Alemanha

Sobreviventes do Holocausto apelam ao voto contra a extrema-direita

06 de junho 2024 - 21:36

Os oito subscritores garantem que vão “fazer tudo o que estiver ao nosso alcance” para evitar que a tragédia se repita e lembram que “da última vez que a extrema direita chegou ao poder” exploraram o descontentamento e, “passo a passo, milhões de pessoas foram desprovidas dos seus direitos, incluindo o direito à vida.”

PARTILHAR
Sobreviventes do Holocausto
Sobreviventes do Holocausto. Foto que a acompanha a carta aberta.

Têm entre 81 e 102 anos, estão preocupados com o futuro e dizem que o “nunca mais” tem de ser dito agora. Oito sobreviventes do Holocausto lançaram uma carta aberta, publicada na plataforma Avaaz, dirigida aos jovens para que, nas próximas eleições europeias, se oponham à extrema-direita e defendam a democracia.

Abrem a missiva a dizer que “para milhões de vocês, as eleições europeias serão as primeiras das vossas vidas” mas “para muitos de nós, poderão ser as últimas”. Mas escrevem porque não baixaram o braços.

Dirigem-se igualmente “a todos os democratas” para lembrar: “da última vez que a extrema direita chegou ao poder, ainda éramos jovens, alguns de nós, crianças. Eles prometeram tornar este país grande novamente. Prometeram que os alemães estariam em primeiro lugar. E encontraram culpados por tudo o que não funcionava: os judeus, os sinti e rom [ciganos], os homossexuais, as pessoas com deficiência e os democratas convictos. Passo a passo, milhões de pessoas foram desprovidas dos seus direitos, incluindo o direito à vida.”

Afirmam que “não conseguimos detê-los” então mas transmitem a esperança que é possível fazer isso hoje. Explicam que nessa altura “não começou com campos de concentração”, que “a extrema-direita não chegou ao poder através de um golpe de Estado mas através de meios democráticos. E também que “muitos os subestimaram” e “não os levaram a sério” mas “poucos anos depois, a paz transformou-se em guerra” e “a nossa democracia tornou-se uma ditadura”.

Agora, garantem que vão “fazer tudo o que estiver ao nosso alcance” para evitar que isso se repita. Aos jovens, dizem compreender a frustração que sentem porque “muitas coisas neste país e neste mundo não estão a funcionar como poderiam”, mas contrapõem que “não votar não é solução”.

Nos “milhões de pessoas que já saíram às ruas contra o extremismo de direita este ano” encontram esperança. E também na ideia de uma “Europa unida e pacífica” porque se lembram “claramente de uma época em que isto parecia impensável”. Para além disso, lembram que “jovens e velhos. Judeus, cristãos, muçulmanos, ateus. Somos todos democracia.”

Alguns dos subscritores criaram também mensagens de vídeo citadas pelo Deutsche Welle. Walter Frankenstein, de 99 anos, numa delas afirma: “sei que naquela época havia uma situação similar à de hoje: um governo democrático vulnerável e um partido que reuniu as pessoas que estavam insatisfeitas” mas insiste que não votar “é a pior coisa que se pode fazer” porque a “nossa democracia tem de ser defendida, vez após vez”.

Ruth Winkelmann, de 95 anos, que escapou dos nazis porque se escondeu num galpão depois do pai ter sido deportado para o campo de concentração de Auschwitz, acredita que “a extrema-direita atual tem muito em comum” com os nazis dessa época.

A AfD procura influenciar os jovens com imagem divertida

Naquele país, a AfD, Alternativa para a Alemanha, o parceiro do Chega apesar das divisões na extrema-direita europeia, tem cerca de 15% das intenções de votos para as europeias. Por outro lado, também em notícia publicada no DW, fica-se a saber que este partido é o melhor posicionado no TikTok, uma das redes sociais preferidas pelos mais jovens.

Debora Schnabel, diretora do Centro Educacional Anne Frank, indica que foram descobertas “grandes quantidades de símbolos e códigos abertamente de extrema-direita no TikTok” divulgadas pelo perfis da AfD ou do ecossistema desta.

Por exemplo, o político mais seguido nesta rede é Ulrich Siegmund, deputado estadual na Saxónia-Anhalt com mais de 400 mil seguidores. A líder do partido, Alice Weidel, é apresentada no TikTok, segundo o estudo, como uma pessoa espontânea e divertida, imagem muito longe daquela que tem nos grandes meios de comunicação social. O resultado é que, de acordo com uma sondagem de abril, a AfD é o partido preferido dos jovens entre os 14 e os 29 anos, tendo 22% das preferências, o dobro do que no ano passado.