Catarina Martins visitou esta sexta-feira as instalações do Ecoparque de São Miguel na Canada das Murtas, onde escolheu salientar a necessidade de uma gestão de recursos “ambientalmente e socialmente responsável” porque nos “próximos anos teremos de ter seguramente mudanças no modo como vivemos, como organizamos os nossos espaços”.
Junto com três candidatos autárquicos da ilha, a coordenadora do Bloco pronunciou-se sobre a construção de uma incineradora em São Miguel. Catarina Martins diz que o Bloco “tem acompanhado com muita preocupação” este processo e considera que esta que está “sobredimensionada” relativamente às necessidades e que “em vez de ser a solução de que precisamos pode vir a ser não só um problema ambiental como também um problema do ponto de vista financeiro”. O partido quer “fazer diferente” e garante que “a voz do Bloco de Esquerda nas autarquias será seguramente essa voz de uma nova forma de fazer política que pense o ambiente sem deixar de pensar a justiça social porque essa é seguramente a única forma de construir futuro”.
Questionada sobre a situação política nos Açores, a dirigente partidária criticou o Governo Regional como sendo “absolutamente insensível do ponto de vista social e incapaz de agir onde as pessoas estão mais vulneráveis” o que considera “imperdoável”.
Uma incineradora “megalómana” e a necessidade de alternativas
Os candidatos bloquistas de São Miguel também prestaram declarações críticas sobre a construção da incineradora. Vera Pires, cabeça de lista à Câmara Municipal de Ponta Delgada, aponta como caminho “aumentar a reciclagem” e “reduzir a produção de lixo”. E “para a pequena fração, que queremos que vá sendo cada vez mais pequena, de lixo não reciclável, não precisamos de uma incineradora nestes moldes”. É preciso “pensar em alternativas à incineração” e esse é o “estudo que falta fazer em vez de avançar com um construção megalómana que dará jeito a alguns mas não é o que interessa à população, não é o que interessa ao ambiente, não é o que interessa às nossas ilhas".
Para ela, “não faz sentido gastar dinheiros públicos numa estrutura caríssima quer na construção, quer na posterior manutenção” quando “esses dinheiros podem e devem ser canalizados para estes métodos alternativos” e para “trabalhar no sentido da redução, da reutilização, do reaproveitamento, da reciclagem”, propondo nomeadamente “a recolha seletiva porta a porta, também dos orgânicos” e a compostagem caseira.
Jessica Pacheco, candidata à Câmara Municipal de Ribeira Grande, reforçou estas ideias afirmando que “construir uma incineradora em São Miguel é boicotar todas as nossas hipóteses de conseguir evoluir para uma economia circular”. Esta “pressupõe que não haja a produção de resíduos ou se existir será mínima e obviamente isso é incompatível com esta visão de construção da incineradora”.
Também Mário Rui Pacheco, o candidato bloquista à Câmara Municipal de Lagoa, disse que é preciso que as autarquias invistam “cada vez mais” na área ambiental, nomeadamente em sistemas de recolha na gestão dos resíduos urbanos.
"Governo tem tido pouca vontade de mexer seja o que for do ponto de vista estrutural"
Catarina Martins foi ainda questionada sobre as negociações do próximo Orçamento do Estado. Reafirmou então as propostas “que as pessoas já conhecem e que não são novidade”: recuperar o SNS, nomeadamente os cuidados de saúde não-Covid, apoiar os trabalhadores da saúde “que são os verdadeiros heróis e heroínas do país e que estão exaustas e que precisam desse apoio”, “garantir pensão digna a quem trabalhou toda uma vida”, “garantir salário a quem tem congelamento há tantos anos e vê a sua vida com tanta dificuldade” e que “as gerações precárias têm direito a um contrato de trabalho, a um salário digno”.
Para o fazer é preciso “alterações estruturais para responder a problemas estruturais”. O problema é que “o Governo tem tido pouca vontade de mexer seja o que for do ponto de vista estrutural”. E, se isto não for feito “não conseguiremos que os milhões de euros que estão prometidos cheguem às pessoas”. “Já vimos tantas vezes: passam milhões, há uns quantos que enriquecem e a generalidade dos trabalhadores não vê a sua vida melhorar”, criticou.
Para a coordenadora do Bloco, estamos num momento “de uma enorme responsabilidade” em que “não basta gerir as coisas tal como elas estão”. Portanto, “o que se nos pede é a coragem de fazer alterações estruturais que garantam reforma a quem trabalhou toda uma vida, salário a quem está congelado há tantos anos, contrato de trabalho a quem é precário e quer ter uma perspetiva de vida no nosso país”.