“Uma performance racista, num debate contra o racismo”

03 de junho 2018 - 21:41

Na Feira do Livro de Lisboa, teve lugar neste sábado um debate a propósito do livro "Racismo no país dos brancos costumes", de Joana Gorjão Henriques. A surpresa foi a atitude da APEL (associação portuguesa de editores e livreiros) e da voluntária por ela “contratada”.

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Debate na feira do livro, foto de Bárbara Bulhosa (da sua página no facebook)
Debate na feira do livro, foto de Bárbara Bulhosa (da sua página no facebook)

A denúncia é da editora da Tinta-da China. Bárbara Bulhosa, que, na sua página no facebook, conta que a referida “voluntária 'contratada' pela APEL” (de seu nome Beatriz Reis), “passou o debate a gesticular e mandar bocas a dizer que não concordava nada com o que estava a ser dito”.

Antes do final, a voluntária 'contratada' pela APEL interrompeu Mamadou Ba dizendo "Vê lá se te despachas!" e, assim, acabando com o debate.

“Parecia encomendado. Uma performance racista, num debate contra o racismo. Estava boquiaberta”, escreve com indignação Bárbara Bulhosa”. A editora denuncia ainda que o responsável da APEL lhe disse "Não me ameaces" e acrescenta:

“Não me veio pedir desculpas pelo sucedido, nem à autora e convidados. Aliás, ninguém me disse nada da APEL. Achei muito estranho”, refere ainda a editora da Tinta da China, que diz que fará “queixa, desta vez por escrito, ao presidente da APEL”.

A iniciativa era um “Debate sobre o activismo” com Beatriz Dias, Ana Tica, Mamadou Ba, Raquel Rodrigues, Rui Estrela e a moderação da autora do livro.

Anúncio da iniciativa: “Debate sobre o activismo” com Beatriz Dias, Ana Tica, Mamadou Ba, Raquel Rodrigues, Rui Estrela e a moderação da autora do livro, Joana Gorjão Henriques

Joana Gorjão Henriques refere (no facebook) que foi um “grande momento” com “importantes e incisivas intervenções” de oradoras e oradores, mas que “infelizmente a conversa acabou abruptamente com a voluntária da APEL, organizadora da feira, a mandar calar repetidamente o Mamadou”.

“Foi obviamente um gesto racista, de quem se sentiu ameaçada pela presença e acutilância dos intervenientes”, acusa Joana Gorjão Henriques, salientando que “quem lá esteve viu bem o ódio com que respondeu a quem a confrontou”.

Mamadou Ba escreve, na sua página no facebook:

“Por momento, tive um nó na garganta. Pois tinha acabado de agradecer a Joana pelo seu contributo na visibilidade do activismo, de me orgulhar de ter ali três mulheres negras a usar da palavra, a falar por si sobre si próprias e sobre nós todo/as. Era mais um passo na conquista de lugar no espaço público”.

O ativista destaca que “a indignação da Editora pela voz de Bárbara Bulhosa, da assistência e das minhas companheiras de mesa foram um bálsamo para mim e a avalanche de reclamações no livro de reclamações são motivo de orgulho e esperança”.

Mamadou Ba conclui o seu post, afirmando: “o nosso activismo nunca foi para mendigar lugar, mas sim, para conquistar lugar, direito e legitimidade política para ocupar todos os espaços de cidadania em liberdade. A luta continua”.