Alain Juppé foi, sucessivamente, ministro adjunto das Finanças, ministro dos Negócios Estrangeiros, primeiro-Ministro de Jacques Chirac, mais tarde, ministro da Ecologia de Sarkozy, ministro da Defesa e mais uma vez ministro dos Negócios Estrangeiros. Entretanto foi presidente dos partidos gaullistas Rassemblement pour la République e, depois, Union pour un mouvement populaire.
Impopular, pela proposta de reforma da segurança social cuja contestação levou à sua demissão, e pela condenação judicial por ter criado empregos fictícios na Câmara de Paris, permaneceu uma das figura de topo permanentes no quadro político francês desde o final dos anos 1980.
Frantz Fanon foi um psiquiatria, filósofo e lutador anti-colonialista, que participou no movimento de libertação nacional da Argélia, tendo morrido de leucemia em 1961 com apenas 36 anos. Dois dos livros que nos deixou, Os Condenados da Terra e Peles Negras, Máscaras Brancas são textos clássicos sobre a violência colonial e a alienação que provoca a colonização, o poder da linguagem racializada e a interiorização do racismo.
O que une estes dois homens com perfis e caminhos políticos tão distintos?
Juppé está agora de saída do cargo de presidente da Câmara de Bordéus. Não se reforma, continuará nas altas esferas do poder francês já que foi nomeado para o Conselho Constitucional. Mas, antes de sair, deixou uma última decisão: congelar a proposta de colocar o nome de Frantz Fanon numa rua do eco-bairro de Ginko na parte norte da cidade.
Esta proposta tinha sido aprovada pelo conselho municipal de Bordéus a 17 de dezembro passado. Para além da rua Rosa Parks, a ativista norte-americana dos direitos civis que se tornou famosa por ter resistido à segregação racial nos autocarros, a segunda rua teria o nome de Frantz Fanon. A direita francesa reagiu contra o que considerou ser uma “homenagem deslocada” ao psiquiatra anti-colonialista. Isto apesar de já haver uma avenida com o seu nome em Fort-de-France, uma rua em Bobigny (Seine-Saint-Denis, Paris) e outra em Istres (Bouches-du-Rhône).
Juppé decidiu “adiar” o batismo desta rua com o nome do pensador anti-colonialista alegando que “a nomeação de vias da nossa comunidade deve ser a ocasião de homenagear personalidades que encarnem valores partilhados.” Por isso, “preocupando-se em apaziguar” congelou a decisão porque “o nome de Frantz Fanon suscita incompreensões, polémicas, oposições que eu posso compreender”, sublinhou o ex-primeiro-Ministro francês.
Na mesma cidade de Bordéus, segundo a associação Mémoires & Partages, continuam a existir cerca de duas dezenas de ruas com nomes de pessoas que se dedicaram ao comércio de escravos. Segundo esta associação, que realiza exposições e visitas guiadas à Bordéus negra, algumas são na zona central como a David-Gradis, nome de um armador esclavagista, que “por acaso” se “cruza com a rua Broca, nome do médico que estabeleceu teorias racistas sobre o volume e a forma do cérebro.”
Mireille Fanon Mendes France, filha de Frantz e presidente da Fundação Frantz Fanon, também tomou uma posição crítica sobre este tema numa carta aberta a Juppé: “seria preciso que a cidade de Bordéus aceitasse assumir esta história colonial ligada ao tráfico negreiro transatlântico” de outra forma que não “afixar discretamente uma placa assinalando o sítio de onde partiu o primeiro navio” ou “metendo, num local discreto (…) a estátua de Toussaint Louverture ou dando, como tinham tido a intenção, a uma ruela o nome do meu pai.”
Em causa, não estão sobretudo, claro, as dimensões das ruas escolhidas mas o facto das autoridades municipais continuarem a não encarar a história de “crimes contra a humanidade” em que a cidade participou. Este é um “trabalho que continua por fazer”, não se podendo branquear o sucedido através de “nomes de ruas, pouco importa o seu tamanho, ou algumas placas”.
Mireille conclui que esta memória “não pode ser partilhada por efeitos de esquecimento e de reescrita ou por uma pseudo-alteração da toponímia que viria re-dourar o brasão da cidade colonial por excelência”. Seria preciso “encarar e assumir os crimes cometidos, ainda que tenham sido os mais horríveis e tenham mudado definitivamente o sentido do humano.”