A renúncia de Kan e as três crises japonesas

26 de agosto 2011 - 16:03

O primeiro-ministro do Japão, Naoto Kan, anunciou a renúncia à presidência do Partido Democrata do Japão (PDJ) e a saída da chefia do governo na próxima semana. Mas a decisão não deve fechar a crise.

porTomi Mori

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Kan agarrou-se como pôde ao poder, resistindo por mais de 5 meses. A oposição pedia o seu pescoço, mas não tinha como tirá-lo. Foto wikimédia commons

O facto mais extraordinário do governo de Naoto Kan foi ter sido o único na história salvo por um poderoso terremoto. Explico. Kan herdou do anterior governo, de Yukio Hatoyama, do seu partido, o Partido Democrático do Japão, um cardápio de problemas de todo tipo. A direcção de um país que deixou de ser a segunda potência económica para ser a terceira. Uma economia em crise já há duas décadas e em decadência. Uma elite politica, onde se inclui o seu próprio partido, medíocre, sem nenhuma liderança de prestigio e também uma crise social que se agravava.

Dias antes do terremoto e o tsunami que arrasou o nordeste do Japão, Kan já vinha naufragando e estava próximo de cair. Os seus índices de popularidade já eram de uma governo derrotado. Mas veio o terremoto, o tsunami e a extraordinária crise nuclear. Graças a essa tragédia, que provocou a maior crise desde o pós-guerra, a situação ficou tão crítica que não foi possível sequer tirá-lo do governo. As trapalhadas de Kan e seu governo desde a tragédia do 11 de Março são conhecidas em todo mundo. Todos os governos mentem, mas Kan superou, sem a menor sombra de dúvida, todos os governantes da história japonesa, com as mentiras relacionadas à crise nuclear. As mentiras de Kan colocaram em risco a vida de milhões de pessoas, que poderiam ter sido contaminadas pela radiação nuclear, mas, felizmente, até o momento, apesar da continuidade dessa crise, nada de grave ocorreu. As mentiras de Kan também tiveram o efeito de evitar o colapso do imperialismo japonês e as consequências de um acontecimento dessa natureza.

Kan agarrou-se como pôde ao poder, resistindo por mais de 5 meses. A oposição pedia o seu pescoço, mas não tinha como tirá-lo. Sofreu poderosos ataques dentro do seu próprio partido, com lideranças exigindo também a sua renúncia, e repudiado pela maioria esmagadora da população.

A renuncia de Kan não deixa de ser bem-vinda. Mas é, também, absolutamente claro que o novo sucessor, a ser escolhido entre os membros do seu partido, que possui maioria parlamentar e irá eleger o novo primeiro-ministro, só acrescentará mais crise a uma crise que já é fenomenal. Todos os candidatos até ao momento, Noda, Maehara ou Kaieda primam pela falta de brilho. Acrescenta-se a isso a necessidade de que o sucessor receba o apoio da facção de uma das mais corruptas raposas da politica japonesa, Ichiro Ozawa.

Será o sexto primeiro-ministro no espaço de cinco anos, o que demonstra o tamanho da crise política num dos principais países imperialistas. O Japão, devido à crise energética, não tem a menor possibilidade de crescer economicamente e dá sinais de que ruma à recessão, ainda que, paradoxalmente, devido à crise mundial, tem assistido à alta do iene. E, por último, a crise social que ficou evidente após a tragédia. Ninguém duvida dentro do arquipélago de que a situação é grave. Mas, mais do que isso, ninguém acredita que as coisas irão melhorar a curto ou mesmo médio prazo.

A renúncia de Kan não só representa a crise japonesa, como faz parte da crise imperialista que engolfa os EUA e também as potencias europeias. O novo governo, que subirá na próxima semana, será o governo mais fraco dos últimos anos. Vamos ver quantos dias dura...

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Tomi Mori