Portugal especializou-se em não escolher lados, e isso pode deixar-nos sem nenhum

por

Eduarda Gomes

26 de abril 2026 - 10:48
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Num mundo em que as tensões aumentam, não escolher lados deixa de ser neutralidade e passa a ser indefinição. E a indefinição, em política internacional, raramente protege quem depende dela.

Paulo Rangel numa reunião de ministros europeus
Paulo Rangel numa reunião de ministros europeus. Foto UE

Portugal tem uma tradição diplomática discreta. Não criar problemas, não escolher lados e, se possível, não fazer muito barulho. Funcionou durante décadas. Talvez séculos. Fomos aperfeiçoando uma política externa que assenta numa ideia simples, estar presente, mas nunca demasiado exposto. O problema é que o mundo deixou de ser silencioso e a neutralidade confortável pode rapidamente transformar-se numa irrelevância perigosa.

Esta prudência não é nova. Durante o Estado Novo, Portugal cultivou uma neutralidade calculada, particularmente na Segunda Guerra Mundial, tentando manter relações com ambos os blocos enquanto protegia os seus próprios interesses. Não era propriamente uma neutralidade moral. Era uma estratégia de sobrevivência. Evitar compromissos firmes permitia ganhar margem e reduzir riscos. Essa lógica, com adaptações, sobreviveu à democratização e à integração europeia. Mudaram os aliados, mas manteve-se o instinto, não liderar confrontos, não assumir posições demasiado duras, preferir o consenso. Durante muito tempo, esta postura funcionou. A integração na União Europeia e na NATO ofereceu um enquadramento seguro. Portugal podia manter uma diplomacia discreta, sem grande necessidade de tomar posições firmes. Mas o mundo tornou-se mais polarizado, mais instável e mais exigente. É precisamente nesses momentos que a neutralidade deixa de ser confortável.

A diferença de reações portuguesas a conflitos recentes é reveladora. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, a condenação foi rápida, direta e inequívoca. Portugal alinhou imediatamente com a posição europeia, classificando a invasão como uma violação clara do Direito Internacional e apoiando sanções. Não houve hesitação significativa nem prudência excessiva. A posição foi clara e foi-o porque havia consenso político, europeu e atlântico. Já no caso da guerra entre Israel e Gaza, a postura foi diferente. A reação inicial centrou-se na condenação dos ataques do Hamas e na afirmação do direito de Israel à defesa, acompanhada por apelos genéricos ao respeito pelo Direito Internacional Humanitário. Só mais tarde, com o agravamento da situação humanitária em Gaza, Portugal começou a reconhecer violações e a endurecer o tom. Mesmo assim, de forma cautelosa, diplomática e gradual. A crítica foi indireta, cuidadosamente formulada e sempre acompanhada de linguagem moderadora.

Este padrão repete-se quando os Estados Unidos entram diretamente no centro das tensões. Perante operações militares americanas ou escaladas regionais, a posição portuguesa tende a deslocar-se para o território mais seguro, apelos à contenção, defesa da via diplomática, ausência de condenação direta. Não há apoio explícito, mas também não há crítica frontal. Há, sobretudo, prudência. Curiosamente, essa prudência nem sempre é partilhada por outros países europeus. França tem assumido posições mais assertivas em defesa do Direito Internacional. Espanha já recusou colaboração militar em determinadas operações. Itália impôs limites logísticos. Até o Reino Unido demonstrou reservas em momentos sensíveis. Portugal, pelo contrário, prefere manter-se numa zona cinzenta. Não se envolve, não critica, não confronta.

Esta diferença não é apenas ideológica, é estrutural. Portugal depende fortemente da relação transatlântica. Militarmente, integra a NATO e beneficia da proteção estratégica americana. A Base das Lajes, nos Açores, continua a ser um ponto geopolítico relevante para operações dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, grande parte do equipamento militar português é adquirido a fornecedores americanos, o que cria dependências técnicas, logísticas e operacionais. Não se trata apenas de alianças políticas, mas de uma verdadeira interdependência. Essa dependência ajuda a explicar a prudência. Criticar abertamente os Estados Unidos ou Israel pode ter custos diplomáticos e estratégicos. Num país com recursos limitados e com uma política de defesa fortemente integrada em estruturas atlânticas, a tentação de evitar confrontos é compreensível. O problema é que a prudência sistemática transforma-se, com o tempo, numa posição política em si mesma.

Há também uma dimensão interna. Em temas internacionais sensíveis, o consenso parlamentar é frequentemente difícil. Partidos divergem, o Governo evita polarizar e a posição oficial torna-se mais cautelosa. A política externa transforma-se num exercício de equilíbrio interno em vez de uma afirmação estratégica. Em teoria, decisões sobre segurança internacional deveriam ultrapassar clivagens ideológicas. Na prática, tornam-se reféns delas e a resposta acaba por ser a neutralidade. O risco desta postura é duplo. Por um lado, Portugal perde capacidade de influência. Num contexto internacional mais competitivo, os países que não assumem posições claras raramente definem a agenda. Limitam-se a reagir. Por outro lado, a neutralidade torna-se mais difícil de sustentar à medida que o mundo se polariza. As alianças exigem compromissos e os compromissos implicam escolhas.

Portugal habituou-se a estar bem com todos. Com a Europa, com os Estados Unidos, com diferentes blocos e interesses. Essa flexibilidade foi útil durante décadas. Mas o mundo atual é menos tolerante com ambivalências. A rivalidade entre potências intensifica-se, a segurança volta a ser central e as posições intermédias tornam-se mais frágeis. Não se trata de defender uma política externa agressiva ou confrontacional. Portugal continuará a ser um país pequeno, dependente de alianças e com margem limitada. Mas há uma diferença entre prudência e ausência de posicionamento. Uma diplomacia discreta pode coexistir com escolhas claras. O problema começa quando a moderação se transforma numa recusa sistemática em escolher.

Num mundo em que as tensões aumentam, não escolher lados deixa de ser neutralidade e passa a ser indefinição. E a indefinição, em política internacional, raramente protege quem depende dela.

Portugal aperfeiçoou a arte de não incomodar. O problema é que, quando todos são obrigados a tomar posição, quem insiste em não escolher pode descobrir tarde demais que não ficou no meio. Ficou sozinho.


Eduarda Gomes é estudante de Ciência Política na Universidade do Minho