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Roubini alerta para as "mega-ameaças" que o mundo enfrenta

O economista que previu a explosão da bolha imobiliária de 2008 diz que a época atual apresenta semelhanças inquietantes com o período entre guerras no século passado.
Nouriel Roubini. Foto Stephen Jaffe/FMI/Flicke

"Estamos a enfrentar não só o pior dos anos 1970 (repetidos choques negativos de oferta agregada), mas também o pior do período 2007-08 (rácios de dívida perigosamente elevados) e o pior dos anos 1930. Uma nova "depressão geopolítica" está a aumentar a probabilidade de guerras frias e quentes que poderiam sobrepor-se com demasiada facilidade e ficar fora de controlo", defende o economista Nouriel Roubini num artigo de opinião publicado no Guardian.

Esta época de "mega-ameaças", como lhe chamou Roubini no seu livro mais recente, ou de "policrises" - a 'palavra da moda' do ano para o Financial Times -, ou ainda de "confluência de calamidades", como lhe chamou a líder do FMI Kristalina Georgieva, reúne velhos e novos perigos, com a chegada da estagflação, o risco de crises da dívida causado pelo aumento dos juros, a desglobalização com o regresso do protecionismo, as mudanças geopolíticas que aumntam o risco de conflitos armados e "vão balcanizar ainda mais a economia global", os efeitos mais graves e mais rápidos do que o previsto das alterações climáticas ou os avanços da robótica e inteligência artificial que trazem mais desigualdade e um "desemprego tecnológico permanente", a par de "armamento mais mortífero para conduzir guerras não-convencionais". Tudo somado, estes perigos alimentam "uma revolta contra o capitalismo democrático" e dão força "aos extremistas populistas, autoritários e militaristas tanto à direita como à esquerda", afirma o economista.

Roubini compara a época atual ao período entre as duas guerras mundiais do século passado, lembrando que após a primeira ocorreu "uma pandemia (a gripe espanhola); o crash da bolsa em 2029; a Grande Depressão; guerras comerciais e cambiais; inflação, hiperinflação e deflação; crises financeiras e bancarrotas massivas; e taxas de desemprego acima dos 20%". E foram essas crises que deram origem "ao fascismo na Itália, ao nazismo na Alemanha e ao militarismo na Espanha e Japão, culminando na Segunda Guerra Mundial e no Holocausto".

Para o economista estadunidense, as mega-ameaças de hoje são ainda maiores do que na altura, pois essa geração não conhecia as alterações climáticas nem as ameaças ao emprego por parte da Inteligência Artificial ou as responsabilidades resultantes do envelhecimento da população. E por outro lado, "as guerras mundiais foram em grande medida conflitos convencionais, enquanto agora os conflitos entre grandes potências podem rapidamente entrar em espiral, potencialmente terminando num apocalipse nuclear". Roubini termina o artigo com a crítica à complacência, a começar pela dos participantes na cimeira de Davos. "Estamos a viver como sonâmbulos, ignorando todos os alarmes sobre o que está à nossa frente. É melhor acordarmos depressa, antes que a montanha comece a abanar", conclui o economista, numa referência ao livro  "A Montanha Mágica" de Thomas Mann, acerca do clima social e cultural que conduziu à I Guerra Mundial e cujo enredo tem como cenário as montanhas perto de Davos, onde esta semana se reúne a elite económica mundial.

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