mortágua conversou com trabalhadores dos armazéns mas também dos serviços dos comboios, que explicaram como ficam a perder com a posição da ITAU face ao Acordo de Trabalho de 2025.
Cláudio Ribeiro trabalha nos Alfa Pendulares, entre Lisboa e Faro, e pernoita duas noites fora. O trabalhador diz que não aceita “que a empresa não cumpra o Acordo de Empresa de 2025 na totalidade”, porque esse Acordo tinha permitido um aumento das ajudas de custo para pernoita de cerca de 10€. “É um valor bastante elevado, e agora estamos a lutar por isso e pelos 25% a mais pelo trabalho ao fim-de-semana também”, diz.
“Quem pernoita fora, seja Natal, Páscoa, fim de ano, temos de cumprir. Acho que é mais de merecido termos esse aumento nos termos em que foi feito” com a NewRail. Só que o trabalhador fala na “desorganização total da ITAU”, que não cumpre com os trabalhadores.
Um outro problema que afeta Cláudio são as condições de trabalho, nomeadamente a falta de fardamentos e de equipamentos de apoio, como carros para carregar o comboio. “O programa com que trabalhamos é antiquadíssimo, as condições de refrigeração não são as melhores, e tudo isso tem impacto no serviço aos clientes”, concluiu.
Também Olinda Gonçalves, dirigente sindical que trabalha no armazém de Lisboa, diz que a ITAU tem uma “postura de retaliação” contra os trabalhadores, tentando cortar mais quando “recebe muito dinheiro da CP”.
A trabalhadora salienta que a nova empresa assumiu uma parte do Acordo de Empresa de 2025 referente aos salários, mas deixou cair as restantes, o que é incoerente. “Se assumem a parte do salário base, têm que assumir todas as outras questões. Nós não temos Natais, não temos Ano Novo, nada disso, e esse trabalho tem de ser recompensado”, diz.
“No armazém, há colegas que têm de ficar pós-horário, por exemplo quando há incêndios ou atrasos e a empresa não está a cumprir com o aumento das horas extraordinárias”, sublinha Olinda. “Só estão a subir o salário base porque estão com medo de que paremos de trabalhar”.
Porque estão então à porta da CP? É porque é esta empresa pública que externaliza o serviço para a ITAU, e o sindicato garante que a Comboios de Portugal tem toda a responsabilidade neste processo, porque deve exigir à empresa a que paga um melhor serviço e melhores condições de trabalho.
Greve com forte adesão
Apesar disso, a CP escolheu não receber os trabalhadores, que procuraram entrar na sede para entregar uma moção aprovada aos dirigentes da empresa, mas que apenas foram recebidos pelo diretor de segurança da empresa, que prometeu entregar a moção às chefias.
Na moção lê-se que “a posição da ITAU é ilegal e uma afronta aos trabalhadores que justamente lutaram durante muitos anos pela melhoria das suas condições de vida e trabalho” e exige-se que se cumpra o Acordo de Empresa, sobretudo o aumento das diturnidades, subsídio de refeição diária, prémios de responsabilidade, subsídio de transporte, horas extra, e que se reduza a carga horária semanal para 35 horas.
Luís Batista salienta que, apesar de não terem conseguido falar com as chefias da CP, a greve de quinta-feira teve um forte impacto no Porto, em Lisboa, em Faro e na Guarda, com uma taxa de adesão superior a 85%. Já esta sexta-feira, há uma adesão de 100% no Porto e 95% em Lisboa. O dirigente sindical sublinha que “os trabalhadores têm disponibilidade para ir ao combate para resolver este problema”.
Mas o facto de ser preciso marcar uma greve um mês depois de a empresa assumir a transmissão de estabelecimento “é um mau sinal”, admite. “Sempre que há novas concessões temos problemas”.
“Havia uma série de direitos conquistados que já faziam parte da nossa vida e agora, com esta decisão unilateral da ITAU, perdemo-los”, diz Luís. Para além disso, os novos trabalhadores que estão a ser contratados, estão a ser empurrados para um acordo coletivo de trabalho associado às cantinas, de um sindicato da União Geral dos Trabalhadores, que não tem nenhum representante nos bares da CP. Essa atitude “também é hostil” por parte da ITAU, considera o dirigente sindical, que considera que o caminho que resta é “ir à luta”, não só pelo cumprimento do Acordo de Empresa, mas pela integração dos trabalhadores nos quadros da CP.
Marisa e Catarina juntaram-se à concentração do Porto
No Porto, os trabalhadores dos bares dos comboios concentraram-se junto à estação de Campanhã. A eurodeputada Catarina Martins e a deputada e candidata bloquista às legislativas pelo Porto, Marisa Matias, marcaram presença para reafirmar a solidariedade com esta luta, defendendo a integração destes trabalhadores nos quadros da CP. “Não deixa de ser curioso que seja a mesma empresa que está nas notícias porque afinal é cliente do primeiro-ministro e está a ter lucros extraordinários”, afirmou Marisa, dizendo ser “incompreensível que o acordo de empresa não esteja a ser cumprido”.