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Tariq Ali: “A União Europeia precisa de um choque para mudar”

O escritor e realizador é uma das referências da esquerda britânica que vai votar pelo “Brexit” esta quinta-feira. Em janeiro deu uma entrevista a um diário francês a explicar a sua posição no referendo britânico.
Foto Eduardo Barreira Barroso/Stop the War Coalition/Flickr

Anunciou que votará contra a permanência do Reino Unido na União Europeia. Porquê?

Não tinha pensado em participar neste referendo porque o debate me parece inútil. Mas, após ter visto a Grécia, a Irlanda e Portugal estrangulados pela austeridade, decidi votar contra a União. É uma instituição antidemocrática – o Parlamento tem poderes muito limitados e todas as decisões são tomadas pelo conselho de ministros – e uma máquina burocrática ao serviço do neoliberalismo. Ela alimenta a distância dos cidadãos em relação às elites políticas e o crescimento da extrema direita na Europa. A União precisa de um choque para mudar. O “Brexit” seria um choque. Preferiria que a esquerda se envolvesse numa campanha pela Europa, mas contra a União Europeia, para mostrar que somos críticos da UE por razões que não têm a ver com o chauvinismo da direita e da extrema-direita inglesa antieuropeia. Se Jeremy Corbyn tivesse apoiado o “Brexit”, isso daria lugar a uma imensa campanha à esquerda, pois seríamos muitos a partilhar dessa opinião.

Porque é que Corbyn decidiu opor-se ao “Brexit”?

Jeremy nunca foi um grande apoiante da UE, que considera uma máquina capitalista. Ele disse que estava muito insatisfeito com o seu funcionamento atual e que deveríamos lutar no seu interior. Mas preferiu essa opção para manter unido o Partido Trabalhista. É perigoso. Arriscamo-nos a ver na Grã Bretanha uma situação parecida à da França: o UKIP, a extrema-direita inglesa, a impor-se como o único partido representante da raiva dos cidadãos contra a elite política e as instituições europeias. É uma situação estranha: o euroceticismo é assumido sobretudo pelo Ukip, mas a esquerda também está muito nervosa. Entretanto, a maioria da população não mostra interesse pela União Europeia.

De onde vem essa falta de interesse?

O Reino Unido portou-se sempre como um país atlantista, mais do que europeu. Será que é por estar separado geograficamente do continente? Será porque o Império britânico manteve a ilusão de que não precisa da Europa para ser uma grande potência? No início, tanto a esquerda como a direita estavam contra a ideia de fazer parte da Europa. É o partido Conservador, liderado por Edward Heath, que fez entrar o Reino Unido no mercado comum em 1973. Ele esperava dessa forma evitar cair por completo sob a influência americana. Isso nunca funcionou como deve ser. Depois, nos anos Thatcher, são os sindicatos que ganharam interesse pela Europa: era a altura em que Jacques Delors falava da Europa Social. Mas esse estado de espírito desapareceu. As elites políticas longínquas da UE, o desemprego, os migrantes europeus, que o Ukip acusa de roubarem trabalho aos britânicos… tudo isso cria um sentimento antieuropeu.

Este referendo é efetivamente sobre a Europa?

A maioria dos britânicos não quer saber da forma como a UE funciona. Este é sobretudo um debate sobre a economia e em parte sobre identidade. A identidade britânica está fraturada após a quase saída da Escócia, é a questão da identidade inglesa que se coloca. Mas como defini-la num país com milhões de migrantes? Este referendo é revelador da crise que atravessa o Estado britânico na sua própria estrutura.

O que seria a UE sem o Reino Unido?

O “Brexit” significaria o princípio do fim para a União tal como hoje existe. A Alemanha ficava a ganhar com essa saída, para a reconstruir à sua imagem. A Europa foi sempre uma construção franco-alemã, mas Berlim já não olha para Paris como um aliado sério. No entanto, o poder francês assenta no facto de que a Alemanha a reconheça como seu par.

E o que seria do Reino Unido sem a UE?

Em caso de “Brexit”, julgo que é o modelo norueguês que se irá impor. No plano comercial, não mudará grande coisa: o Reino Unido continuaria a trabalhar com a UE, assinaria com ela acordos específicos que o obrigariam a aceitar uma boa parte dos seus regulamentos. A City de Londres continuaria no centro da finança europeia. Continuaríamos na NATO, tal como a Noruega. Em contrapartida, isso iria pôr cobro à imigração europeia, pois passaria a precisar de um visto de trabalho. E a Escócia, próeuropeia, votaria para se separar do Reino Unido e continuar na Europa. Na verdade, a elite britânica tem medo de sair da União Eurpoeia. Eu creio que ela irá lançar uma campanha de medo, com argumentos falaciosos: vão insistir que será terrível para a economia. Mas não acho que o “Brexit” tornasse o Reino Unido melhor. Conduziria apenas o país a olhar-se tal como é: uma pequena ilha no norte da Europa que só consegue brincar no recreio dos grandes por estar ligada aos Estados Unidos. Mas se ficarmos na União Europeia, nada irá mudar.


Entrevista publicada pelo Nouvel Observateur a 21 de janeiro.

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