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A sublime diva do soul que inspirou o movimento pelos direitos civis

A cultura musical fica a dever a Aretha Franklin ter trazido o extasiante fervor pentecostal para a música popular, desafiando os limites das vozes contemporâneas. Artigo de Leah Kardos.
A sublime diva do soul que inspirou o movimento pelos direitos civis
Aretha Franklin no Festival de Jazz de Newport em 2008. Foto Ben Alman/Flickr

Não foi por acaso que dois dos mais famosos contemporâneos de Aretha Franklin que foram a Detroit visitar a cantora na fase final da sua doença foram Stevie Wonder e Jesse Jackson. É difícil sobrestimar a importância de Franklin tanto para a música como para o movimento pelos direitos civis — e a presença de uma das maiores figuras da música ao lado do braço direito de Martin Luther King Jr. à sua cabeceira nos dias finais da sua vida é um tributo apropriado a um dos nomes maiores da cultura da América Negra.

Aretha Franklin era a “Rainha do Soul”. Uma das artistas que mais discos vendeu desde sempre, tornou-se famosa nos anos 1960 enquanto cantora com uma voz singular, portadora de enorme paixão e controlo. Os seus êxitos do fim da década de 60 inseriram-se no espírito do movimento pelos direitos civis, enquanto a sua celebrada versão (com recriação de género) de Respect, de Ottis Reading, foi um hino ao empoderamento da mulher negra.

Aretha Franklin - Respect [1967] (Original Version)

Primeira mulher a entrar no Rock and Roll Hall of Fame em 1987, a voz de Franklin tinha sido declarada um dos mais importantes “recursos naturais” do Michigan dois anos antes. Ela ganhou 18 prémios Grammy, incluindo o prémio de carreira (em 1994) e deixou um legado musical preservado em 42 álbuns de estúdio, 131 singles, seis álbuns ao vivo, entre outros. As suas atuações e produções emblemáticas ajudaram a definir o conceito de “música soul” no século XX, tornando-se a referência para a excelência das vocalistas negras.

As origens no gospel

Filha de um famoso pastor de Detroit CL Franklin, Aretha nasceu em Memphis em 1942 e foi criada em Detroit, arrancando a sua carreira no coro da New Bethel Baptist Church do seu pai. Ela pertenceu a uma geração de artistas afroamericanos que migraram do sul num tempo em que a segregação e a lei Jim Crow ainda vigoravam, e que depois fizeram parte da cultura americana mainstream.

Aretha Franklin sings at New Bethel Baptist Church in Detroit

A sua ligação profunda ao movimento pela liberdade no Sul era familiar e espiritual, bem como musical — o seu pai estava envolvido diretamente com as políticas dos Democratas e o movimento pelos direitos civis. Políticos e ativistas — ao lado das estrelas do gospel da altura — eram presença habitual na casa de família. Isso resultou na formação musical de Franklin, dada por estrelas como Dinah Washington e Mahalia Jackson, para além de herdar o compromisso forte com a justiça social. Ela continuou a apoiar políticas progressistas ao longo da sua carreira.

Para as pessoas engajadas em lutas políticas pela igualdade e respeito, a voz de Franklin veio articular a emoção coletiva, a insatisfação, a força e profundidade das suas experiências. A sua voz foi ouvida em atos políticos históricos — na convenção Democrata de 1968 em Chicago, pouco depois dos assassinatos de Martin Luther King e Robert F. Kennedy, ou na tomada de posse do primeiro presidente afroamericano, Barack Obama, em 2009. Ela também atuou nas posses dos presidentes Democratas Jimmy Carter e Bill Clinton.

Obama Inauguration: Aretha Franklin Sings

Encorajada a seguir as pisadas de Sam Cooke, Franklin começou a sua carreira a solo em 1960, atuando no circuito gospel e assinou um contrato discográfico com a Columbia Records. Os seus primeiros álbuns da década de 1960 misturaram estilos R&B com pop e jazz e apenas alcançaram um sucesso modesto. Foi apenas com a mudança para a editora Atlantic e o regresso ao estilo musical gospel em 1967 que Franklin deu o salto comercial.

Gravando nos estúdios FAME em Muscle Shoals, no Alabama, em parceria com o produtor e co-proprietário da Atlantic Jerry Wexler e a lendária secção de ritmos de Muscle Shoals, a estreia de Franklin para a Atlantic, I Never Loved a Man the Way I Love You, chegou a disco de ouro no ano do lançamento. Este período de trabalho com Wexler em Muscle Shoals fez nascer muitos êxitos famosos como Chain of Fools, (You Make Me Feel Like) A Natural Woman, Respect, ou I Say A Little Prayer.

Spooner Helps Aretha Hit Her Groove

Grande intérprete

Se bem que gravasse e interpretasse as suas próprias composições de tempos a tempos (um êxito de 1968, o hino feminista Think, é uma canção original dela), Franklin ganhou boa parte da sua fama enquanto intérprete singular de canções de outros. Através dos arranjos musicais influenciados pelo gospel e às suas mudanças surpreendentes ao conteúdo melódico, ela recriava de facto o material escrito por outros, afirmando uma espécie de propriedade criativa graças à atuação vocal vigorosa e dinâmica.

Franklin alterava muitas vezes o contexto das letras através da sua inflexão e ênfase ou introduzindo diálogo na interação com as cantoras de apoio. Essas vozes fraternas de apoio pertenceram muitas vezes às suas irmãs, Erma e Carolyn Franklin ou The Sweet Inspirations (um grupo feminino fundado por Cissy Houston e Lee Warwick, as mães de Whitney and Dionne). Através destas técnicas, como tinha feito com Respect, as letras podiam ser recolocadas para corresponder a perspetiva feminina negra. Outro exemplo posterior encontra-se na sua interpretação de Jumpin’ Jack Flash, dos Rolling Stones, em 1986, que foi usado como tema principal do filme homónimo de Whoopi Goldberg.

A cultura musical fica a dever a Aretha Franklin ter trazido o extasiante fervor pentecostal para a música popular, desafiando os limites das vozes contemporâneas. Ela foi uma das grandes divas da soul (ao lado de Diana Ross) — fundindo o gospel e o R&B para criar aquele modelo de expressividade e autenticidade vocal a que os artistas ambicionam alcançar. Ao fazê-lo, preparou o terreno para o virtuosismo técnico de Whitney Houston e Mariah Carey.

Um talento musical feroz não apenas nas interpretação vocal sensível e dinâmica mas também enquanto habilidosa pianista e arranjadora, Franklin exigia de nós respeito. E graças às suas enormes conquistas artísticas e culturais, tê-lo-á sempre.


Leah Kardos é professora universitária de música na Kingston University de Londres. Artigo publicado no portal The Conversation. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net.

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