Um dia antes da invasão, o Hamas propôs condições para trégua de dez anos com Israel

20 de julho 2014 - 1:31

Um dia antes de o governo israelita ter decido invadir Gaza por terra, algo que não acontecia desde 2009, o Hamas entregou ao Egito uma lista com dez condições para que fosse atingida uma trégua de dez anos. A presença de tropas internacionais nas fronteiras era uma das reivindicações deste movimento. Artigo de Opera Mundi.

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A divulgação da lista, na quarta-feira (16/07), surgiu após as informações de que o Hamas oficialmente rejeitava a proposta de cessar-fogo egípcia, que tinha sido aceite por Israel. O grupo político que controla a Faixa de Gaza e cujo braço armado lança mísseis contra o território israelita afirma ter ficado à margem das negociações mediadas pelo Egito, país que mantém relações razoavelmente boas com o governo de Tel Aviv a ponto de permitir uma ligação telefónica entre o presidente egípcio, Abdel Fattah Al Sisi, e o primeiro ministro Benjamin Netanyahu para discutir a trégua, contacto mantido em segredo até há pouco tempo. Vale a pena assinalar que o ex-general Al Sisi foi quem comandou, em 2013, o golpe militar contra o presidente Mohammed Mursi, da Irmandade Muçulmana, grupo islamita próximo ao Hamas.

Tanto o Hamas quanto o movimento palestiniano da Jihad Islâmica estão convencidos de que Israel participou da elaboração do cessar-fogo, motivo pelo qual foi aceite tão rapidamente por Netanyahu. Pior ainda, o Hamas afirma que teve conhecimento do rascunho da trégua através da própria imprensa, o que considerou uma tentativa de "humilhar' a organização, segundo reporta o Haaretz.

O jornal israelita Maa'riv, citando fontes palestinianas, afirma que a lista do Hamas foi entregue a mediadores egípcios e que a trégua duraria dez anos, caso Israel aceitasse as condições - que têm, como um dos pontos principais, uma reivindicação antiga de Gaza, a existência de garantias internacionais certificando o cumprimento do acordo. Não há confirmações oficiais que atestem a receção da lista pelo Cairo, além das declarações de Ismael Haniyeh, líder político do Hamas em Gaza; Khaled Meschaal, líder político do Hamas fora de Gaza; e Izz al Din, porta-voz das Brigadas de Al Qassam, braço armado do Hamas.

Outra fonte palestiniana que sustenta a lista elaborada pelo Hamas é Azmi Bishara, ex-parlamentar em Israel e ex-secretário-geral do partido árabe-israelita Balad, obrigado a deixar o país em 2007 por acusações de envolvimento com o Hezbollah. Falando em nome do Hamas para a emissora Al Jazeera, Bishara também afirmou ontem que Israel só aceitou a trégua humanitária de cinco horas pedida pela ONU (Organização das Nações Unidas) para legitimar bombardeios futuros, como acabou por acontecer poucas horas depois.

Eis as dez condições apresentadas conjuntamente pelo Hamas e pelo movimento palestiniano da Jihad Islâmica:

- retirada dos tanques israelitas da fronteira com Gaza;
- libertação de todos os palestinianos presos na operação que se seguiu à morte dos três adolescentes judeus ultra-ortodoxos, no final de junho;
- suspensão do cerco e abertura da fronteira para fluxo de pessoas e comércio;
- criação de um porto e um aeroporto internacionais sob supervisão da ONU;
- extensão de 10 quilómetros na zona permitida para pesca no litoral palestiniano;
- internacionalizar a fronteira de Rafah (Gaza-Egito) e colocá-la sob supervisão da ONU e de nações árabes;
- presença de tropas internacionais nas fronteiras;
- flexibilizar as condições para que muçulmanos acedam para orações à Mesquita de Al Aqsa [o terceiro local mais importante na religião muçulmana e localizado na parte antiga de Jerusalém, controlada por Israel];
- proibição de interferências israelitas no processo político palestino, bem como no processo de reconciliação; e,
- restabelecer as zonas industriais de Gaza e melhorar o desenvolvimento na região.

Artigo publicado em Opera Mundi.