Donald Trump deu esta semana mais um passo na escalada de agressão contra a Venezuela. Após três meses e meio de assassinatos extrajudiciais com os bombardeamentos a embarcações que já fizeram pelo menos 95 mortos, a pretexto da “luta contra o narcoterrorismo”, o presidente dos EUA veio esta semana acusar a Venezuela de ter roubado o petróleo ao seu país. Trump não se refere a nenhuma medida do atual governo de Nicolás Maduro nem mesmo aos do seu antecessor Hugo Chávez, mas sim à nacionalização feita em 1976 pelo governo de Carlos Andrés Pérez do maior complexo petrolífero da América Latina.
Venezuela
Trump diz que a Venezuela roubou terras e petróleo aos EUA. Delírio?
Álvaro Verzi Rangel
Face ao bloqueio decretado por Trump à entrada e saída de petroleiros da Venezuela e às ameaças de intervenção militar no país para colocar no poder a sua apoiante Maria Corina Machado, a restante oposição venezuelana pronunciou-se em defesa da soberania do país e contra as ameaças da Casa Branca.
“Quem diabos é Donald Trump para encurralar o nosso povo e nos condenar à maior fome da história, não apenas em solo venezuelano, mas em todo o continente americano?”, questionou o secretário-geral da Ação Democrática Bernabé Gutiérrez, condenando o bloqueio. O deputado acusou também Corina Machado de estar por detrás do bloqueio aos petroleiros e desafiou Maduro a convocar um grande protesto nacional contra a ameaça de Trump.
Desde la tribuna de la Asamblea Nacional alcé la voz para rechazar de manera categórica las declaraciones del presidente de Estados Unidos, Donald Trump, en las que pretende desconocer la soberanía de Venezuela y apropiarse de nuestros activos y de nuestro petróleo.
Lo digo con… pic.twitter.com/BmnOciDxw7— Bernabé Gutiérrez (@adbernabe) December 17, 2025
“O Artigo 12 da Constituição da Venezuela declara claramente que os depósitos de petróleo em território venezuelano pertencem ao Estado venezuelano. Qualquer alegação de que a Venezuela tenha roubado petróleo dos EUA é simplesmente infundada”, publicou o economista Francisco Rodriguez, que participou na campanha do candidato da oposição Henri Falcón em 2018 e é autor do livro “O Colapso da Venezuela”. O economista lembra ainda que a última vez que os EUA intervieram para reverter uma nacionalização do petróleo foi em 1953 na ajuda ao derrube de Mossadegh para colocar o Xá no poder. “O que se seguiu não foi democracia mas autoritarismo, e em seguida uma revolução fundamentaista radical”, acrescenta.
O bloco parlamentar Aliança Democrática, que inclui partidos como a Ação Democrática e o Copei também repudiou “energicamente a estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, assim como a contínua busca de mecanismo de intervenção contra nosso país”. O manifesto intitulado “A aliança democrática renova o seu compromisso com a Venezuela” apela ao governo de Maduro para conceder indultos “que permitam a liberdade imediata de qualquer preso político”. A aliança diz que os problemas do país devem ser solucionados internamente e que “a defesa da soberania é a defesa das nossas liberdades como país”.
Comunistas condenam “manobra imperialista de recolonização” e denunciam prisões arbitrárias de ativistas
Em comunicado, o Partido Comunista da Venezuela diz que a ordem de bloqueio dos petroleiros “constitui uma aberta e flagrante violação do direito internacional, agrava deliberadamente a já profunda crise política, económica e social de que padece o povo venezuelano e reafirma o carácter criminoso das medidas coercivas unilaterais”. Além disso, lembra que estas agressões externas “têm sido utilizadas pela cúpula governante de Nicolás Maduro como desculpa para impor uma política antioperária e antipopular, descarregando o peso da crise sobre as maiorias”.
Quanto à reclamação de Donald Trump do petróleo, terras e ativos venezuelanos, o PCV vê nela um novo corolário da Doutrina Monroe que põe em risco a soberania dos povos da região, condenando “a manobra imperialista de recolonização levada a cabo pelo governo dos EUA”, o “ato de pirataria internacional” do sequestro de petroleiros com crude do país e as ameaças de roubar as riquezas da Venezuela.
Entrevista
“Foi assassinato em alto mar”, diz procurador de crimes de guerra sobre os barcos alvo de Trump
Na terça-feira, o porta-voz do PCV, Pedro Eusse, denunciou também a continuação das detenções arbitrárias, como a do ativista dos direito humanos Nicmer Evens no passado sábado ou a de dirigentes sindicais como José Elias Torres, da Confederação de Trabalhadores da Venezuela, de William Lizardo, presidente da FetraConstrução, e de Arnoldo Méndez, do setor da saúde.
"Estes companheiros foram detidos no final de novembro e, até ao momento, não se sabe qual o paradeiro, nem a situação de saúde, nem em que estado se encontram e que lhes foi negado o direito à defesa. Esta é uma situação recorrente, já normalizada pelo Governo autoritário de Nicolás Maduro, que deve ser condenada pelo povo venezuelano", disse o líder do PCV.