“Última Lição” de Adelino Fortunato

01 de março 2020 - 17:10

Em entrevista ao esquerda.net, Adelino Fortunato fala sobre a sua “última lição”, que terá lugar a 4 de março, e destaca a proposta de “uma Nova Agenda do Desenvolvimento baseada na preocupação de revalorizar a intervenção do Estado”, combatendo “a precariedade, o desemprego e as desigualdades”.

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Adelino Fortunato
Adelino Fortunato

A “Última Lição” do professor Adelino Fortunato terá lugar no Auditório da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), no próximo dia 4 de março, pelas 18h30 e terá transmissão direta online. Ver notícia no site da FEUC: https://www.uc.pt/feuc/article?key=a-9c2fc7d75c

Adelino Fortunato é professor universitário e é também dirigente do Bloco de Esquerda, sendo membro da Mesa Nacional e do secretariado nacional.

Na entrevista que concedeu ao esquerda.net, Adelino Fortunato, para além de abordar o tema da sua última lição, afirma que quatro décadas de professor “tem sido uma experiência extraordinária” e diz que após a última lição, continuará a fazer “o mesmo de sempre”, aproveitando para “publicar alguns trabalhos pendentes” e prosseguindo a intervenção cívica e política.

Do que trata a Última Lição, que tem o título “De `O Significado do Desenvolvimento` à ´Nova Agenda do Desenvolvimento`: em defesa da Transformação produtiva, dos Empregos de Boa Qualidade e da Mudança Estrutural Sustentável”?

Trata da evolução dos problemas das economias com diferentes níveis de desenvolvimento em todo o mundo e da forma de lidar com eles. Logo após a Segunda Guerra Mundial pensou-se que bastaria estimular o crescimento económico, por intermédio da intervenção do Estado, da acumulação de capital e da transformação estrutural da economia, para que o nível médio de vida da generalidade da população aumentasse e as suas condições de vida melhorassem. Na realidade, verificaram-se muitos casos de aceleração do crescimento mantendo desigualdades sociais profundas, desemprego e muita pobreza. Isto abriu as portas a críticas e à conceção do Desenvolvimento Humano, significa que é necessário também dar atenção especial à erradicação da pobreza e do desemprego e à diminuição das desigualdades entre grupos sociais, sexos e raças.

Trata-se de dar lugar de novo à Política Industrial, salvaguardando preocupações não só de sustentabilidade económica e social, como ainda de sustentabilidade ambiental e energética

Entretanto, as conceções neoliberais dominantes nos dias de hoje concentraram as políticas de desenvolvimento na mitigação da pobreza, sem a erradicar, e deixaram o crescimento económico às forças do mercado livre. Corresponde à aplicação da ideia segundo a qual o mercado é o mecanismo mais eficiente de afetação de recursos e é preciso deixá-lo funcionar de forma livre, e os danos colaterais daí resultantes (desigualdades, pobreza, desemprego, precariedade, baixos salários) devem ser atenuados com uma intervenção mínima do Estado. Como não há preocupação com a transformação estrutural e produtiva e a intervenção do Estado se concentra apenas na mitigação da pobreza extrema, criaram-se fenómenos novos aberrantes: trabalhadores empregados, mas pobres (working poor), desigualdades crescentes, pauperização das classes médias, precariedade no emprego.

Está em marcha em todo o mundo uma reação contra esta evolução, que propõe uma Nova Agenda do Desenvolvimento baseada na preocupação de revalorizar a intervenção do Estado com políticas ativas de fomento da atividade produtiva, do pleno emprego e da criação de empregos de boa qualidade, única forma de assegurar sustentabilidade económica e social no desenvolvimento. Isto é, acabar com a precariedade, o desemprego e combater as desigualdades. Trata-se de dar lugar de novo à Política Industrial, entendida como o conjunto de estímulos fornecidos pela intervenção de Estado para a criação de atividades económicas nos diferentes setores de atividade salvaguardando preocupações não só de sustentabilidade económica e social, a que já fiz referência, como ainda de sustentabilidade ambiental e energética, decisivas para combater as alterações climáticas.

 

Que balanço de quatro décadas de professor?

Adelino Fortunato
Adelino Fortunato

RBI, revolução tecnológica e emprego

28 de fevereiro 2020

No plano pessoal, tem sido uma experiência extraordinária, pois a carreira universitária é muito estimulante ao manter o contacto com a evolução das ideias e com a possibilidade de as influenciar, dentro de certos limites, produzindo conhecimento novo. Desse ponto de vista a longevidade permite avaliar com alguma distância as limitações daquilo que é dominante em diferentes épocas e como o que é uma verdade absoluta num determinado momento se converte numa heresia um pouco mais tarde. A ciência económica, acompanhando a evolução política das sociedades, adaptou-se ao que se tornou dominante alterando as suas prioridades e as recomendações que dela emanam. Por exemplo, durante muitos anos o objetivo do pleno emprego fez parte das políticas de inspiração keynesiana aplicadas por diferentes governos de forma consensual. Hoje, com a revolução neoliberal, esse deixou de ser o objetivo central da política económica e a “taxa de desemprego natural” é uma espécie de regulador para o objetivo mais geral da estabilidade dos salários (os neoliberais dizem para a estabilidade dos preços). Assim, hoje, apesar de as principais economias desenvolvidas viverem próximas do pleno emprego, os salários mantêm-se sensivelmente constantes e muito do novo emprego é precário.

No plano pessoal, tem sido uma experiência extraordinária, pois a carreira universitária é muito estimulante ao manter o contacto com a evolução das ideias e com a possibilidade de as influenciar, dentro de certos limites, produzindo conhecimento novo

Por outro lado, o trabalho de investigação é uma poderosa fonte de argumentos para a intervenção cívica e política, por que ajuda a dar consistência técnica e rigor científico às mensagens que se defendem no debate público. E também em sentido contrário, a forma como as ideias que defendemos é compreendida ou contraditada por uma audiência não especializada ajuda a tornar mais útil o esforço de produção de ideias e argumentos. Deste ponto de vista a intervenção cívica e a investigação científica devem ter grandes conexões.

Por outro lado, lidei com gerações muito diferentes de estudantes. Há 40 anos provinham de uma elite social e escolhiam as universidades e os cursos que desejavam sem restrições, não estava em vigor o mecanismo do numerus clausus. Hoje o acesso à universidade alargou-se, com a extensão da escolaridade obrigatória ao 12º ano, e há concorrência por vagas previamente fixadas, o que faz com que muitos estudantes não frequentem os cursos e as universidades que desejariam. Isto tem efeitos positivos e negativos que convém analisar para se perceber a mentalidade e as necessidades dos estudantes. Há mais diversidade que no passado.

E depois da última lição o que vais fazer?

O mesmo de sempre. Apesar desta Última Lição, espero não seja a última. Continuarei a investigar temas que se prendem com os Serviços Públicos e a sua Regulação Económica, com o Desenvolvimento e o Crescimento Económico, com a Política Industrial e os Sistemas de Pensões. Aproveitarei para publicar alguns trabalhos pendentes. E continuarei a intervir cívica e politicamente.

Adelino Fortunato na X Convençao do Bloco de Esquerda em 2016 - Foto de Paulete Matos

Adelino Fortunato na X Convençao do Bloco de Esquerda em 2016
Foto de Paulete Matos