Desde a revelação, a 27 de abril de 2022, das primeiras imagens do filme Barbie, realizado por Greta Gerwig, e das que foram divulgadas até ao seu lançamento oficial, uma onda cor-de-rosa parece estar a varrer o mundo da moda e da decoração: a tendência Barbiecore. Esta tendência deverá manter-se durante mais alguns meses, a confirmar-se o sucesso do filme que arrecadou 155 milhões de dólares no fim de semana de estreia nos Estados Unidos, tornando-se o melhor lançamento de um filme em 2023.
A boneca – que não assim tão jovem – está mais uma vez a alimentar paixões intensas e foi elevada ao estatuto de ícone feminista. Fazemos aqui uma retrospetiva da sua história e do sucesso do filme – e, cuidado, haverá spoilers!
A primeira Barbie foi comercializada pela Mattel em 1959: foi uma criação de Ruth Handler, a mulher de um dos seus fundadores – cuja história é contada no filme. O que o filme, porém, não diz é que a Barbie foi inspirada em Lilli, uma personagem de banda desenhada do diário alemão Bild Zeitung, que foi transformada em bonecas de coleção. A Barbie tornou-se rapidamente um sucesso estrondoso entre as raparigas americanas e depois do mundo inteiro – mais de mil milhões de bonecas foram vendidas até à data – com a fisionomia adulta da boneca a romper com as tradicionais bonecas até então oferecidas às crianças.
A Barbie foi criticada desde o início pela sua aparência, porque incorpora todos os estereótipos da chamada beleza “ocidental” (pele clara, cabelos louros, etc.) e distinguia-se inicialmente das outras bonecas pelas suas medidas hipertrofiadas, nomeadamente os seios grandes e a cintura excessivamente fina.
No entanto, ela também foi rapidamente apresentada como uma “mulher emancipada”, dona da sua própria “casa de sonhos” e de um carro de luxo para combinar com as suas roupas (um Corvette Stingray rosa de 1956 no filme), trabalhando tanto em profissões consideradas “femininas” – top-model, assistente de bordo, baby-sitter – como noutras ditas “masculinas” – cirurgiã, maquinista de comboio, astronauta...
A realizadora Greta Gerwig e a Mattel apresentam aliás o filme martelando o principal argumento da franquia: a Barbie pode ser qualquer coisa! A Barbie consegue assim conciliar uma aparência muito feminina onde o rosa, a cor do feminino por excelência, é omnipresente, ao mesmo tempo que oferece às raparigas a possibilidade de se projetarem nas mais variadas profissões que poderiam exercer quando adultas.
A Barbie tornou-se então um objeto de debates sobre a conceção e a perceção da feminilidade, opondo quem a considerava sexista àqueles que a veem como feminista. Isso não a impediu de se tornar um ícone popular – pelo contrário – inspirando casas de moda (Moschino, Balmain…) e artistas, que a louvam (Arielle Dombasle, Andy Warhol…) ou a criticam (Luisa Callegari, Lio…).
Barbie, da Barbie Land ao mundo real
No filme de Gerwig, todas as Barbies vivem livres e felizes na Barbie Land, um país cor-de-rosa e idílico onde ocupam cargos importantes (médicas, juízes, presidentes…), enquanto os Kens passam o tempo a “fazer praia” à beira da água (ou seja, a não fazer nada).
O cartaz do filme sublinha igualmente a oposição entre a Barbie, que “pode fazer tudo” (She’s everything), e o Ken, que se contenta em ser ele próprio, sem qualquer atividade particular (He’s just Ken). A versão francesa acrescenta uma crítica irónica ao papel de Ken como homem-objeto, traduzindo o slogan associado a Ken como “Lui, c'est juste Ken”, um trocadilho com “Ken”, que é também o verbo para “foder”, levando-nos a ouvir “Lui sait juste ken”.
Enquanto a heroína Barbie (interpretada por Margot Robbie) é o cliché perfeito da boneca (descrita aliás como uma “Barbie estereotipada”), as outras Barbies são todas diferentes em termos de altura, peso, raça ou deficiência, fazendo eco das bonecas da gama “Barbie Fashionistas” comercializada pela Mattel em 2016.
Um dia, Barbie é atormentada por pensamentos mórbidos e tem de deixar a sua vida perfeita na Barbie Land para encontrar a rapariga que brinca com ela no mundo real e que parece estar a sofrer. Se não o fizer, arrisca-se a ser vítima de bullying e a acabar por ser a “Barbie Bizarra”.
Ela parte sozinha no seu carro cor-de-rosa, mas Ken (Ryan Gosling) – retratado como estúpido e incapaz de viver sem a Barbie – intromete-se na viagem. No mundo real, Barbie descobre as violências sexistas e sexuais e a mercantilização do seu corpo através do olhar masculino. Ken, por seu lado, descobre um patriarcado que o valoriza como homem, um sistema que decide instaurar na Barbie Land.
Com a ajuda de Gloria (America Ferrera), a sua dona encontrada, a Barbie tem de aprender a partir daqui a “usar os seus encantos” e a explorar a “fraqueza dos homens” para reconquistar a Barbie Land, o que consegue manipulando Ken e seus acólitos, antes de decidir tornar-se humana e viver no mundo real.
Quando Barbie se torna mulher
O argumento “feminista” do filme baseia-se no empoderamento das Barbies para assumir qualquer trabalho sem renunciar à sua feminilidade, à moda, à maquilhagem ou ao cor-de-rosa, o que é já um argumento utilizado para promover a boneca e contrariar os críticos que veem na Barbie um modelo estereotipado de feminilidade e um ideal de corpo fantasista, fonte de complexos para as raparigas.
Ao conciliar a feminilidade com habilidades normalmente associadas à masculinidade, a Barbie seria então uma possível aliada do feminismo. No entanto, a Mattel também reafirma sem parar a feminilidade das suas bonecas, cujos utensílios de trabalho e trajes são quase sempre "feminizados" – o que passa nomeadamente pela adição do cor-de-rosa – quando ocupam cargos científicos ou técnicos.
Ser feminina surge, assim, como a principal “competência” da Barbie, o que reduz as competências verdadeiramente necessárias ao exercício da profissão, ao mesmo tempo que torna mais excecional a presença das mulheres em determinadas carreiras.
Ao sublinhar assim a particularidade feminina da Barbie, a Mattel insiste na sua pertença ao grupo das “mulheres”, distinto e oposto ao dos “homens” representados por Ken. No mundo real, estas duas categorias sociais mantêm relações hierárquicas de género (os homens são superiores às mulheres), supostamente baseadas em diferenças “naturais” ligadas ao sexo. Uma tal justificação não deveria existir no mundo da Barbie: sendo as bonecas desprovidas de órgãos genitais – o que é objeto de várias cenas cómicas do filme –, torna-se impossível basear a oposição entre mulheres e homens na diferença de sexo. Sem contar com a realizadora que conclui a sua obra com uma consulta ginecológica da Barbie, que se tornou humana. Se o efeito cómico é evidente, esta cena final naturaliza a feminilidade da Barbie e reduz as relações sociais entre Barbies e Kens, modeladas a partir das relações entre homens e mulheres, a uma especificidade biológica . Ora, como explica a socióloga feminista Colette Guillaumin, as desigualdades entre mulheres e homens não são determinadas pela biologia, mas pelas relações sociais; são, portanto, um problema de sociedade e de direitos (luta contra as violências sexuais e de género, igualdade salarial, etc.) que é independente do sexo.
Barbie Power (?)
Para a socióloga inglesa do género Shelley Budgeon, considerar a feminilidade como uma fonte de poder faz parte da retórica pós-feminista na qual o filme se baseia claramente.
Fenómeno mediático e cultural, mais do que movimento militante, o pós-feminismo está incarnado numa “terceira vaga feminista” dos anos 1990, que defende a autonomia individual das mulheres e a reconciliação entre feminilidade e poder e é caracterizado na cultura popular pelo aparecimento de filmes e séries televisivas com mulheres fortes e femininas (Buffy, a caçadora de vampiros, Alias, etc.).
Mas se as Barbies são poderosas, é porque a Barbie Land é um matriarcado que meramente inverteu os papéis do patriarcado. Contudo, Monique Wittig explicou claramente que tais estratégias não contribuem em nada para melhorar a desigualdade das relações de género: “só muda o sexo do opressor”. É por isso que a pensadora feminista defende a construção de um modelo social independente das normas de género.
Além disso, ao exprimirem o seu poder através da sedução dos Ken que querem introduzir o patriarcado na Barbie Land, as Barbies reafirmam a hegemonia do casal heterossexual como único modelo de realização para as mulheres.
Barbie deve, assim, “lidar” com o patriarcado, condenada ao seu destino de mulher: quando decide tornar-se humana, o fantasma da sua criadora Ruth Handler (Rhea Perlman) fá-la antever uma vida feita de filhos, casamentos e mulheres grávidas. Sim, a Barbie pode ser quem ela quiser, mas só se cumprir os seus papéis de mulher: empregada-modelo, mas também esposa, mãe e dona de casa.
O rosa como… marketing
Depois de uma primeira parte repleta de referências a modelos Barbie que denunciam o preconceito sexista de brinquedos como os produzidos pela Mattel, a segunda parte pretende ser educativa. Barbie toma consciência das relações de poder entre homens e mulheres, mas a ambição feminista não vai mais longe.
As Barbies conseguem salvar o seu reino não lutando contra o patriarcado, mas usando a sedução, a empatia e a resiliência. A heroína acaba mesmo por perdoar Ken pela sua ambição de dominação, pela qual ela própria deveria ser culpada, porque não lhe deu atenção suficiente…
Assim, apesar da Mattel – que co-produz o filme e cuja grande participação na escrita do guião se sente – lembrar com ironia os seus fracassos comerciais, como o casal Midge e Alan – companheiros da Barbie e do Ken, cuja comercialização em 2002 de uma versão grávida da Midge causou um escândalo por ser vista como uma promoção da gravidez na adolescência – a sua organização dirigida por homens, ou o consumismo da Barbie, o filme de Gerwig não é mais nem menos do que uma operação de marketing em grande escala.
O filme faz parte de uma campanha de femvertising. Contração dos termos “feminismo” e “publicidade”, este termo refere-se à apropriação de figuras e conceitos feministas (empowerment, diversidade…) para melhorar a imagem de uma marca e/ou conquistar uma nova clientela.
Confrontada com a concorrência das bonecas Bratz e American Girls, que a fizeram perder uma quota de mercado considerável, a Mattel tenta voltar a dourar a imagem da Barbie tornando-a mais inclusiva, com a coleção “Barbie Fashionistas” de 2016, que desde então incluiu um modelo em cadeira de rodas, um com aparelho auditivo e, este ano, um com síndrome de Down.
O elenco e a banda sonora do filme, que inclui vários ícones do pop-feminismo, como a atriz franco-britânica Emma Mackey (que participou na série Sex Education), a cantora Dua Lipa e a rapper Nicki Minaj, são uma extensão desta estratégia de marketing.
Greta Gerwig realizou filmes abertamente feministas, como Lady Bird e Little Women, pelo que parece que a abordagem feminista da realizadora é sincera, ainda que certamente tenha tido de fazer demasiados arranjos para se adaptar ao caderno de encagos da Mattel, esvaziando o filme da sua ambição política.
Por detrás do brilho do “feminismo Barbie”
Embora a tendência Barbiecore seja apresentada como "feminista", na realidade de feminista guarda apenas o qualificativo, insinuando às mulheres que usar roupas hiper-femininas (saias curtas, saltos altos, etc.) ou comer um hambúrguer cor-de-rosa como referência à Barbie, como proposto por uma famosa cadeia de fast-food, seria uma forma de reivindicação.
Reedição mais vistosa da tendência millennial pink de 2016 – que recebeu o nome da geração dos millennials (nascidos entre 1980 e 2000) aos quais se destinava e que se apoiava na mesma retórica pós-feminista da feminilidade poderosa –, consiste, na realidade, na reprodução de clichés sexistas e na reafirmação de uma pretensa “diferença sexuada” que só prejudica as mulheres, convidando-as a usar roupas restritivas e a gastar cada vez mais dinheiro em acessórios para (re)afirmar a sua identidade feminina.
Apesar do filme Barbie por vezes ironizar com esta injunção consumista da feminilidade, só muito dificilmente consegue propor uma crítica sólida da mesma, chegando mesmo, pelo contrário, a encorajar a compra de numerosos produtos derivados do filme, incluindo várias bonecos com a efígie dos atores e atrizes, desumanizados assim para se tornarem, por sua vez, homens e mulheres-objetos.
Kévin Bideaux é investigadorx em artes e estudos de género. Membro do Laboratório de Estudos de Género e Sexualidade da Universidade Paris 8, Vincennes–Saint-Denis.
Artigo publicado originalmente no The Conversation. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.