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Tinder e pombos: protestos criativos desafiam repressão de Putin

À medida que as manifestações anti-guerra varriam o país, o aparelho repressivo do Estado intensificou-se e o protesto foi-se tornando clandestino. Os ativistas mais comprometidos permaneceram desafiadores, criando maneiras criativas de espalhar a sua mensagem anti-guerra. Por Ernest Reid.
Katja Zlatija, “Não à Guerra" escrito na neve. Petrozavodsk. 5 março de 2022. Wikimedia.
Katja Zlatija, “Não à Guerra" escrito na neve. Petrozavodsk. 5 março de 2022. Wikimedia.

É sabido que o regime de Vladimir Putin não tem sido particularmente complacente quando se trata de protestos públicos. Apesar da Constituição russa garantir aos cidadãos o direito de reunião pacífica, a Lei Federal exige que os organizadores notifiquem e cheguem a um acordo com as autoridades locais sobre a logística do evento para que este seja “autorizado”. Se o evento for “não autorizado”, um participante comum pode enfrentar uma multa de até 20.000 rublos (320 dólares), até 100 horas de serviço comunitário, ou até 15 dias de “prisão administrativa” (encarceramento sem registo criminal). A reincidência num curto prazo pode transformar esta contra-ordenação em crime, com multas até três salários anuais, até 480 horas ou dois anos de serviço comunitário, e pode ir até 5 anos de trabalho forçado ou mesmo prisão.

Apesar disto, pessoas em diferentes partes da Rússia continuaram a sair e a exercer o seu direito constitucional, com ou sem “autorização”. Alguns deles atingiram os seus objetivos – desde libertar um jornalista (Ivan Golunov) detido pela polícia em circunstâncias duvidosas, até vencer uma batalha ecológica contra as autoridades locais e empresas privadas (em Shiyes e Kushtau). Ao mesmo tempo, aqueles que protestavam contra as ações das autoridades federais, seja desafiando o aumento da idade da reforma ou a prisão de um governador do Extremo Oriente da Rússia (Sergei Furgal), geralmente não eram bem sucedidos. Já os que organizaram e participaram em protestos “não autorizados”, como os que se seguiram à detenção de Alexei Navalny em 2021, esses arriscaram ao máximo.

Estado versus ativistas anti-guerra

O discurso de Putin sobre a Ucrânia no dia 24 de fevereiro de 2022 só poderia significar uma coisa para os dissidentes políticos na Rússia – as suas vidas estavam prestes a ir de mal a pior. No entanto, as semanas seguintes viram nascer a mais longa campanha de protesto de rua desde o “Libertem Furgal” em 2020, e a mais numerosa e difundida desde o “Libertem Navalny” em 2021. Tanto os aparelhos ideológicos do Estado, como os repressivos, não demoraram muito a responder. Mais designações de “agente estrangeiro”, mais proibições, mais detenções. Falando só em detenções, se no caso das mais de 10.000 pessoas que saíram para exigir a libertação de Navalny em todo o país no dia 21 de abril de 2021, menos de 2.000 foram detidas, dos aproximadamente 5.200 manifestantes anti-guerra, que saíram em todo o país a 6 de março deste ano, cerca de 5.000 foram detidos. Claramente, as autoridades não estavam dispostas a tolerar qualquer oposição ao que haviam designado como uma “operação militar especial”. Além disso, foram introduzidas várias novas leis que prenunciavam punições para os condenados por divulgarem informações falsas sobre as forças armadas da Federação Russa. Dependendo de uma variedade de fatores, uma pessoa pode ser multada até cinco milhões de rublos (mais de 80 mil dólares) ou enfrentar até cinco anos de trabalhos forçados ou até 15 anos de prisão. Não é de surpreender que, nestas circunstâncias, grande parte do protesto se tenha tornado clandestino.

A utilização de brinquedos nos protestos anti-guerra

Olhando para as táticas usadas pelos ativistas anti-guerra na Rússia, algumas delas têm sido bastante comuns, como deixar folhetos, autocolantes, graffiti e cartazes anti-guerra em locais públicos. Muitos deles inspiraram-se no repertório universal anti-guerra – como, por exemplo, brinquedos com mensagens anti-guerra ou tinta vermelha para enfatizar que a guerra tira não apenas a vida de adultos, mas também de crianças. Outro exemplo foi um boneco de Putin que segurava um cartaz onde se lia “criminoso de guerra”, um eco de campanhas anteriores que por todo o mundo se manifestaram contra as guerras da NATO utilizando bonecos “criminosos de guerra” de Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama e Tony Blair que os acompanhavam. No entanto, uma grande diferença é que nos países mais liberais, como os EUA e o Reino Unido, os manifestantes anti-guerra conseguiam sair em plena luz do dia e expressar a sua oposição aos ataques militares dos seus regimes contra o Iraque, a Jugoslávia, Líbia, etc. Na Rússia iliberal, os manifestantes devem deixar as suas mensagens anti-guerra de forma discreta, certificando-se de que ninguém, incluindo as câmaras de segurança, possam vê-los. E, às vezes têm de agir durante a noite para sua própria segurança.

Piquetes “silenciosos” e “rápidos”

No entanto, ainda existem aqueles que estão dispostos a arriscar. Os mais corajosos envolvem-se em “piquetes silenciosos” (fazem a sua vida diária com uma mensagem anti-guerra colada às suas roupas) ou “piquetes rápidos” (ficam com um cartaz anti-guerra ou com roupas com tinta vermelha durante alguns minutos, tiram algumas fotos para partilhar online e dispersam). Aqueles que querem estar mais seguros usam uma fita verde (um símbolo não oficial do movimento anti-guerra) ou ostentam o “3 5” que significa o número de letras no slogan russo “Não à Guerra” («Нет Войне»). A Resistência Feminista Antiguerra («Феминистское Антивоенное Сопротивление») tem utilizado roupas e fitas pretas na sua campanha "Mulheres de Preto" («Женщины в чёрном»). É claro que a maioria dos manifestantes prefere agir de forma incógnita, mas é aí que a criatividade começa a florescer.

Livros e cartas, rublos e etiquetas de preços

Alguns ativistas escrevem as suas mensagens anti-guerra em páginas de livros, que deixam nos parques, nos transportes públicos, e em notas, que depois fazem circular ao pagar as suas compras. Outros inserem mensagens anti-guerra em envelopes que enviam para endereços aleatórios, colocando-os em caixas de correio do outro lado da cidade. A mais criativa destas iniciativas são as “etiquetas de preço anti-guerra”, que os ativistas descarregam através do site da Spring («Весна» – uma organização pró-democracia), imprimem e colocam nas prateleiras dos supermercados. Estas mensagens apresentam geralmente um número e uma mensagem anti-guerra. Por exemplo, “10: Jovens soldados russos estavam a morrer há 10 anos durante a guerra no Afeganistão. Fim à guerra na Ucrânia!”, “43: Se não pararmos a guerra, os preços dos detergentes e produtos de higiene pessoal aumentarão em 43%”, “8: Perdi o contacto com a minha irmã na Ucrânia há 8 dias. Não sei o que lhe está a acontecer. Fim à guerra”, etc.

Campo de batalha: memória histórica

Esta recuperação de espaços públicos por ativistas, estendeu-se, de facto, para além dos transportes públicos e dos supermercados. Colocar flores com mensagens discretas anti-guerra nos memoriais da Grande Guerra Patriótica empurrou a batalha para o reino da memória histórica. Durante muitas décadas, a luta dramática e vitoriosa da União Soviética contra a Alemanha nazi durante a Segunda Guerra Mundial permaneceu como uma das conquistas nacionais mais celebradas. Mesmo na Rússia pós-soviética, desprovida de uma clara ideologia nacional, esta vitória “com lágrimas nos olhos” tem sido uma das poucas narrativas com capacidade de unificar a maioria das pessoas na Rússia através das fronteiras geracionais, ideológicas e étnicas. Na verdade, Putin e os seus ideólogos conseguiram aproveitar essa memória histórica para fazer exatamente isso.

Desde 2014 que os meios de comunicação social russos alinhados com o Estado manipularam as narrativas da Segunda Guerra Mundial para representar a Ucrânia pós-Euromaidan como um regime nazi. Assim, instrumentalizaram qualquer manifestação do nazismo na Ucrânia – como, por exemplo, as iniciativas dos funcionários do governo ucraniano que glorificavam colaboradores nazis da Segunda Guerra Mundial como Stepan Bandera, o uso de símbolos e slogans nazis e neonazis por alguns dos grupos militares e paramilitares ucranianos (por exemplo, o batalhão Azov), os ataques contra qualquer coisa russa ou pró-russa na Ucrânia (por exemplo, o massacre de Odessa em 2014), etc. Em síntese, o assunto "Nazi" passou a dominar a cobertura da Ucrânia, e a cobertura da Ucrânia passou a dominar a agenda da comunicação social dominante da Rússia. Sem surpresa, muitas pessoas na Rússia passaram a adotar uma perspetiva muito preto e branco sobre a guerra na Ucrânia – “nós” contra “os nazis” – e aceitaram a narrativa da “desnazificação da Ucrânia”.

Assim, os manifestantes que optaram por recuperar o tema da Grande Guerra Patriótica do regime de Putin encontraram uma tarefa difícil. Até agora, eles têm contrariado as narrativas dos meios de comunicação social controlados pelo Estado que comparam os colaboradores nazis ucranianos da Segunda Guerra Mundial com os militares ucranianos de hoje, auxiliados pela NATO, com algumas narrativas próprias – Hitler e Putin, alemães e russos como invasores, etc. No entanto, considerando que a manifestação pública de símbolos nazis é contra a lei na Rússia, e pode levar a multas, trabalhos forçados ou prisão, os manifestantes que recorrem a esta narrativa limitam-se a publicar memes nas redes sociais, mas isso não quer dizer que os seus protestos passam despercebidos.

Offline para online, online para offline

Com 90% da população da Rússia a utilizar a Internet, a batalha pelos corações e mentes tem sido tão vigorosa online quanto offline. Aqui, o tema da Grande Guerra Patriótica também está entre as armas escolhidas tanto para o movimento de protesto como para o contra-movimento. A Resistência Feminista Anti-Guerra (FAWR) tem defendido ativamente o sequestro e a apropriação das hashtags pró-regime no Instagram, Twitter e outras redes sociais. Por exemplo, no dia 9 de maio, quando milhões de pessoas na ex-URSS comemoram a vitória do Exército Vermelho sobre os nazis, a FAWR propôs retirar algumas letras das hashtags comemorativos #DiadaVitória (#ДеньПобеды) e #RegimentoImortal (#БессмертныйПолк ) transformando-as em #DiadaCalamidade (#ДеньБеды) e #RegimentoMortal (#СмертныйПолк), respetivamente. Da mesma forma, num outro feriado, sugeriram criar a hashtag #UcrâniaNãoÉRússia (#УкраинаЭтоНеРоссия) e associar uma mensagem que acusava os militares russos de crimes de guerra às hashtags promovidas pelo Estado: #DiadaRússia (#ДеньРоссии) e #Esperámos8anos (#МыЖдали8Лет - referindo-se aos oito anos anteriores ao conflito na Ucrânia, quando houve mais baixas e perdas do lado pró-Rússia).

Iniciativas híbridas, que ocorrem tanto online como offline, também têm sido bastante populares. Por exemplo, a campanha “Céus Pacíficos”, lançada pelo 8º Grupo de Iniciativa, envolveu lançar aviões de papel pela janela com mensagens anti-guerra e publicar fotos e vídeos nas redes sociais e nos canais anti-guerra do Telegram através de bots anónimos. Isto é semelhante à campanha que ocorreu há alguns anos, quando manifestantes lançaram aviões de papel para protestar contra os planos do governo russo de invadir a rede social Telegram, a principal plataforma de comunicação e informação de muitos ativistas anti-regime. Claro que naquela época era sobre a liberdade de expressão e ainda havia suficiente liberdade para os manifestantes lançarem os seus aviões de papel em público.

Tinder e trânsito

Para alguns, o Tinder será um suspeito muito menos comum quando comparado com o Telegram. No entanto, também foi instrumentalizado pelos dissidentes na Rússia. Nos últimos anos, os perfis do Tinder foram usados ​​como convite para os protestos organizados por Alexei Navalny e seus associados, por exemplo, com a secção “Sobre mim” a apresentar uma mensagem como “Vamos dar uma volta pelo centro de Moscovo no dia 23 de janeiro e aconchegar-nos dentro de uma viatura da policia” acompanhada de uma foto de uma jovem. Desta vez, é mais provável encontrar um perfil falso de Putin com a legenda “Procuro alguém que me ame depois de todas as minhas atrocidades”. Entre outras opções inusitadas de utilização de aplicações para protesto anti-guerra está o Yandex Maps – uma alternativa russa ao Google Maps. Alguns ativistas online publicaram atualizações de trânsito como “Graças a Putin, agora não posso comprar um carro ocidental”.

Pombos da paz

Por fim, os pombos. No movimento anti-guerra da Rússia, há muitos que temem a repressão, mas não conseguem ficar em casa a sentir uma imensa vontade de sair e de se juntarem com as pessoas que pensam da mesma forma e até mesmo comunicar a sua perspetiva com aqueles que podem não concordar com eles. Para contornar isto, criam formas originais de cumprir o que consideram ser a sua obrigação. Uma das formas é sair para alimentar os pombos. A principal ideia por trás disto é que é bastante incomum ver um grande grupo de pessoas a alimentar pombos. É provável que tal fenómeno desperte a curiosidade dos transeuntes, que podem aproximar-se dos alimentadores de pombos e perguntar-lhes o que estão a fazer. Nesse momento, os manifestantes disfarçados explicam que esta é a sua forma de protestar e assim partilham as suas mensagens anti-guerra com o desconhecido, espalhando assim as suas ideias e pensamentos fora das suas redes sociais habituais. Tais iniciativas podem parecer uma gota no oceano, mas, como diz o provérbio, “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.


Ernest A. Reid é doutorando na Universidade de Aston, Birmingham, Reino Unido.

Artigo publicado originalmente no Lefteast. Traduzido por Marco Marques para o Esquerda.net.

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