O estudo do Institute of Health Equity da University College London, liderado por Michael Marmot, evidencia até que ponto as graves desigualdades económicas e sociais estão a levar as pessoas mais pobres a morrer precocemente de cancro, problemas cardíacos e outras doenças.
Baseando-se em dados do Office for National Statistics, o autor da investigação, Peter Goldblatt, analisou a esperança de vida das pessoas que não vivem nos 10% das áreas mais ricas. No seu relatório, intitulado “Desigualdades na saúde, vidas interrompidas”, concluiu que, entre 2011 e 2019, 1.062.334 pessoas morreram mais cedo do que teriam morrido se vivessem em áreas onde residem os 10% mais ricos da população. Outras 151.615 mortes prematuras foram registadas em 2020, embora esse número tenha sido superior ao esperado devido à pandemia do coronavírus. Goldblatt considerou que 148 mil mortes estão diretamente relacionadas com as medidas de austeridade implementadas pelo governo a partir de 2010.
Marmot, autor de um estudo sobre as desigualdades na saúde no Reino Unido em 2010, disse que as mortes prematuras e o aumento das desigualdades são uma “situação sombria”. Ele instou os líderes políticos a fazerem mais para combater este flagelo.
“Um milhão de mortes prematuras, agravadas dramaticamente pela austeridade, é um fracasso político chocante. A pior saúde dos 90% mais desfavorecidos da população, em comparação com os 10% mais favorecidos, significa que as desigualdades na saúde afetam a maioria da sociedade”, assinalou o especialista, citado pelo The Guardian.
Marmot acrescentou que, “se fosse preciso um exemplo de estudo de caso sobre o que não fazer para reduzir as desigualdades na saúde, o Reino Unido fornece-o”, sendo que “o único outro país desenvolvido que regista pior situação são os EUA, onde a esperança de vida está a diminuir”.
“O nosso país tornou-se pobre e insalubre, onde vivem algumas pessoas ricas e saudáveis. As pessoas preocupam-se com a sua saúde, mas esta está a deteriorar-se, com as suas vidas a encurtarem-se, sem que isso seja culpa sua. Os líderes políticos podem optar por priorizar a saúde de todos ou não. Atualmente, não o fazem”, continuou.
A análise da Cancer Research UK estimou que há 33.000 casos adicionais de cancro no Reino Unido todos os anos associados à privação, com as mulheres das zonas mais pobres a morrerem, em média, cinco anos mais cedo do que as suas homólogas mais ricas. Durante a pandemia do coronavírus, as pessoas de origem negra e asiática corriam maior risco de morrer devido ao vírus do que os seus homólogos brancos.
Investigações anteriores mostraram que as políticas introduzidas pelos governos trabalhistas entre 1997 e 2010, que se centraram nos primeiros anos e na educação, estavam a começar a reduzir as flagrantes desigualdades na saúde. No entanto, mediante a imposição das medidas austeritárias, as desigualdades na saúde começaram novamente a aumentar.
Marmot alertou que é hora de ação e liderança política em todos os níveis. O especialista enfatizou que é preciso agir “sobre os determinantes sociais da saúde: as condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem”.
Apontando que “estas condições sociais são as principais causas das desigualdades na saúde”, Marmot exortou os líderes partidários a fazerem disso “o eixo central do próximo governo” e a pararem “com as políticas que prejudicam a saúde e aumentam as desigualdades na saúde”.
Os deputados também foram visados na sua mensagem: “Aos deputados: se se preocupam com a saúde dos seus eleitores, devem ficar chocados com a deterioração da sua saúde”.