Espanha

A queda do sanchismo

16 de junho 2025 - 11:41

A gravidade deste caso é óbvia e confirma que neste regime - e nos principais partidos que asseguraram a sua continuidade até agora - a corrupção não é marginal, mas estrutural, como pudemos constatar desde as suas origens ao longo de sucessivos escândalos, com Juan Carlos I à cabeça e com governos tanto do PSOE como do PP.

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Jaime Pastor

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Pedro Sánchez
Pedro Sánchez na reuni\ao deste fim de semana da direção do PSOE. Foto: Eva Ercolanese/PSOE

A descoberta da trama de corrupção cujo chefe era, até quinta-feira, 12 de junho, o secretário de organização do PSOE, Santos Cerdán, juntamente com o seu antecessor no cargo, José Luis Ábalos, e o seu assessor Koldo García, é, sem dúvida, uma verdadeira bomba dentro do partido, como alguns dos seus membros definiram o escândalo. O seu impacto, como já estamos a ver, ultrapassa os limites a que Pedro Sánchez tentou limitar esta crise, através de um pedido de perdão, da promessa de reestruturar o executivo do seu partido e de realizar uma auditoria externa às suas contas.

Abre-se assim um novo cenário em que está em causa não só o futuro do PSOE, mas também o do governo de coligação e, para além disso, o de um regime a partir de cujas sarjetas continua a guerra suja contra todo o tipo de inimigos.

Este escândalo surge num momento de onda reacionária global e de ofensiva do bloco de direita espanhol em várias frentes, especialmente nas esferas judicial, policial e mediática. Coincide também com outras denúncias de corrupção, como a que atinge a presidente trumpista da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, mas também, indiretamente, a Procuradora-Geral do Estado, pendente de um processo por alegada “violação de segredos”. E surge no meio da guerra aberta entre o Tribunal Constitucional e o Supremo Tribunal de Justiça sobre a interpretação e a aplicação da Lei da Amnistia, por detrás da qual persiste a fratura no seio do regime sobre a forma de lidar com a questão catalã, há muito em aberto.

A trama e a corrupção sistémica

Nesta ocasião, constatamos a existência de uma trama que tinha a sua base de operações no Ministério dos Transportes presidido por Ábalos e os seus principais corruptores em grandes empresas como a Acciona, da conhecida família Entrecanales, juntamente com a LIC e a OPR [1], segundo o primeiro relatório da UCO (Unidade Operacional Central) da Guardia Civil sobre Santos Cerdán.

Do mesmo relatório, também se podem deduzir suspeitas sobre os benefícios que não só ele e os seus cúmplices obtiveram, mas também o seu próprio partido durante os anos em que Pedro Sánchez governou e mesmo antes. Teremos de esperar pelos próximos relatórios para ver até onde vão os fios de uma meada instalada na cúpula de um partido que se vangloriava de ter limpado o seu próprio passado nesta matéria, em contraste com o PP de Feijóo, querendo mostrar tolerância zero contra a corrupção.

Espanha

Acabar com a lenta agonia de uma monarquia reacionária e corrupta

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Jaime Pastor e Miguel Urbán

27 de outubro 2024

A gravidade deste caso é óbvia e confirma que neste regime - e nos principais partidos que asseguraram a sua continuidade até agora - a corrupção não é marginal, mas estrutural, como pudemos constatar desde as suas origens ao longo de sucessivos escândalos, com Juan Carlos I à cabeça e com governos tanto do PSOE como do PP. Neste último, quando era presidido por Mariano Rajoy, o escândalo Gürtel custou-lhe a perda do governo após uma moção de censura graças à qual Pedro Sánchez pôde chegar à Moncloa em 2018. Portanto, embora se diga que a história não se repete, mas rima, desta vez é muito semelhante a esse momento, apesar de ainda estar pendente uma decisão judicial e de o líder do PP não se atrever agora a apresentar uma moção de censura por medo de a perder.

Recordemos mais uma vez que, embora a corrupção seja muito antiga na história da humanidade, foi no quadro da longa vaga do capitalismo neoliberal que ela atingiu uma extraordinária extensão global através de diferentes meios, entre os quais se destaca a generalização das parcerias público-privadas em benefício das grandes corporações. Temos agora uma das suas manifestações mais visíveis na política empresarial praticada por Donald Trump para servir os seus próprios interesses, como no caso recente da Arábia Saudita, ou os do complexo militar-industrial dos EUA em relação à União Europeia.

Se nos referirmos ao Estado espanhol, José Manuel Naredo explicou de forma sintética a especificidade que o caracteriza:

os casos de corrupção detetados são a ponta do iceberg de males muito mais amplos, herdados da simbiose entre o capitalismo, meio século de despotismo franquista e uma transição política que excluiu os críticos do sistema para reorganizar, sob uma nova capa democrática, as elites do poder que continuam a tomar as grandes decisões e a favorecer o grande capital nas costas da maioria [2].

Foi neste longo processo que se desenvolveu um neocaciquismo, que atingiu o seu auge na bolha imobiliária que rebentou em 2008. Sob o seu domínio, as elites políticas têm vindo a praticar aquilo que Alejandro Nieto definiu como as “astúcias do poder”, ou seja, a capacidade das elites para contornar os controlos legais estabelecidos na administração pública nas suas relações com as grandes empresas corruptoras. Estas elites beneficiaram muitas vezes das portas giratórias depois de deixarem os cargos públicos, através da sua inclusão nos conselhos de administração destas ou de outras empresas, como aconteceu também no setor da energia. Estas práticas, como vemos, continuam a desenvolver-se à sombra da especulação financeira e de tantos megaprojectos baseados em parcerias público-privadas.

Temos um exemplo claro disso na família Entrecanales, que detém quase 60% das ações da Acciona, a principal corruptora da trama agora revelada. Como recorda Fonsi Loaiza, esta é uma empresa “resultante de Entrecanales e Távora, uma das construtoras que mais beneficiou com o ditador Franco e que utilizou mão de obra escrava republicana”, que faz parte do Cartel das grandes construtoras e que tem muita experiência na viciação de contratos públicos, como reconheceu a CNMC (Comissão Nacional de Mercados e Concorrência) em julho de 2022 [3].

Por isso, a luta contra a corrupção (ou contra uma “democracia corrupta”, como propõe também Naredo, coincidindo com outro crítico já falecido, José Vidal Beneyto) é uma tarefa de longo fôlego que, para chegar ao fundo e não se limitar às maçãs podres, deve ter uma dimensão anti-oligárquica e anti-sistémica.

O fracasso de um modelo cesarista de partido e de governo

Esta crise está a ocorrer também no seio de um PSOE que se transformou, sob o sanchismo, numa organização sob uma forte liderança plebiscitária e, ao mesmo tempo, desideologizada, ainda mais do que nos tempos de Felipe González, como se viu no último congresso do partido.[4] A confusão e a desilusão que este escândalo está a provocar na sua militância, já em declínio, e, sobretudo, no seu eleitorado, serão maiores do que as que foram expressas no passado. É, portanto, previsível que o partido, que foi um pilar fundamental do regime de Transição desde a sua fundação, tenha dificuldade em inverter o seu declínio nas próximas eleições.

O desinteresse pela política entre as classes populares também aumentará à medida que a tendência para desacreditar a política, identificando-a com a praticada pelas elites e, neste caso, com a esquerda em geral, continuar a espalhar-se nas redes sociais.[5] Por isso mesmo, este escândalo prejudica a esquerda como um todo e encoraja uma extrema-direita pronta a voltar a mobilizar-se nas ruas, como já estamos a assistir.

Nestas condições, e sem uma alternativa credível à esquerda do PSOE, é o bloco reacionário, já representado em muitos governos e parlamentos regionais pelo PP e pelo Vox, que aproveita a rejeição já crescente do sanchismo para se oferecer como alternativa face a um governo de coligação agonizante. Além disso, este governo terá em breve de tomar uma decisão na próxima cimeira da NATO, em Haia, sobre os planos de aumento das despesas militares para 5% do orçamento que o seu até agora velho amigo americano lhes exigiu.

Os partidos que integram a coligação Sumar fariam melhor se renunciassem à sua participação num governo que pretende continuar como se nada o tivesse afetado com este escândalo e presidido por alguém que demonstrou total passividade até ao último momento perante as suspeitas que se espalhavam à sua volta. Se no passado já existiam razões imperiosas para esta rutura - como as relacionadas com a necropolítica migratória, o Sahara, a militarização da UE ou o desfasamento entre a retórica e os factos no que respeita ao genocídio do Estado de Israel em Gaza -, agora é um passo essencial deixar de acompanhar Pedro Sánchez numa fuga para a frente politicamente suicida.

Assim, a promessa de regeneração democrática que Pedro Sánchez fez há pouco mais de um ano, depois de uma pausa de cinco dias para reflexão, acabou por se transformar no oposto, já que desta vez atinge a cúpula do seu próprio partido. Porque se nessa altura a regeneração democrática tinha a ver com o confronto com setores reacionários do aparelho de Estado que estavam em plena ofensiva, não só demonstrou ao longo deste tempo uma falta de vontade política para a levar a cabo, como com este escândalo de corrupção a credibilidade do PSOE e a sua própria credibilidade para esta tarefa regeneradora foram completamente delapidadas.

Contra o bloco reacionário, por uma viragem à esquerda

Sabemos também que não serão certamente o PP e o Vox que irão acabar com a corrupção, uma vez que esta se encontra nos seus próprios genes franquistas e nas suas ligações à grande burguesia. Mas, além disso, no caso de chegarem ao governo, como vemos noutros países, o que estes partidos tentarão impor será uma involução reacionária em todas as frentes.

Por isso, é urgente trabalhar para criar as condições para um novo ciclo de mobilizações que, seguindo os exemplos recentes das lutas em defesa dos cuidados de saúde, do direito a uma habitação condigna ou da educação e, sobretudo, da luta perseverante do povo valenciano na denúncia da catástrofe da DANA, sejam capazes de enfrentar esta ofensiva ultrapassando os limites impostos por um governo progressista que continua a não atacar as causas da ascensão do bloco reacionário.

O debate nas próximas semanas não deve portanto ser sobre a convocação de eleições ou sobre a exigência de uma moção de confiança num parlamento definitivamente bloqueado, embora não possamos ficar indiferentes ao que possa resultar de qualquer uma destas opções. É necessário procurar a maior unidade de ação possível para enfrentar o bloco reacionário, e para isso as organizações sindicais e sociais em geral têm um papel fundamental a desempenhar. Mas esta tarefa deve ser acompanhada de um esforço constante para criar as condições de uma viragem radical à esquerda nos planos democrático, eco-social e cultural, com base num programa de ação que tenha como ponto de partida as reivindicações que emergem de baixo.  Para isso, será necessário preservar a autonomia estratégica e tática da esquerda social e política alternativa em todo o Estado face a um governo que se revela impotente perante a ofensiva reacionária e que irá agora sofrer todas as pressões possíveis das mesmas elites corruptas para contribuir para uma saída que garanta a estabilidade do regime.


Jaime Pastor é politólogo e membro da redação do Viento Sur. Artigo publicado em Viento Sur.

Notas:

1 - “Las obras del informe de la UCO que ha tumbado a Cerdán: trece contratos por 637 millones y con fondos de la UE”, Antonio M. Vélez e Rodrigo Ponce de León, eldiario.es, 12/06/25.

2 - José Manuel Naredo, Taxonomía del lucro, Siglo XXI, 2019, p. 108.

3 - Fonsi Loaiza, Oligarcas, Akal, pp. 17-29.

4 - Jaime Pastor, “Con el cierre de filas en torno al líder no se para a la derecha”, viento sur, 7/12/2024

5 - Isaac Rosa descreve-o muito bem através da falácia da conclusão precipitada em “A ver si se entiende mejor lo de Cerdán y el PSOE”, eldiario.es, 12/06/25.