Saúde

Um quinto dos medicamentos em África pode ser falso ou abaixo das normas

05 de agosto 2024 - 21:14

Um estudo da Universidade Bahir Dar mostra que na região subsariana do continente muitos medicamentos não cumprem padrões o que leva à falta de tratamento e a mortes evitáveis.

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Farmácia de rua em África.
Farmácia de rua em África. Foto de Manuel Trindade/Flickr.

De acordo com uma revisão de 27 estudos feita por investigadores da Universidade Bahir Dar da Etiópia, um quinto dos medicamentos disponíveis em África pode ser falso ou estar abaixo dos padrões.

A análise descobriu que, entre 7.508 amostras de medicamentos, pelo menos 1.639 falhavam pelo menos um teste de qualidade, confirmando-se que seriam falsos ou estaria abaixo dos padrões requeridos. Por medicamentos falsos entende-se aqueles que pretendem deliberadamente enganar sobre a sua identidade, composição ou fonte. Ao passo que os considerados abaixo das normas são autorizados mas não cumprem padrões de qualidade.

Já o ano passado, uma estimativa do Gabinete das Nações Unidas sobre Drogas e Crime vincavam que o custo humano desta situação podia saldar-se em 500.000 mortes por ano apenas na África subsariana. E a Organização Mundial de Saúde identificava os antibióticos e os medicamentos para combater a malária como os mais falsificados. Para além do mais, estão a contribuir para um aumento da resistência anti-microbiana. O país mais atingido será o Malawi.

O Guardian falou com Claudia Martínez, diretora de investigação da Access to Medicine Foundation, que afirma ser um problema de saúde da maior importância que leva à falta de tratamento e a mortes evitáveis.

A especialista explica que “as cadeias de abastecimento farmacêutico em muitos países de baixo e médio rendimento são frequentemente complexas, ineficientes e fragmentadas”e que “a região depende fortemente de um número limitado de fornecedores de medicamentos essenciais e muitos países enfrentam desafios significativos no fornecimento de produtos atempadamente e no controlo eficaz da qualidade dos produtos no mercado.” Para além disso, o papel de múltiplos intermediários na distribuição de produtos no continente terá facilitado a infiltração deste tipo de medicamentos que não cumprem as regras.

Em 2017, um estudo da Organização Mundial de Saúde apontava para um em cada dez produtos médicos nos países em desenvolvimento era falsificado ou abaixo dos padrões, sendo 42% em África, 21% nas Américas e 21% na Europa.

O jornal britânico, contudo, matiza as conclusões do estudo. Sean Cavany, um matemático do Centro de Medicina Tropical e Saúde Global da Universidade de Oxford avisa que este tipo de revisões pode implicar algum “enviesamento” porque, por exemplo, investigações que não tenham descoberto medicamentos falsificados ou abaixo da norma podem não ter sido publicadas e alguns dos estudos não são aleatórios, pelo que as amostras podem ter algum tipo de seleções.

Para ele, se está confirmado através de estudos anteriores que os medicamentos falsos existem mais em África, há uma escassez de estudos sobre o tema fora deste continente e de Ásia.