Turismo cresce sem travão e é responsável por 8,8% das emissões de CO2

13 de dezembro 2024 - 14:54

Um estudo científico publicado esta terça-feira confirma que o setor do turismo é um dos que mais contribui para as emissões de gases com efeito estufa, cuja taxa de crescimento é o dobro da registada nas emissões da economia global.

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Turistas em Veneza.
Turistas em Veneza. Foto Boss Tweed/Flickr

Com um ritmo de aumento anual de 3,5%, o dobro da taxa registada nas da economia global, as emissões de CO2 do setor do turismo alcançaram em 2019 as 5,2 gigatoneladas. Os números do estudo publicado esta terça-feira na revista Nature Communications referem-se ao período pré-pandemia, entre 2009 e 2020, analisando 175 países. E estimam que em 2019 o contributo do turismo para a emissão de gases cm efeito estufa tenha sido de 8,8% do total de emissões.

O ritmo do aumento e sobretudo o facto de a evolução tecnológica não se traduzir num travão das emissões, ao contrário do que acontece noutros setores da economia global, dão maiores sinais de preocupação sobre a sustentabilidade do turismo. O transporte aéreo e em veículos individuais dão o maior contributo para o total das emissões do setor. Feitas as contas, cada dólar ganho no setor turístico corresponde à criação de 1,02kg de emissões de gases com efeito estufa, o que é quatro vezes mais do que o setor dos serviços e 30% acima da média da economia global.

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A análise de quem contribui mais para estas emissões dá também a imagem da desigualdade deste negócio: são os países ricos e com maior população que mais contribuem. Neste último caso, as viagens nacionais representam uma fatia substancialmente maior do turismo e estão em crescimento, com Estados Unidos, China e India a destacarem-se. Os 20 países com as maiores emissões são responsáveis por três quartos do total. Um dos cenários do estudo indica que se os 20 principais destinos turísticos tivessem reduzido em um ponto percentual a sua taxa de crescimento turístico anual entre 2009 e 2019 (de 5.9% para 4.9%), teriam conseguido reduzir as emissões de CO2 em 0,38Gt, o que se traduziria numa redução de 7% nas emissões globais do turismo.

A pandemia foi um travão involuntário a esta pegada carbónica, com as emissões do setor a caírem de 5,2Gt para 2,2Gt, provando que as restrições ao turismo contribuem de facto para baixar as emissões. Mas a retoma já ultrapassou os níveis de atividade turística anteriores à pandemia em muitos países. Será então de esperar que a atualização destes números indique que o aumento destas emissões voltou a ser imparável, apesar de todos os compromissos da Organização Mundial de Turismo para reduzir a metade as emissões em 2030 e reduzi-las a zero em 2050. Na verdade, explica ao ElDiario.es a investigadora principal deste estudo, Ya-Yen Sun, a manter-se a taxa de crescimento nos próximos anos, as emissões de CO2 do turismo vão duplicar a cada vinte anos. “As viagens são parte integrante da nossa sociedade e as pessoas têm um forte desejo de viajar”, diz a investigadora da Universidade de Queensland, acrescentando que “não acreditamos que este fenómeno social vá mudar a curto prazo, e por isso prevemos um crescimento sólido na procura por viagens nos próximos anos”, com as emissões a continuarem a aumentar em redor dos 3,5% ao ano.

Se os planos para a generalização dos veículos elétricos nas próximas décadas trazem alguma esperança de conter o aumento de emissões nas viagens domésticas, acontece o contrário no transporte aéreo fortemente dependente dos combustíveis fósseis. Este estudo sugere medidas direcionadas para travar o crescimento deste tipo de turismo internacional de longa distância, que é também o mais desigual no que diz respeito ao rendimento da população, dando o exemplo das taxas de CO2, orçamentos de carbono ou obrigações de uso de combustíveis alternativos.

O estudo analisa também a forma como alguns destinos turísticos serão afetados pelas alterações climáticas que o próprio negócio contribui para agravar, prevendo-se que destinos como África, Médio Oriente, Sul da Ásia e os pequenos estados insulares sejam negativamente afetados. Ou seja, as emissões causadas pelos turistas dos países ricos acabarão por fazer diminuir a procura de destinos turísticos nos países mais vulneráveis.  No entanto, os investigadores apontam que serão necessários mais estudos para se perceber como essa procura será influenciada pelas mudanças no clima, uma informação útil para o debate sobre desigualdades e justiça climática.