O sonho do presidente venezuelano, Hugo Chávez, de ter no Banco do Sul uma opção continental ao FMI não vingou, mas o debate sobre uma instituição regional que possa socorrer país em crise financeira está vivo na União Sul-Americana de Nações (Unasul). A discussão no bloco ganhou fôlego este ano, depois da instalação do conselho de ministros das Finanças e de duas reuniões recentes sobre a crise económica global.
Hoje, há duas propostas na mesa – uma brasileira, outra de Venezuela e Equador –, as quais se distinguem basicamente pelas suas ambições.
O Brasil defende aproveitar um organismo que já existe, o Fundo Latino Americano de Reservas (FLAR), abri-lo para novos sócios e capitalizá-lo. Criado em 1978 para ajudar gerir as reservas de dólares dos sócios e apoiar o que estiver com problemas financeiros, o fundo tem sete membros – Venezuela, Uruguai, Peru, Equador, Costa Rica, Colômbia e Bolívia – e US$ 2,3 mil milhões em caixa.
Na proposta brasileira, o país entraria no FLAR junto com Argentina, Paraguai e Chile, que fariam aporte equivalente ao caixa actual, dobrando o fundo de tamanho. “Manter a região como uma região estável [financeiramente] tem um valor importante para o Brasil”, disse à Carta Maior o secretário de Assuntos Internacionais do ministério das Finanças, Carlos Cozendey, ao justificar por que o assunto interessa ao Brasil.
Já equatorianos e venezuelanos sonham mais alto. Defendem criar uma super entidade, com volume de recursos e poderes bem maiores do que FLAR ampliado proposto pelo Brasil. Gostariam de uma gestão colectiva de todas as reservas de dólares sul-americanas – só Brasil e Argentina têm mais de US$ 400 mil milhões. Imaginam, até, que a instituição poderia dar origem, no futuro, a uma moeda continental, que permitiria aos países não precisar mais de dólar, ao menos em transacções regionais.
O motivo? “Eliminar a intermediação dos Estados Unidos”, disse Pedro Páez Pérez, que dirige comissão ligada ao presidente do Equador, Rafael Correa, e que discute uma nova arquitectura financeira na América do Sul.
Segundo Pérez, que esteve no Brasil há duas semanas participando de seminários sobre a crise internacional, esse grande "FMI regional" teria hoje pelo menos US$ 720 mil milhões (metade do Brasil) e poderia proteger, de facto, o continente e fazer frente ao 'FMI original'.
Apesar de o assunto ter ganho corpo na Unasul recentemente e fazer parte do plano de trabalho do conselho de ministros das Finanças do organismo, não há perspectiva de prazo para que seja tomada uma decisão.
Unasul debate 'FMI regional', Brasil opõe-se à Venezuela e Equador
23 de outubro 2011 - 11:59
A crise económica global acelera a discussão na União Sul-Americana de Nações sobre uma instituição financeira regional para auxiliar países em crise sem a ortodoxia do FMI. O Brasil defende ampliar fundo já existente, enquanto Venezuela e Equador desejam criar um super organismo. Não há prazo para discussão ser concluída. Por André Barrocal, da Carta Maior.
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Equador e Venezuela defendem gestão colectiva das reservas de dólares, com vista a uma nova moeda continental.Equador e Venezuela defendem gestão colectiva das reservas de dólares, com vista a uma nova moeda continental.