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Transnístria, a história da república separatista apoiada pela Rússia

A Rússia usou a república separatista para forçar a Moldávia a ficar na sua órbita, através do controlo sobre centrais elétricas, gasodutos, da fraude eleitoral recorrente a favor dos candidatos pró-russos, da constante pressão militar e do crime organizado. Por Vlad Iaviță.
Soldados russos em exercícios na Trasnítria em 2017. Foto do Ministério russo da Defesa.
Soldados russos em exercícios na Trasnítria em 2017. Foto do Ministério russo da Defesa.

É estranho para mim encontrar o Twitter cheio de ocidentais a querer saber coisas acerca da Transnístria. Antes, a região separatista da Moldávia, nas fronteiras com a Ucrânia, apenas tinha uma cobertura noticiosa ocasional enquanto “o país que não existe”.

Para muitas pessoas, a Transnístria é uma excentricidade geográfica, cheia de crimes, mas sem uma clara força geopolítica por detrás. Mas as recentes explosões em localizações estratégicas no território separatista voltaram a colocá-lo nos noticiários. A presidente moldava, Maia Sandu, declarou que a pressão para aumentar as tensões vem das fações pró-russas dentro da Transnístria, enquanto que a Rússia classificou os ataques como "atos de terrorismo".

Em resposta, alguns analistas foram para as redes sociais contar as suas histórias da Transnístria, descrevendo como descobriram a sua existência de forma acidental, muitas vezes através de experiências de viagem desagradáveis. Para muitos dos que a conhecem é o arquétipo da zona de “conflito congelado”, um Estado falso na Europa de Leste que parece e atua como uma relíquia soviética, um paraíso para o crime organizado que a partir daí afeta os Estados vizinhos.

Para mim, é o lugar de onde vem a minha família.

Uma forma de vida que está a desaparecer

Cresci em Bucareste, mas a Transnístria sempre foi um lugar fascinante, onde ia visitar amigos e família nos aniversários e festas. Estou desejoso de voltar este Verão e ficar por um período mais longo, em parte para documentar as histórias do que se passa no terreno, em parte por preocupação de que a situação se deteriore ainda mais, pode ser a última vez que tenho a oportunidade de experienciar aqueles locais como os lugares relativamente pacíficos, pitorescos, das minhas memórias de infância.

Se não estão familiarizados com a geografia da região, a Transnístria é uma fina faixa de terra que se estende ao longo da margem esquerda do rio Dniester em grande parte da fronteira da Moldávia com a Ucrânia. Antes do colapso da União Soviética, albergava grande parte das infraestruturas industriais da República Socialista Moldava e era a parte mais russófona da República. Separou-se efetivamente da administração de Chișinău, a capital da Moldávia, após a guerra de 1992, quando forças separatistas apoiadas pelos militares russos lutaram contra as tropas moldavas. Desde então, a maior parte do território tem sido administrado por uma auto-proclamada República separatista sem qualquer reconhecimento internacional – nem sequer de Moscovo, pelo menos até agora.

Num contexto mais próspero e estável, as suas zonas de uma beleza natural deslumbrante dariam grandes destinos turísticos. Na zona de Dubăsa, as margens verdes e montanhosas do rio Dniester oferecem o cenário para aldeias de calcário com casas pintadas em tons de azul pastel.

Nos anos mais recentes, contudo, estas têm vindo gradualmente a desaparecer. É um sintoma de como o modo de vida rural da região está a desaparecer – e do falhanço em dar condições para que as pessoas aí continuem a viver e a trabalhar. A realidade de um governo corrupto e pobre – apoiado, de facto, por Moscovo – é um obstáculo demasiado grande para permitir que estas áreas voltem a prosperar através do turismo ou das indústrias locais. E assim as pessoas estão a partir e as suas casas estão a desmoronar-se.

Durante séculos, a região foi atravessada por rotas comerciais que encorajaram o crescimento de diversas comunidades – ucranianos, romenos, moldavos, russos, búlgaros, polacos, membros das comunidades judaicas de toda a região. Em parte devido à suspeição do regime face às minorias, e também devido à sua localização nas fronteiras ocidentais da União Soviética, sofreu imenso durante o terror estalinista dos finais dos anos 1930. muitas famílias da margem esquerda do Dniester têm histórias de familiares que foram enviados para campos de trabalho ou simplesmente executados e enterrados em locais não assinalados.

Cicatrizes da guerra

Mas a maior parte das cicatrizes que hoje são visíveis foram deixadas pela luta que estabeleceu as fronteiras atuais da auto-proclamada “República Moldava Peridniestriana” – para dizer o seu nome oficial. As aldeias e vilas ao longo das linhas da guerra de 1992 ainda mostram sinais dos combates – há por todo o lado escolas, casas e vedações atravessadas por estilhaços.

Apesar da sua história complexa, a influência cultural russa continua a ser forte aqui, o que se reflete nos meios de comunicação social e, em particular, nos canais de televisão mais populares. Até nas casas dos meus familiares mais ocidentalizados, a televisão russa estava sempre ligada – desde os filmes ao talk shows, havia sempre alguma destas coisas a soar como pano de fundo.

Muita gente na Transnístria também partilha um sentimento de nostalgia pela União Soviética, pelo menos pelos anos 1970 e 1980. As pessoas lembram-se desta época como um período no qual pelo menos havia um sentimento de comunidade, com os locais de trabalho perto de casa, boas ligações de transportes e eventos frequentes – desde festas a projeções de filmes – até nas aldeias e vilas mais pequenas. As suas vidas eram vividas num raio de distância pequeno – não era perfeito ou abastado mas era previsível e relativamente confortável.

Agora, estes agregados populacionais mais pequenos estão esvaziados. Toda a gente sai ou pensa fazê-lo – ou para o Ocidente ou para Leste, com o primeiro a ter-se tornado ainda mais atraente depois do acordo de associação da Moldávia com a União Europeia implementado em 2016. A Roménia tem também uma política muito aberta de oferta de cidadania aos moldavos, sendo utilizada como principal via para emigrar para a Europa Ocidental.

Hoje em dia, é difícil pintar uma imagem cristalina da opinião pública, uma vez que não existem sondagens recentes e fiáveis feitas no território separatista. É evidente, porém, que algumas pessoas são genuinamente pró-russas e olham com desdém para as aspirações ocidentais da Moldávia. Muitas outras são apenas céticas e parecem estar simplesmente preocupadas com os problemas mundanos da vida quotidiana. E, claro, existe ainda um grupo que prefere abertamente a reintegração na Moldávia e a sua viragem para Ocidente.

Um regime cleptocrático

O declínio de aldeias e vilas explica-se por uma mudança na procura do mercado global de trabalho e pela captura da Transnítria por um regime cleptocrático, autoritário, em Tiraspol, a capital não reconhecida deste Estado. A corrupção e o crime organizado tornam muitas atividades económicas difíceis e imprevisíveis, ao mesmo tempo que a infraestrutura continua a ser extremamente pobre.

Apoiada política e economicamente de forma ilegal por Moscovo nos últimos 30 anos, a cleptocracia de Tiraspol fomenta o crime e os abusos dos direitos humanos. Tráfico de seres humanos, raptos, assassinatos, qualquer forma de violência que se possa pensar, toda a gente na região conhece alguém que já tenha sido vítima.

O mais perturbante, contudo, é que apesar do facto disto continuar a acontecer há décadas, algumas pessoas só estão a descobri-lo agora – ou só agora o consideram digno da sua atenção. Com a situação na Ucrânia, muitos ficaram surpreendidos ao assistir às escandalosas alegações da Rússia de um genocídio contra as pessoas de etnia russa no país. O uso de regimes fantoche no Donbass chamou a atenção para os “novos” truques geopolíticos da Rússia. O uso de operações de “provocação” pelo exército russo para justificar a agressão da Ucrânia ganhou notoriedade depois dos avisos dos serviços secretos ocidentais neste inverno. Mas já tudo tinha acontecido, escondido à vista desarmada. O plano de tudo o que surpreendeu o mundo em 2022 começou em 1992 na Transnístria.

A Rússia, o movimento separatista e a guerra de 1992

O movimento separatista começou com o arco narrativo de que os cidadãos russófonos seriam marginalizados por uma Moldávia de direita, nacionalista. As forças militares russas apoiaram as milícias separatistas antes e durante o conflito de 1992. A justificação para o assalto das tropas da Transnístria à esquadra de polícia de Dubăsari a 1 de março desse ano (a ação que efetivamente começou a guerra) foi baseada na falsa acusação de que a polícia moldava foi responsável pelo assassinato de um líder separatista.

Na sequência da guerra, a Rússia apoiou mas não reconheceu a república separatista. Usou-a para forçar a Moldávia a ficar na sua órbita, através do controlo sobre as maiores centrais elétricas em Dubăsari e Cuciurgan, sobre os gasodutos; através de fraude eleitoral recorrente a favor dos candidatos pró-russos; ou através da constante pressão militar e do crime organizado.

Todos os tipos de agressão e interferência têm estado presentes na Transnístria. A guerra e a ocupação começaram realmente após o colapso da URSS. Andamos a falar há 30 anos sobre a reaproximação com uma Rússia em democratização, enquanto o seu império se mantinha vivo às nossas portas.

Já que se perdeu a oportunidade de aprender com o aviso que foi feito, agora é hora de pensar em formas de apoiar a Moldávia a garantir que permaneça estável no meio das novas tentativas de desestabilizar o país. Um passo saudável na direção certa, além de abordar o risco de segurança imediato, seria entender as necessidades das pessoas que vivem em ambos os lados do Dniester.


Vlad Iaviță é estudante de pós-graduação de Políticas Públicas Europeias na London School of Economics. Escreve como jornalista freelancer para vários jornais.

Artigo publicado originalmente no Open Democracy. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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