Emirados

Sobreviventes de ataque com drone presos no Dubai por avisarem família que estavam bem

18 de março 2026 - 12:13

Este é um das centenas de casos de detenções de cidadãos estrangeiros no Dubai e outros estados do Golfo por divulgação de imagens dos ataques iranianos ou críticas sobre a gestão de crise.

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Vista da parte danificada da Torre Dubai Creek Harbour após ter sido atingida por um ataque com drones iranianos no Dubai, Emirados Árabes Unidos,
Vista da parte danificada da Torre Dubai Creek Harbour após ter sido atingida por um ataque com drones iranianos no Dubai, Emirados Árabes Unidos, Foto EPA/Stringer

Três residentes estrangeiros no complexo de apartamentos Creek Harbour, um dos alvos dos drones iranianos no Dubai, imediatamente enviaram fotos dos estragos da explosão aos familiares no seu país de origem a avisá-los de que estavam bem. Quando a polícia chegou, pediu-lhes que mostrassem os seus telefones e acabaram detidos ao abrigo das leis de cibercrimes dos Emirados Árabes Unidos (EAU).

A denúncia é da organização Detained in Dubai, que presta serviços jurídicos a estrangeiros residentes nos EUA. A sua CEO, Radha Stiring, alerta para os riscos que os residentes estrangeiros correm ao reagir normalmente a um evento traumático. “Quando as pessoas passam por um choque tão grande como um ataque de drone contra o seu prédio, o primeiro instinto é contactar as famílias a dizer que estão bem. Criminalizar essa reação humana corresponde a punir as vítimas em vez de a proteger”, diz a advogada.

Como em outros casos denunciados nas últimas semanas, também nesta situação os detidos não publicaram as imagens em redes sociais ou outra plataforma pública, tendo apenas enviado por mensagem privada aos familiares. Mas Stirling sublinha que mesmo que não as tivessem partilhado com ninguém, o facto de terem na sua posse essas imagens é suficiente para iniciar uma investigação criminal. E não é preciso tirar uma fotografia para ficar sob a alçada desta lei. Quem a comentar numa rede social ou partilhá-la também pode ser acusado de espalhar boatos ou ameaçar a segurança nacional. Mesmo que comentem ou partilhem imagens publicadas fora do país por órgãos de comunicação social, acrescenta. Além da eventual pena de prisão até dois anos, os infratores arriscam-se a pagar uma multa até 75 mil euros e a ficar sujeitos à proibição de sair do país.

Segundo o El País, o Qatar anunciou a detenção de 313 pessoas de várias nacionalidades por filmar e partilhar vídeos dos ataques iranianos. Dias antes tinha anunciado a detenção de 194 pessoas, não sendo claro se estarão incluídas no grupo anunciado depois. Em Abu Dhabi, a polícia anunciou a detenção de 45 pessoas, metade delas com nacionalidade indiana, por motivos semelhantes. Também no Koweit foram anunciadas 16 detenções, com as autoridades a afirmar que estas ações serviram para espalhar o medo e gerar o caos. No Bahrein, onde se têm realizado muitos protestos após o assassinato de Khamenei - que era o líder religioso da maioria xiita neste país governado por uma monarquia sunita - o número de detidos até agora é de 37 pessoas.

No Dubai e noutros estados do Golfo, a segurança é o principal cartão de visita para atrair investimento. Muitos influencers das redes sociais, que para ali se mudaram para não pagarem impostos nos países de origem, têm publicado vídeos a reforçar esse sentimento de segurança, mesmo que as notícias deem conta de ataques de drones diários contra edifícios residenciais. A resposta do Irão ao apoio que os estados do Golfo deram à agressão militar dos EUA e Israel visa precisamente abalar a imagem de segurança que na última década atraiu a finança global para estes territórios.