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Um "parafuso para substituir": trabalhadores de tecnológicas chinesas criticam trabalho abusivo

Cresce na China debate sobre práticas abusivas de trabalho nas grandes empresas tecnológicas. Trabalhadores partilham online críticas sobre horários de 9 horas por dia, 6 dias por semana, que já levaram diversos patrões a reagir.
Jack Ma, chefe do grupo Alibaba, numa apresentação pública em 2009. Foto de keso s/Flickr.
Jack Ma, chefe do grupo Alibaba, numa apresentação pública em 2009. Ma reagiu com agressividade às críticas crescentes sobre trabalho abusivo no setor. Foto de keso s/Flickr.

Huawei, Alibaba, Tencent, Xiaomi — a lista de empresas tecnológicas chinesas em ascensão por todo o mundo não pára de crescer. Mas os trabalhadores que sustentam o sucesso destas empresas começam também a ganhar voz contra as duras condições de trabalho que enfrentam.

Segundo o Guardian, está a crescer na China um debate sobre a cultura de trabalho excessivo, em particular o chamado "horário 996", de trabalho das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana, que é regra nestas empresas. Há vários meses que trabalhadores de tecnológicas chinesas vêm partilhando na página 996.ICU do GitHub relatos sobre situações de trabalho em excesso, imposto de forma coerciva ou sub-reptícia.

O GitHub é um site de partilha de código e informação dominante entre quem trabalha nas TI, e o nome 996.ICU é uma referência a uma piada corrente entre os trabalhadores do setor, que afirma que quem segue o horário 996 arrisca-se a acabar numa unidade de cuidados intensivos (Intensive Care Unit em inglês). A página criou uma lista negra que inclui mais de 150 empresas, com detalhes cada vez maiores sobre práticas abusivas em cada empresa. Para um exemplo, a Ant Financial, uma empresa de serviços financeiros pertencente ao dono do Alibaba, é referida como tendo um regime 9106 ainda pior que o 996: seis dias de trabalho por semana, das nove da manhã às dez da noite.

Nas últimas semanas, estes relatos extravasaram para um debate mais vasto nas redes sociais na China, levando vários executivos e patrões a reagir, normalmente na ofensiva.

Jack Ma, fundador do gigante do comércio online Alibaba, afirmou que os trabalhadores deveriam considerar o horário 996 uma bênção e uma honra, em vez de um abuso. Em comentários no WeChat da empresa (aplicação análoga ao WhatsApp muito popular na China), reproduzidas pelo Guardian, afirmou: "quem entra no Alibaba, deve estar preparado para trabalhar 12 horas por dia. Caso contrário, porque viria para o Alibaba? Não precisamos daqueles que trabalham no conforto das 8 horas por dia". No mesmo sentido, Richard Liu, fundador da JD.com, outra empresa de comércio online, afirmou que no início da empresa acordava durante o sono de duas em duas horas para poder prestar serviço ao cliente 24 horas por dia. Acrescentou num tom agressivo que desde então o número de "preguiçosos" na empresa tem crescido: "se isto continuar assim, a JD não terá hipótese e será expulsa sem piedade do mercado. Os preguiçosos não são meus irmãos".

O debate está a alargar-se e as vozes dos trabalhadores não dão sinais de recuar, revelando pelo contrário uma consciência critica crescente de todo o sistema de laboral e económico. Exemplo é um comentário de um trabalhador no fórum Zhihu, também destacado pelo Guardian: "As empresas hoje são máquinas que nunca podem parar. Somos só parafusos. Se o parafuso ganhar ferrugem, põe-se um pouco de óleo em cima, aperta-se outra vez e volta-se a usar. Se partir, arranjam um novo para te substituir. A máquina não pode parar".

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