Unasul debate 'FMI regional', Brasil opõe-se à Venezuela e Equador

23 de outubro 2011 - 11:59

A crise económica global acelera a discussão na União Sul-Americana de Nações sobre uma instituição financeira regional para auxiliar países em crise sem a ortodoxia do FMI. O Brasil defende ampliar fundo já existente, enquanto Venezuela e Equador desejam criar um super organismo. Não há prazo para discussão ser concluída. Por André Barrocal, da Carta Maior.

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Equador e Venezuela defendem gestão colectiva das reservas de dólares, com vista a uma nova moeda continental.Equador e Venezuela defendem gestão colectiva das reservas de dólares, com vista a uma nova moeda continental.

O sonho do presidente venezuelano, Hugo Chávez, de ter no Banco do Sul uma opção continental ao FMI não vingou, mas o debate sobre uma instituição regional que possa socorrer país em crise financeira está vivo na União Sul-Americana de Nações (Unasul). A discussão no bloco ganhou fôlego este ano, depois da instalação do conselho de ministros das Finanças e de duas reuniões recentes sobre a crise económica global.



Hoje, há duas propostas na mesa – uma brasileira, outra de Venezuela e Equador –, as quais se distinguem basicamente pelas suas ambições.



O Brasil defende aproveitar um organismo que já existe, o Fundo Latino Americano de Reservas (FLAR), abri-lo para novos sócios e capitalizá-lo. Criado em 1978 para ajudar gerir as reservas de dólares dos sócios e apoiar o que estiver com problemas financeiros, o fundo tem sete membros – Venezuela, Uruguai, Peru, Equador, Costa Rica, Colômbia e Bolívia – e US$ 2,3 mil milhões em caixa.



Na proposta brasileira, o país entraria no FLAR junto com Argentina, Paraguai e Chile, que fariam aporte equivalente ao caixa actual, dobrando o fundo de tamanho. “Manter a região como uma região estável [financeiramente] tem um valor importante para o Brasil”, disse à Carta Maior o secretário de Assuntos Internacionais do ministério das Finanças, Carlos Cozendey, ao justificar por que o assunto interessa ao Brasil.



Já equatorianos e venezuelanos sonham mais alto. Defendem criar uma super entidade, com volume de recursos e poderes bem maiores do que FLAR ampliado proposto pelo Brasil. Gostariam de uma gestão colectiva de todas as reservas de dólares sul-americanas – só Brasil e Argentina têm mais de US$ 400 mil milhões. Imaginam, até, que a instituição poderia dar origem, no futuro, a uma moeda continental, que permitiria aos países não precisar mais de dólar, ao menos em transacções regionais.



O motivo? “Eliminar a intermediação dos Estados Unidos”, disse Pedro Páez Pérez, que dirige comissão ligada ao presidente do Equador, Rafael Correa, e que discute uma nova arquitectura financeira na América do Sul.



Segundo Pérez, que esteve no Brasil há duas semanas participando de seminários sobre a crise internacional, esse grande "FMI regional" teria hoje pelo menos US$ 720 mil milhões (metade do Brasil) e poderia proteger, de facto, o continente e fazer frente ao 'FMI original'.



Apesar de o assunto ter ganho corpo na Unasul recentemente e fazer parte do plano de trabalho do conselho de ministros das Finanças do organismo, não há perspectiva de prazo para que seja tomada uma decisão.