Venezuela

Trump procura derrubar Maduro nos supermercados

22 de dezembro 2025 - 10:44

O fantasma da hiperinflação volta a pairar sobre a Venezuela, alimentado pelo endurecimento das sanções e pela tentativa de bloqueio económico promovida por Washington.

por

Néstor Prieto Amador

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Supermercado na Venezuela.
Supermercado na Venezuela. Foto Mercato/Instagram

Nos supermercados de Caracas, os preços dos produtos voltaram a ser escritos com papel e caneta, sem ser em material impresso que pode ficar desatualizado em poucos dias. A inflação volta a atingir a economia venezuelana e os preços são atualizados quase diariamente “Todos os dias às voltas com os preços, rapaz”, resume um lojista de um mercado popular, protegido por montanhas de abacates, papaias e ananases.

Em novembro de 2024, quando Donald Trump venceu as eleições americanas, um dólar era cotado a 45 bolívares, a moeda nacional venezuelana. Pouco mais de um ano depois, a taxa de câmbio oficial já ultrapassa os 277 bolívares por dólar, e no mercado paralelo o valor é ainda mais elevado. O fantasma da hiperinflação volta a pairar sobre a Venezuela, alimentado pelo endurecimento das sanções e pela tentativa de bloqueio económico promovida por Washington.

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A ofensiva de Trump não é apenas militar, afirmam fontes próximas ao governo venezuelano. “Eles estão a tentar afetar a economia para gerar agitação social e assim justificar uma invasão”, afirmam. “Já vimos isso em Cuba, já fizeram isso no Iraque, querem colapsar a economia”, dizem.

O Banco Central da Venezuela (BCV) não divulgou informações recentes sobre a inflação, mas organismos económicos falam de aumentos de preços na casa dos três dígitos. De acordo com o índice semanal da Bloomberg, o aumento interanual dos preços já ultrapassa os 550% nos últimos 12 meses, enquanto o FMI projeta uma inflação superior a 680% em 2026.

O cerco de Washington a Caracas está a estrangular várias das vias que permitem à Venezuela obter divisas frescas — desde a venda de petróleo até ao acesso a créditos internacionais. O resultado é palpável nas ruas: menos dólares em circulação significa um bolívar ainda mais fraco, e um bolívar mais fraco implica preços mais altos quase em questão de dias.

Trump procurou endurecer ainda mais esta equação ao decretar um “bloqueio total” ao petróleo venezuelano, chegando mesmo a interceptar um navio que transportava crude do país sul-americano. “O impacto que sofrerão será algo nunca antes visto”, gabou-se o presidente estadounidense numa publicação nas redes sociais.

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As exportações do chamado ouro negro contribuem com cerca de um quarto do PIB nacional e concentram cerca de 80% do total das vendas externas venezuelanas. Obstruir a sua comercialização sufoca o pulmão da sua economia.

A tentação do governo venezuelano pode passar por emitir mais moeda nacional, bolívares, para cobrir despesas, mas essa injeção de liquidez, se não for acompanhada por um aumento na receita, alimenta uma espiral inflacionária: com a queda da confiança na moeda, a demanda por dólares sobe, o câmbio dispara e a inflação continua a subir.

O salário de Lourdes, cozinheira de 47 anos num restaurante de luxo em Chacao — bairro nobre da capital —, é o mesmo desde o início do ano, mas cada vez rende menos. Ela recebe em bolívares e, embora o valor nominal não tenha mudado, o seu poder de compra diminui a cada dia. Sempre que Lourdes levanta dinheiro do banco, a taxa de câmbio que obtém ao converter o seu salário é cada vez mais alta, o que significa que os seus rendimentos valem menos na prátic “Não é preciso aumentar o salário, mas sim travar a inflação”, diz ela. “Aqui podemos colocar zeros na moeda, mas se os preços continuarem a subir, não adianta nada”, explica.

“Já comprei a carne para fazer a minha hallaca [prato típico do Natal venezuelano]”, diz Lourdes com um meio sorriso no rosto. “Vou congelá-la e pronto, na próxima semana vai estar mais cara do que agora”, explica, refletindo como a inflação obriga as famílias a anteciparem-se à escalada dos preços.

O chavismo disposto a “resistir”

Apesar de os preços continuarem a subir, o governo mostra-se otimista e garante que “a economia venezuelana está mais forte agora do que em 2016 [o pior momento da crise económica anterior] para resistir”.

Maduro multiplicou contactos com os seus aliados russos e chineses e anunciou que a marinha venezuelana escoltará os petroleiros que chegarem à Venezuela, numa tentativa de diminuir a incerteza gerada pelo ataque norte-americano da semana passada. “Vamos continuar a exportar petróleo, os nossos parceiros podem ficar tranquilos”, afirmam.

“O que os EUA querem é que os venezuelanos não tenham o que comer e se voltem contra nós [o governo], mas, felizmente, já aprendemos com o passado”, diz. O Executivo venezuelano apostou na redução das importações e no aumento da produção nacional em setores-chave, como o alimentício. “Antes, tínhamos que ir buscar proteína animal fora e agora estamos a produzi-la aqui”.

Além disso, embora os salários percam poder de compra devido à pressão económica e às sanções dos Estados Unidos, o Estado venezuelano tenta mitigar os seus efeitos através de políticas sociais de alcance significativo.

O subsídio aos combustíveis — cujo preço, apesar de ter aumentado ligeiramente nos últimos anos, continua a ser um dos mais baixos do mundo —, a distribuição gratuita de determinados alimentos e os vales — destinados tanto a setores vulneráveis como a funcionários públicos — funcionam como mecanismos de alívio para as famílias.


Néstor Prieto Amador é politólogo e jornalista espanhol especializado em política internacional e geopolítica. Combina o seu trabalho académico com a análise internacional no Público.es. Artigo publicado no site do Centro Latinoamericano de Análise estratégica - CLAE.

 

 

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