Uma visita à "cidade proibida" de Devecser

16 de outubro 2010 - 18:15

As instituições da União Europeia e o governo da Hungria continuam a esconder de todo o mundo a tragédia humana em que se transformou a torrente de lama tóxica vermelha. Por Kinga Kalocsai.

PARTILHAR
Serração coberta de lama vermelha tóxica junto a Devecser, 13 de Outubro de 2010 – Foto de Sandor H. Szabo/Epa/Lusa

A tragédia foi provocada pelo aluimento de partes de reservatórios de uma fábrica de alumina ou óxido de alumínio na região ocidental do território húngaro. Em vez de proporcionarem socorros adaptados à dimensão catastrófica do acontecimento, as autoridades impõem silêncio aos jornalistas e, sobretudo, às vítimas. A estas, os bancos exigem as imediatas amortizações dos empréstimos e hipotecas de casas - não se dê o caso de morrerem rapidamente - e as operadoras de comunicações cortam-lhes os telemóveis, única via de comunicação com o mundo, por falta de pagamento. Kinga Kalocsai, cidadã húngara e vice-presidente do Partido dos Trabalhadores da Hungria 2006, conseguiu iludir a interdição oficial e penetrar na "cidade proibida" de Devecser. Eis o seu testemunho.

Cheguei a Ajka (uma cidade próxima da área afectada pela lama vermelha) na manhã de sábado. Ao percorrer as ruas apercebi-me de que há lama vermelha espalhada por todo o lado. Mais tarde, compreendi que a lama vermelha é recolhida nas aldeias de Kolontár e de Devecser e depois transportada em camiões e contentores sobrecarregados e em condições degradantes através do centro da cidade.

O estádio desportivo está a ser usado como abrigo para as pessoas afectadas, mas mais ninguém consegue lá entrar; há entre 25 e 30 pessoas que permanecem aqui desde a catástrofe, com a ajuda de voluntários, que usam os seus próprios meios. Uma das coordenadoras explicou que usa o telemóvel pessoal para coordenar o abastecimento e a ajuda possíveis. Mas estas pessoas têm de abandonar o estádio durante o fim de semana e voltar para Kolontár, à excepção daqueles cuja casa foi destruída pela lama vermelha. A voluntária disse-me que as operadoras telefónicas bloquearam o uso de alguns telemóveis das pessoas afectadas, “porque telefonam demasiado” e gastam “demasiado dinheiro”. Uma destas pessoas atingiu um valor de cem mil forints (cerca de 400 euros) e a companhia disse que só poderia desbloquear este telefone quando fossem pagos 40 mil forints (170 euros). Na minha opinião, as companhias deviam oferecer ajuda e proporcionar um uso gratuito durante estes dias, mas não, eles agem contra as pessoas uma vez mais.

Disseram-me que não poderia falar com as pessoas que dormem no estádio; que somente posso falar com eles se os encontrar fora do estádio. Consegui então falar com dois homens de Kolontár e um menino pequeno, também da aldeia afectada. Todos temem muito o futuro próximo, esperam inquietos, mas em silêncio, que a parede de outro reservatório se desmorone. Não querem regressar. Quando lhes perguntei se poderia ajudar de alguma forma, responderam-me que necessitam apenas de uma coisa, "um lugar onde seja possível viver". E este lugar não é Kolontár, nem Devecser. A primeira vez que o menino me disse qualquer coisa foi para pedir sopa, porque “faz bem à garganta”. A sua garganta arde e está ferida, como a de todos aqueles que inalam a toxina da lama vermelha. A população está assustada com o que poderá acontecer nos próximos dias mas não tem escolha, a não ser mudar-se para outro lugar. Disseram-me que são consideradas “pessoas afectadas em segundo grau”, porque a lama vermelha não chegou às suas casas. Mas os vestígios da lama estão lá. Sentem-se condenadas à morte. Mas não podem fazer nada… Não podem vender as casas, porque agora nada valem. Não compreendem porque têm de regressar durante os próximos dias. Além disso há previsão de chuva, o que significa que a parede norte do reservatório poderá ruir e a lama vermelha fluirá mais uma vez, mas ninguém sabe exactamente dizer quando e qual a área que será afectada.

Explicaram-me que não há ninguém para coordenar a pouca ajuda que têm. Deram-lhes roupa, mas aquilo de que realmente necessitam continua a faltar. Mas quem pode fazê-lo? A mulher de Kolontár, que não passa de uma nobre voluntária local e que já gastou todo o seu dinheiro? Porque é que as autoridades oficiais não enviam ninguém que possa realmente ajudar e desempenhar este tipo de função?

As máscaras normais começam a ser insuficientes para toda a poeira que paira no ar, a populacão precisa de outro tipo de máscaras, mas não existem suficientes.

Depois de falar com estas pessoas consegui furar o controlo policial e chegar a Devecser, que está interdito a quem vem de fora, com a ajuda de um habitante local. Vive na última rua de Devecser, longe da zona que foi destruída pela lama, mas quando saímos do carro a poeira era densa. As pessoas andavam pela rua sem máscaras. Fomos até à sua casa, um lugar agradável renovado há pouco tempo mas que deixou de ter qualquer valor comercial. Contou-me que imediatamente a seguir à catástrofe todas as pessoas que tinham empréstimos ou hipotecas sobre as casas receberam uma carta do banco para procederem ao pagamento total e imediato das suas dívidas. Uma das empresas da TV por cabo ameaçou abrir um processo contra aqueles que não continuarem a pagar as contas. Mas as pessoas não têm advogados ou nenhum tipo de salvaguarda ou apoio para fazer face a estas companhias multinacionais. Este homem confirmou-me que a situação é semelhante em Kolontár, ninguém pode decidir se lá quer permanecer ou não, excepto aqueles cuja casa foi destruída pela lama vermelha. Mas as famílias querem ir para outras cidades ou aldeias. Temem pelas suas crianças e por toda a família que começa a sofrer problemas de saúde, principalmente na garganta. Não conhecem ninguém que queira permanecer na aldeia, mas não têm opção: não podem vender as suas casas, e, consequentemente, não podem comprar uma nova… Todos aguardam a chegada da chuva, a parede desmoronar-se-á e a poeira solidificará. Ninguém acredita que a aldeia volte a ser normal. Este homem explicou-me que quando era criança (tem agora 38 anos) a lama vermelha já aí era destilada.Todos conheciam a sua existência, mas não sabiam que era perigosa. Disse-me ainda que alguns habitantes de Kolontár, principalmente os mais velhos, foram visitados por funcionários da MAL (companhia que é responsável pelo derramamento) que lhes ofereceram cinco milhões de forints (quantia equivalente a 19 mil euro) em troca da sua assinatura num documento que estabelecia que não pretendiam qualquer outra coisa da companhia. Felizmente, ninguém assinou estes papéis.

Os polícias que permanecem em Devecser não fazem nada para além de verificar a identidade de quem por lá passa. Numa das vezes, pararam um carro de emergência e verificaram-no. Algumas pessoas foram interceptadas pela polícia, uma porque trouxe membros da família para a aldeia “interdita” para a ajudar nas mudanças, outra porque se esquecera do BI… Ambas foram detidas.

Quando terminava a conversa com este homem a esposa chegou a casa. Perguntou-me se queria almoçar com eles. Eu não estava com fome, e respondi que não. Então percebi que o filho ficou sentido com a minha resposta; pensou que não queria comer com eles porque estava receosa que a sua comida fosse tóxica por causa da lama vermelha. Aceitei. Depois do almoço, o homem levou-me muito perto da lama vermelha mas depois decidiu voltar para trás, receando as consequências.

Continuei a minha caminhada com uma máscara que me protegia relativamente da poeira. Mas não era suficient: ao fim de cinco minutos a garganta começou a arder e os pulmões a arder. Mas as pessoas que lá vivem, os trabalhadores e até mesmo alguns polícias continuam sem máscara.

Continuei andando até à área mais afectada pela lama vermelha, a parte mais pobre da aldeia antes da catástrofe. Quando cheguei, a polícia seguiu-me e mandou-me parar para verificar a minha identificação e depressa se apercebeu de que eu não era da vila. Disseram-me que ninguém pode ali entrar, apenas os meios de comunicação que tenham uma autorização especial - mas não vi nenhum jornalista durante a minha estadia). Disseram que devia sair do lugar imediatamente e conduziram-me até à auto-estrada mais próxima. Havia muita poeira na estrada e os carros e os camiões do exército levantavam ainda mais o pó. Recomecei a andar e tentei fazer parar um carro porque já respirava com dificuldade. Três carros pararam, mas ninguém quis trazer-me por causa da lama vermelha nos meus sapatos e calças. Finalmente, um quarto carro parou e levou-me à cidade mais próxima.

Desde então, o homem que me ajudou entrar em Devecser ligou-me para dizer que as forças armadas que deveriam ajudar na evacuação foram retiradas da área, a parede poderá cair nos próximos dias mas não haverá ninguém que possa evacuar a população. As pessoas foram condenadas à morte. Sinto ainda a garganta e os pulmões a arder e apenas passei algum tempo na zona afectada e com máscara. Muita gente não está a usar qualquer tipo de máscara e inala esta poeira tóxica há mais de duas semanas. Nem consigo imaginar o que estejam a sentir e o que lhes acontecerá…

Notícia publicada no portal do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu