Dez requerentes de asilo da Síria, Iraque, Irão, Vietname, Sudão e Albânia que chegaram ao Reino Unido por “meios irregulares”, cruzando o Canal da Mancha em pequenos barcos, e a instituição Asylum Aid foram confrontados esta quinta-feira com um desfecho positivo para o seu caso.
A conclusão do Tribunal de Recurso reverteu a decisão do Tribunal Superior que, em dezembro passado, concluiu ser legal enviar à força para o Ruanda os requerentes de asilo que chegam por “meios irregulares” para que os seus pedidos sejam processados.
We are so pleased that the Court of Appeal has deemed the Rwanda policy is unlawful on grounds of safety.
This is a vindication on the importance of the Rule of Law.
Thank you to all our amazing supporters for sharing this journey with us!
— Asylum Aid (@AsylumAid) June 29, 2023
O Tribunal de Recurso considera que, devido a deficiências no sistema de asilo ruandês, a serem enviados para o Ruanda, os migrantes enfrentariam o risco real de serem devolvidos aos seus países de origem, onde seriam alvo de perseguições ou outros tratamentos desumanos. Incluindo os migrantes que, à luz da lei, têm um pedido de asilo devidamente fundamentado.
Os juízes consideram que o Ruanda não é um “país terceiro seguro” e que enviar os requerentes de asilo para esse destino seria uma violação do artigo 3º da Convenção Europeia de Direitos Humanos.
Decisão aplaudida por várias organizações
A Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), que apoiou o recurso, informou o Tribunal que o Ruanda tem um histórico de abusos de direitos humanos contra refugiados dentro das suas fronteiras, incluindo deportações forçadas, expulsões e detenções arbitrárias. E defendeu que o Home Office não seria capaz de garantir a segurança dos requerentes de asilo deportados para o país do leste africano.
Os advogados dos requerentes de asilo e ativistas de direitos humanos também saudaram a decisão.
Toufique Hossain, da sociedade de advogados Duncan Lewis, citado pelo The Guardian, afirmou que “o ‘sonho’ e a ‘obsessão’ do secretário do Interior estão em frangalhos”.
“O Tribunal de Recurso decidiu por maioria que o Ruanda não é um país terceiro seguro. Falamos em nome de todos os nossos clientes profundamente vulneráveis ao agradecer ao tribunal pela sua decisão”, frisou.
SO proud of this team & overjoyed by the result. Thankful to our magnificent counsel team for all their work. The fight may not be over, but today is a good day for refugee rights, the rule of law & for anyone who resists extreme policies targeting those in need of protection. https://t.co/S9KBace8RE
— Toufique Hossain (@ToufiqueHossain) June 29, 2023
Enver Solomon, diretor-executivo do Conselho de Refugiados, afirmou-se aliviado com a decisão do Tribunal de Recurso. No entanto, referiu estar desapontado por os juízes “não terem concluído que a política geral é ilegal”.
Já a Law Society assinalou que a decisão põe em causa todo o projeto de lei de migração ilegal do governo, que prevê o dever legal do executivo de deter e remover aqueles que chegam ao Reino Unido por “meios irregulares”, para o Ruanda ou outro terceiro país “seguro”.
The Court of Appeal has ruled that the High Court’s decision that Rwanda was a safe third country should be reversed.
Unless and until the deficiencies in Rwanda’s asylum processes are corrected, removal of asylum seekers to Rwanda will be unlawful. (1/6)
— The Law Society (@TheLawSociety) June 29, 2023
O Partido Trabalhista britânico congratulou a conclusão dos juízes e afirmou que a política migratória estava a “desmoronar”.
Today’s judgement shows Rishi Sunak has no plan to fix the Tories’ small boats chaos & his only idea is completely unravelling
Tories go for gimmicks not grip. Rwanda plan is unworkable, unethical & extortionate; a distraction from serious action needed & that Labour called for pic.twitter.com/g2nZHFxDDs
— Yvette Cooper (@YvetteCooperMP) June 29, 2023
Governo britânico vai recorrer
O primeiro-ministro do Reino Unido já anunciou que o governo vai recorrer da decisão.
Rishi Sunak afirmou, em comunicado, que acredita “firmemente que o governo de Ruanda forneceu as garantias necessárias para assegurar que não haja risco real de que os requerentes de asilo realocados sob a política de Ruanda sejam devolvidos indevidamente a países terceiros”.
“A política deste governo é muito simples: é este país – e o seu governo – quem deve decidir quem vem aqui, não gangues criminosos. E farei o que for necessário para que isso aconteça”, acrescentou.
It is this country – and your government – who should decide who comes here, not criminal gangs.
My statement on today’s ruling pic.twitter.com/VMvYBbs0Oz
— Rishi Sunak (@RishiSunak) June 29, 2023
A ministra do Interior britânica, Suella Braverman, disse estar “desapontada” com a decisão: “O povo britânico quer parar os barcos, e este governo também. É isso que estou determinada a fazer e não vou dar um passo atrás”, assegurou.
The Home Secretary @SuellaBraverman on the Court of Appeal's judgment on Rwanda Migration And Economic Development Partnership. pic.twitter.com/2OcB4pQdcY
— Home Office (@ukhomeoffice) June 29, 2023
Governo do Ruanda empenhado em fazer parceria funcionar
Um porta-voz do governo de Ruanda enfatizou que, “embora esta seja uma decisão do sistema judicial do Reino Unido”, o executivo ruandês discorda “da decisão de que Ruanda não é um país seguro para requerentes de asilo e refugiados”. E avançou, inclusive, que “o Ruanda é um dos países mais seguros do mundo”, tendo sido reconhecido por instituições internacionais pelo seu “tratamento exemplar aos refugiados”.
“O Ruanda continua totalmente empenhado em fazer esta parceria funcionar” e receber os migrantes e “fornecer o apoio de que precisam para construir uma nova vida” no país, acrescentou.