Entrevista

Resistência antifascista no Porto: “Preservar esta memória é tratar do futuro da democracia”

01 de abril 2026 - 16:15

Inaugura este sábado a exposição “Memória(s) à procura de lugar”, que pretende ser um contributo para um futuro museu da Resistência e Liberdade no Porto. A curadoria é do investigador Luís Monteiro, que falou ao Esquerda.net sobre este projeto.

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Luís Monteiro
Luís Monteiro.

A exposição “Memória(s) à procura de lugar” reúne testemunhos da resistência antifascista no Porto e estará patente no Lino Espaço Cultural (Rua de Olivença 54) a partir de sábado, dia 4 de abril, com inauguração marcada para as 15h. Tem curadoria do ex-deputado bloquista Luís Monteiro no âmbito do seu projeto de doutoramento “Memória e Projeto: Subsídios para um Museu Ativista do Antifascismo no Porto”. Investigador colaborador do Centro de Investigação Transdisciplinar “Cultura, Espaço e Memória” da Universidade do Porto, licenciado em Arqueologia e mestre em Museologia, Luís Monteiro foi curador de várias exposições e dirigiu dois documentários: “Museu da Vergonha” e “Subterrâneos da Precariedade”. Nesta entrevista, falou ao Esquerda.net sobre este projeto que vai inaugurar no sábado. 


 

Esta exposição nasce do teu projeto de doutoramento, que remete também para a longa batalha pela instalação de um museu do antifascismo no Porto. Como se explica a ausência deste equipamento cultural numa cidade com pergaminhos na oposição à ditadura?

Na verdade, as políticas públicas relativas ao tratamento da memória coletiva do antifascismo tardaram em Portugal. É importante recordar que o Museu do Aljube, inaugurado em 2015 na antiga cadeia em Lisboa, foi o primeiro equipamento museológico dedicado ao tema. A sua criação foi uma consequência da contestação que se fez sentir após o Estado ter decidido, em 2005, alienar o edifício onde, outrora, funcionou a sede nacional da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso. Vários setores da sociedade portuguesa da altura, em especial ex-presos políticos e resistentes antifascistas, indignaram-se contra a leviandade dessa decisão, o que veio a originar, dez anos depois, a criação desse museu. O caso do forte de Peniche, onde funcionou a cadeia de alta segurança do fascismo, seguia os mesmos passos. Durante o governo do PSD/CDS durante o período da troika, havia-se tomado a decisão de entregar um conjunto de edifícios públicos classificados como património histórico à exploração privada. Tudo indicava que naquele forte seria instalado um hotel de charme. Esse processo foi travado durante a governação do PS suportada pelos partidos à sua esquerda e, a partir daí, foi possível avançar com a criação do recém-inaugurado Museu Nacional da Resistência e da Liberdade, em Peniche.

Estes dois exemplos demonstram que o dito “consenso democrático” em torno do passado fascista e colonialista português e, ao mesmo tempo, em torno d0 25 de Abril de 1974 enquanto rutura e génese do sistema democrático atual, na verdade, nunca existiu enquanto tal. Ou melhor, além de não ter existido nunca unanimidade relativamente a esse período, existiu, por parte do pensamento hegemónico, a produção de uma memória oficial onde existiu fascismo sem fascistas, antifascismo sem antifascistas, revolução sem revolucionários e processo democrático sem luta de classes. No Porto, a disputa da memória sobre esse passado materializa-se na reivindicação do edifício da antiga PIDE/DGS, na Rua do Heroísmo, enquanto lugar de memória da resistência. Em 1977, por decreto do então Presidente da República Ramalho Eanes, foi entregue ao exército a posso e gestão desse imóvel com o intuito de ali ser instalado o Museu Militar, projeto anteriormente pensado para o Forte de São João da Foz, em 1971, mas que nunca foi avante pelo elevado custo da obra. Desde 1980 – data de inauguração do Museu Militar do Porto – até hoje, muitas gerações de democratas têm vindo a defender a deslocalização desse museu militar para outras instalações do exército para, seguidamente, poder existir ali um museu de memória. Esse processo tem tido várias frentes de combate: no Parlamento, foram já aprovadas várias resoluções nesse sentido, na Assembleia Municipal do Porto idem. A par desse trabalho nos órgãos institucionais, existem vários movimentos que não deixam o tema cair no esquecimento. Mais recentemente, em 2023, foi criada a Comissão Promotora do Museu da Resistência e Liberdade do Porto, que tem vindo a encetar um conjunto de esforços junto da autarquia e do Governo Central, ao mesmo tempo que dinamiza iniciativas públicas com alguma regularidade. Preservar esta memória é tratar do futuro da democracia. Esta exposição propõe imaginarmos o que pode ser esse desejado museu.

Na apresentação da exposição falas na exploração dos conceitos de “herança difícil” e “museu ativista”. O que são?

O conceito de Herança Difícil (Difficult Heritage) é da autoria da antropóloga Sharon Macdonald e propõe um conjunto de ferramentas teórico-práticas para melhor entendermos os usos de passados controversos na atualidade. O seu caso de estudo foca-se na cidade de Nuremberga e na forma como aquela herança difícil do nazismo, nomeadamente o Nazi Party Rally (grande arena para comícios do Hitler) se tornou um património em disputa ao longo das décadas após a derrota da Alemanha na II Guerra Mundial. A dificuldade com que o poder político eleito e a própria população que, atualmente, vive em Nuremberga, tem em lidar com aquele legado permite explorar as disputas em torno da memória desse passado e, acima de tudo, compreender melhor como cada agente social se posiciona perante esse debate. Nas palavras da autora:

«Um passado que é reconhecido como significativo no presente, mas que também é contestado e difícil de conciliar publicamente com uma identidade contemporânea positiva e autoafirmativa. A “herança difícil” também pode ser problemática porque ameaça invadir o presente de forma perturbadora, abrindo divisões sociais, talvez alimentando futuros imaginários, até mesmo pesadelos.»

Sharon Macdonald, Difficult Heritage (2009)

Já o conceito de Museu Ativista (Museum Activism), da autoria de Robert R. Janes e Richard Sandell – dois investigadores dedicados à ideia de museu enquanto motor de transformação social –, propõe pensar esta instituição tantas vezes utilizada pelo Estado e pela classe dominante para oficializar a sua versão dos factos (da História), numa ferramenta de militância em defesa dos Direitos Humanos e das liberdades.

Luís Monteiro na montagem da exposição
Luís Monteiro na montagem da exposição

Quem visitar a exposição até ao dia 2 de maio o que é que lá vai encontrar?

O projeto propõe uma visão holística entre o papel do testemunho oral e o tratamento da cultura material desta memória coletiva, no qual cada um dos resistentes antifascistas conta um episódio da sua luta contra a ditadura partindo de um objeto escolhido por si. A apresentação desta coleção participada assume uma função de mediação entre as suas experiências e o público. A partir da apresentação destes objetos-memória, o objetivo é desafiar novos diálogos intergeracionais que encontrem num espaço como o museu uma oficina desobediente em defesa da Liberdade, da Democracia e dos direitos conquistados com a Revolução do 25 de Abril de 1974.

A exposição é acompanhada de uma programação diversificada ao longo de todo o mês de abril, desde oficinas a debates, festa e sessões de cinema. A entrada é livre e gratuita. Além da programação, a exposição pode ser visitada de 3ª a 6ª feira entre as 14:30 e as 19:00 e ao fim de semana entre as 10:00 e as 19:00. A inauguração acontece já no próximo dia 4 de abril às 15:00 e conta com a presença de Manuel Matos Fernandes (engenheiro e resistente antifascista), Miguel Carvalho (jornalista, autor da obra “Por Dentro do Chega”) e ainda com a atuação do Coro Coragem.

A tua exposição inaugura no meio da polémica em Lisboa sobre o afastamento de Rita Rato da direção do Museu do Aljube. Em que é que o seu trabalho seria uma inspiração para um futuro Museu da Resistência no Porto?

Tive já oportunidade de o dizer por escrito na altura em que essa notícia saiu e repito: o que está em causa no afastamento de Rita Rato do Museu do Aljube é um silenciamento político e uma ofensiva contra a memória de quem lutou contra a ditadura. Não está em causa apenas o nome. Trata-se de um processo de progressiva desvalorização do debate desta memória no espaço público. O Museu do Aljube é, hoje, um dos museus mais visitados do país, aquele que mantém uma programação regular mais rica, com visitas escolares todas as semanas (às vezes, todos os dias da semana, mais do que uma por dia). Acrescento a isso uma matéria que me parece especialmente importante. Existiu, até à esquerda, quem entendesse a escolha da Rita para este cargo como uma espécie de cooptação deste equipamento por parte do partido a que pertence. A Rita provou saber distinguir muito bem as suas convicções pessoais do cargo para o qual foi escolhida. A presença do espaço comunista é inevitável num lugar de memória da resistência à ditadura como é o Museu do Aljube. Mas nem por isso o plano que foi levado a cabo se apresentou sectário, antes pelo contrário. O Museu abriu-se a gente muito diferente, acima de tudo a novas gerações de investigadores, ativistas, estudantes que construíram ali o que continua a faltar, tantas vezes, às forças democráticas e progressistas - pontes e entendimentos, apesar das diferenças.

Para ajudares a financiar a montagem desta exposição lançaste uma recolha de fundos. Como é que as pessoas podem contribuir e que tal tem corrido até agora?

Apesar da exposição estar inserida na investigação que tenho vindo a desenvolver ao longo do meu doutoramento, praticamente não contou com financiamento institucional. Isso não me demoveu de avançar na mesma, sabendo que a decisão obrigaria a um esforço financeiro pessoal. Decidi lançar esta recolha de fundos no início de março e, surpreendentemente, tenho recebido apoios de muitos amigos, camaradas, mas também de gente que não conheço pessoalmente ou mesmo de anónimos que, sabendo do projeto, entenderam dar o seu contributo. Isso deixa-me muito feliz e convencido de que um dos propósitos da exposição está a ser alcançado: ir além do tradicional exercício académico e arriscar dialogar com o “mundo lá fora”. Esta exposição é para todos os públicos, mas essencialmente para as novas gerações para as quais este passado já é suficientemente distante para poder ser manipulado ou apagado da sua consciência individual e coletiva. Para quem ainda quiser apoiar, basta aceder à página da PPL.

A exposição esta presente nas redes sociais e no Linktree, onde é possível consultar a programação completa, a localização do evento e ainda o formulário para inscrição em algumas atividades como oficinas e visitas guiadas.

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