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A “segunda feira negra” das criptomoedas e o fim do mito da estabilidade

A fuga dos investidores está a deitar por terra um dos pressupostos em que assentava a popularidade das criptomoedas: a ideia de que seriam imunes às decisões dos governos e às oscilações das economias.
Foto Jernej Furman/Flickr

A semana começou com um duro golpe para os investidores em criptomoedas. Na segunda-feira, 13 de Junho, a Bitcoin viu o seu valor cair 12%, o que levou a sua cotação para o valor mais baixo desde dezembro de 2020. Outra criptomoeda, a Ether, perdeu 13% do seu valor. Se olharmos para o valor de mercado total dos criptoativos em circulação, encontra-se à volta dos 960 mil milhões de dólares, bem abaixo do máximo histórico registado no passado mês de novembro, quando atingiu os 3 biliões de dólares, como foi noticiado pelo jornal Expresso.

As perdas de valor das criptomoedas confirmam a tendência de fuga dos investidores. À medida que cada vez mais pessoas tencionam livrar-se das criptomoedas que detêm, sem que haja procura suficiente, o seu valor de mercado diminui. Foi isso que esteve na origem do colapso recente da TerraUSD, que era curiosamente considerada uma “stablecoin”, que pode traduzir-se como “moeda estável”, devido ao facto de prometer a manutenção do seu valor fiduciário por se encontrar indexada ao dólar norte-americano.

No mundo dos criptoativos, começa-se a reconhecer o falhanço do sistema. “É pena que o dinheiro se tenha perdido, mas não é uma surpresa”, diz o fundador de uma empresa de tokens digitais à agência noticiosa CNBC. “Muita gente tirou o seu dinheiro nos últimos meses, por ter percebido que [o esquema] não era sustentável. Por isso, a quebra teve uma espécie de efeito em cascata.”

Fonte : New York Post (https://nypost.com/2022/06/14/crypto-crash-continues-as-bitcoin-briefly-dips-below-21k/).

 

Zero estabilidade 

Esta fuga dos investidores está a deitar por terra um dos pressupostos em que assentava a popularidade das criptomoedas: a ideia de que seriam imunes às decisões dos governos e às oscilações das economias, funcionando como reserva de valor estável - uma espécie de “porto seguro” em períodos de crise.

A volatilidade do mercado está relacionada com a expetativa em relação aos próximos passos dos bancos centrais no combate à inflação. Face à escalada dos preços, a Reserva Federal norte-americana e o Banco Central Europeu (BCE) têm começado a reverter a política dos últimos anos e a aumentar as taxas de juro de referência.

Os investidores temem que o aumento dos juros provoque uma recessão económica, uma vez que, ao tornar o acesso a crédito mais caro, os bancos centrais restringirão o consumo e o investimento. A quebra da atividade económica pode originar uma vaga de falências, desemprego e perda de rendimento. Face ao risco de uma nova crise, os investidores tendem a fugir de ativos considerados mais arriscados na tentativa de proteger o seu dinheiro.

O receio aumentou quando a Binance, que é a maior plataforma de transação de ativos digitais, anunciou a suspensão dos levantamentos de Bitcoin. A suspensão foi levantada pouco tempo depois, mas foi suficiente para colocar em causa a estabilidade do sistema.

O Expresso destaca ainda o caso da Celsius, uma plataforma de concessão de créditos cripto, que se viu obrigado a impedir o levantamento ou transferência de fundos por parte dos seus clientes. A plataforma justificou esta medida com as “condições extremas de mercado” e garantiu que se trata de uma “medida necessária pelo bem de toda a nossa comunidade”.

Aviso do BCE: cuidado com os “criptoevangelistas”

Os riscos associados às criptomoedas têm sido reconhecidos por cada vez mais intervenientes do sistema financeiro. Recentemente, um membro do conselho do BCE, Fabio Panetta, chamou a atenção para os seus perigos.

"Os criptoevangelistas prometem o céu na terra, através de uma narrativa ilusória sobre preços que sobem sempre para manter os fluxos de dinheiro”, disse Panetta. Além de, na maioria dos casos, não servirem como meio de pagamento por não serem aceites pelos estabelecimentos, os últimos tempos têm mostrado que as criptomoedas não servem como reserva de valor.

As criptomoedas têm também sido utilizadas para esquemas de fraude ou lavagem de dinheiro. Algumas estimativas apontam para que as transações de criptoativos com propósitos ilícitos tenham atingido 14 mil milhões de dólares só no ano passado.

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