Testes PISA destacam resultados positivos e alta retenção

06 de dezembro 2016 - 16:34

A avaliação internacional de alunos realizada pela OCDE (PISA) coloca Portugal expressivamente à frente da média da OCDE em ciências, matemática e leitura.

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Relatório PISA 2015.

Os testes trienais agora revelados são relativos a 2015, e demonstram uma progressão de 2,8/ano em ciências, 2,6 em matemática e 1,8 em leitura.  A comparação entre países coloca Portugal em 23º lugar em Ciências, à frente da Noruega e EUA; em 22º lugar em leitura, logo após Taiwan e EUA; e 27º a matemática, entre França e Reino Unido.

Apesar dos resultados positivos, o ministro da Educação destacou a alta taxa de retenções de 31% registada em Portugal, apenas atrás da Espanha ou da Bélgica. Paralelamente, considerando que o PISA é realizado por alunos de 15 anos independentemente do grau escolar em que se encontram, quase 50% dos alunos que realizaram o teste não se encontravam no ano escolar correspondente.  

PISA: resultados à custa de quem?

Importa relembrar que o próprio modelo do PISA é alvo de duras críticas há vários anos por parte da comunidade académica. Luís Miguel Carvalho, docente da Universidade de Lisboa, escrevia na revista Educação (Nsº 12 e 13 de 2013) que «O percurso da agenda da OCDE em matéria educativa foi marcado pela tensão entre os princípios do liberalismo económico e os princípios da democracia social; e esta tensão manifestou-se (e manifesta-se) num equilíbrio instável entre critérios de eficiência e de eficácia e ideais de igualdade, inclusão e coesão social (ver Henry et al, 2001).

Nas últimas duas décadas, essa tensão vem sido gerida sob a 'tutela' dos primeiros: os problemas a que hoje dá primeiro plano remetem para educação enquanto factor gerador de vantagens na competição global e para a capacidade dos sistemas educativos produzirem uma força de trabalho flexível e adequada às necessidades do mercado de trabalho (Rubenson, 2008).»

O discurso do "eduquês" que levou Nuno Crato para a 5 de outubro argumentava insistentemente na equiparação curricular do sistema de ensino ao modelo da OCDE, com particular insistência na "aquisição de competências" que o PISA sobrevaloriza e que estiveram na origem das alterações curriculares de 2012, duramente criticadas pelas associações de Professores de Matemática e de Português (APM e APP).

Mas a política educativa de Nuno Crato não se limitou a alterações estruturais dos curricula. Durante a sua tutela, aplicou uma política de dualização do ensino com a introdução do ensino vocacional no 3º ciclo do ensino básico, precisamente o enfoque do PISA. Segundo os dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, em 2012, Portugal tinha 377 mil alunos no 3º ciclo do ensino básico, dos quais 45 mil matriculados em cursos vocacionais, CEF, EFA ou RVCC. Já em 2015, apesar da queda de 15 mil alunos no total, o número de matriculados nas vias vocacionais aumentou para 46 mil alunos. É importante realçar que estes alunos do ensino vocacional não são considerados nos testes PISA.

Assim, o período 2012 a 2015 correspondeu a uma alteração social e económica estrutural da comunidade estudantil no ensino básico, o que pode explicar a diminuição de "low performers" e reforço de "top performers" no mesmo período.

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