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Uma Candidata da Manchúria

A política de Liz Truss foi moldada por organizações que se intitulam think tanks, mas seriam melhor descritas como lóbistas que se recusam a revelar quem os financia. Por George Monbiot.
Primeira reunião do executivo chefiado por Liz Truss. Foto Andrew Parsons / No 10 Downing Street/Flickr

Quem escolheu Liz Truss? Os membros do Partido Conservador, claro. Quem são eles? Homens brancos, desproporcionadamente ricos e mais velhos que vivem no sul de Inglaterra. Mas há alguns membros cujo perfil não temos meios de conhecer. Eles não vivem no Reino Unido, nunca foram residentes ou cidadãos aqui e não têm direito de voto nas nossas eleições. Espantosamente, desde 2018, estes membros estrangeiros têm sido autorizados a determinar quem deve ser o primeiro-ministro do Reino Unido.

As regras de associação do Partido Conservador são um convite aberto a qualquer pessoa que queira interferir com a nossa política. Parece não haver nada que impeça os agentes de outro governo de se registarem como membros nos Conservadores no Estrangeiro. Também não parece haver nada que impeça uma pessoa (ou um robô) de se candidatar a múltiplas filiações. Lá se vai o partido do patriotismo, soberania e segurança nacional.

Este convite aberto, a julgar pela pouca informação que podemos obter, ainda não foi totalmente explorado. Talvez os governos estrangeiros ainda não se tenham apercebido da oportunidade de ouro que lhes foi oferecida. Talvez simplesmente não consigam acreditar o quão irresponsáveis são os Conservadores.

Mas não precisamos de sugerir uma campanha de outro Estado para ver Truss como uma espécie de Candidata da Manchúria, subvertendo o que resta da nossa democracia em nome de interesses antidemocráticos. Em regra, quanto mais alto um político proclama o seu patriotismo, mais provável é que atue em nome do dinheiro estrangeiro. Todos os primeiros-ministros conservadores recentes colocaram os interesses do capital transnacional acima dos interesses da nação. Mas, em maior medida do que qualquer outro líder anterior, a política de Truss foi moldada por organizações que se intitulam think tanks, mas seriam melhor descritas como lóbistas que se recusam a revelar quem os financia. Agora, ela trouxe-os para o coração do governo.

Institute of Economic Affairs: o lóbi neoliberal extremista instalado no Governo

A sua conselheira especial sénior, Ruth Porter, foi diretora de comunicação no Institute of Economic Affairs (IEA), um grupo de lóbi neoliberal extremista. Uma investigação da campanha para a democracia Transparify listou a IEA como "bastante opaca" quanto às suas fontes de financiamento. Sabemos, por uma combinação de fugas de informação e de arquivos dos EUA, que tem um historial de receber dinheiro das tabaqueiras e, desde 1967, da petrolífera BP, tendo também recebido grandes montantes de fundações financiadas por bilionários norte-americanos, alguns dos quais têm estado entre os principais patrocinadores da negação da ciência climática. Quando trabalhou na IEA, Porter apelou ao corte do subsídio de habitação e o subsídio para crianças, à cobrança aos doentes pela utilização do NHS, ao corte na ajuda ao desenvolvimento e à eliminação dos fundos verdes.

Tornou-se depois chefe da política económica e social na Policy Exchange, que também foi listada pela Transparify como "bastante opaca". Policy Exchange é o grupo que (depois da saída de Porter) apelou a uma nova lei contra o grupo ativista Extinction Rebellion, que se tornou, às mãos da ex-secretária do Interior Priti Patel, a Lei da Polícia, Crime, Sentença e Tribunais. Mais tarde, descobrimos que tinha recebido 30.000 dólares da  petrolífera norte-americana Exxon.

Liz Truss, de acordo com o chefe da IEA, falou nos seus eventos mais do que "qualquer outro político nos últimos 12 anos". Duas das reuniões de Truss com a organização foram apagadas do registo oficial, tendo sido depois repostas após as eliminações terem causado um escândalo.

Mais importante ainda, Truss foi a fundadora destacada, em 2011, do grupo de deputados conservadores da livre iniciativa. A página web do grupo foi registada por Ruth Porter, que na altura trabalhava para a IEA. A IEA organizou eventos para o grupo e forneceu-lhe briefings para a imprensa. Doze membros do governo atual, incluindo várias das suas figuras mais importantes, pertenciam ao grupo. Hoje, se tentar abrir a sua página web, é redirecionado para o Free Market Forum, que se autodenomina "um projeto do Instituto de Assuntos Económicos".

O principal conselheiro económico de Truss é Matthew Sinclair, antigo chefe executivo de um grupo de pressão semelhante, a Taxpayers' Alliance. É também financiado obscuramente por doadores estrangeiros. Sinclair escreveu um livro chamado Let Them Eat Carbon, combatendo ações para prevenir o colapso climático. Afirmou que: "As regiões equatoriais podem sofrer, mas é inteiramente possível que isto seja equilibrado por áreas como a Gronelândia". Por outras palavras, podemos trocar a vida de milhares de milhões de pessoas pelas paisagens de alguns dos lugares menos habitados da Terra. Está entre as declarações mais insensíveis e ignorantes que já vi.

O assessor de imprensa interino de Truss, Alex Wild, foi diretor de investigação na mesma organização. A sua assessora de saúde, Caroline Elsom, era investigadora sénior no Centro de Estudos Políticos, que foi listada pela Transparify como - adivinhou - "bastante opaco". A sua secretária política, Sophie Jarvis, foi chefe dos assuntos governamentais no Instituto Adam Smith (também "bastante opaco"), e financiado, entre outros, por tabaqueiras e fundações dos EUA.

Estes grupos representam a parte mais extrema do neoliberalismo. Ela sustenta que as relações humanas são inteiramente transacionais: somos motivados sobretudo pela procura de dinheiro, que molda o nosso comportamento. No entanto, o que é hilariante, quando os questionamos sobre o seu financiamento, eles negam que o dinheiro que recebem influencie as posições que tomam.

Os think tanks já não precisam de ir à volta para influenciar o Governo. Eles são o Governo

Durante décadas, o desenvolvimento da política à direita foi moldado da seguinte forma. Oligarcas e corporações financiaram os think tanks. Os think tanks propunham políticas que, por pura coincidência, se adequavam aos interesses dos oligarcas e corporações. A imprensa bilionária - também propriedade dos oligarcas - noticiava estas propostas políticas como brilhantes contributos de organizações independentes. Os conservadores de primeira linha citavam então a cobertura da imprensa como prova da exigência pública: a voz dos oligarcas foi tratada como sendo a voz do povo.

Na sua autobiografia Think Tank, Madsen Pirie, fundador do Instituto Adam Smith, explicou o seu funcionamento. Todos os sábados, num bar de vinhos em Leicester Square, funcionários do Instituto Adam Smith e do Instituto de Assuntos Económicos sentavam-se com investigadores conservadores, editorialistas e colunistas do Times and Telegraph para planear "a estratégia para a semana seguinte" e "coordenar as nossas ações para nos tornar coletivamente mais eficazes". O Daily Mail juntava-se para ajudar os lóbistas a refinar os seus argumentos e garantir a existência de um artigo de apoio na sua página de editoriais cada vez que publicavam um relatório.

Mas agora os think tanks já não precisam de ir à volta. Já não estão a exercer pressão sobre o governo. Eles são o governo. Liz Truss é a sua candidata. Para defender os interesses do capital global, ela fará guerra contra qualquer iniciativa comum para melhorar as nossas vidas ou proteger o planeta. Se os Trabalhistas estão à procura de um slogan de três palavras para disputar as próximas eleições, talvez não seja mau "Consertar este país".


Artigo publicado no blogue do autor. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.

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