A 19 de junho de 2025, o opositor do regime Ortega-Murillo Roberto Samcam foi assassinado à queima roupa no seu apartamento em San José, Costa Rica. Era um major reformado do exército da Nicarágua que teve de fugir para a Costa Rica após os protestos pacíficos de massas de 2018 e a subsequente onda sangrenta de repressão do regime de Ortega-Murillo.
Em vários livros e diversas outras publicações e entrevistas, analisou o aparelho repressivo da ditadura. Em particular, utilizou os seus conhecimentos militares para provar que o exército nicaraguense estava diretamente envolvido na repressão de 2018, que custou mais de 300 vidas.
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O partido Unión Democrática Renovadora (UNAMOS) e a oposição Unidad Nacional acusaram diretamente os presidentes nicaraguenses Daniel Ortega e Rosario Murillo de terem ordenado este assassinato.
Samcam era licenciado em engenharia industrial, tinha um mestrado em administração de empresas e era analista em temáticas políticas, militares e de segurança. Era uma das personalidades mais conhecidas, explicando e manifestando-se publicamente contra o atual regime.
Isto não foi o primeiro caso de um atentado contra opositores que se tinham refugiado na Costa Rica. Joao Maldonado, dirigente da insurreição de 2018, foi assaltado duas vezes por sicários orteguistas – a segunda vez, em 2024, ficando gravemente ferido e a sua mulher paralítica por consequência de ter sido alvejada por uma bala na coluna vertebral.
Daniel Ortega já mostrou há muito tempo que está disposto a ordenar violência mortal contra opositores políticos, mesmo que fossem antigos camaradas sandinistas. Os exemplos mais emblemáticos para isto são o assassinato de Carlos José Guadamuz em 2004, um dos seus anteriores amigos pessoais e políticos mais íntimos desde a sua juventude; a morte de Hugo Torres em 2022 na prisão, um comandante guerrilheiro que tinha participado num assalto para libertar Ortega e ainda outros sandinistas da prisão somozista em 1974; e a morte do seu próprio irmão Humberto em 2024 em condições de prisioneiro político, de isolamento total e de privação do tratamento médico do qual dependia a sua vida.
Em 2023, 94 opositores nicaraguenses foram desnacionalizados e confiscados todos os seus bens, a sua reforma foi cancelada e todos foram eliminados do registo civil. Todo foram acusados do suposto delito de “traição da pátria”. Roberto Samcam foi um deles. A 19 de junho foi aniquilado por oito balas alvejadas por um sujeito que fugiu juntamente com um cúmplice que o esperava na rua.
Durante os últimos meses, o governo nicaraguense começou a expropriar cada vez mais pessoas e instituições com o objetivo de destruir a sociedade civil e angariar fundos para a ditadura. Mais de 4.000 organizações não governamentais foram ilegalizadas e destituídas das suas propriedades. Para além disso, intensificaram-se as vagas de purgas no seio do aparelho orteguista e no ambiente mais próximo do casal ditador.
É possível que o regime Ortega-Murillo esteja a entrar numa fase tão decadente que entrará numa crise terminal num futuro não muito longe.