PSP e segurança privada acusadas de violência no Pingo Doce de Cedofeita

17 de agosto 2023 - 19:23

Uma pessoa sem abrigo terá sido agredida por um segurança do estabelecimento comercial por furtar comida e produtos de higiene. Por sua vez, testemunhas que tentaram proteger o homem terão acabado por ser agredidas pela polícia, que enviou um forte aparato para o local. Bloco vai questionar Governo.

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Foto PSP.

De acordo com os relatos divulgados pela Lusa e Porto Canal, um homem de 41 anos terá furtado oito artigos de higiene e alimentícios no valor total de 40 euros no Pingo Doce de Cedofeita, no Porto. O segurança do estabelecimento comercial terá reagido com “brutalidade”, pelo que três mulheres que assistiram aos acontecimentos tentaram intervir para proteger o sem abrigo. Inclusive, oferecendo-se para pagar o que este tinha na mochila.

“Estava à espera de ser atendida na padaria quando comecei a ver uma confusão perto da porta do [supermercado], onde o segurança estava a tentar impedir um senhor [suspeito de furto] de sair do mesmo, obrigando-o a dar-lhe a mochila [com os itens furtados]. A situação escalou e começou haver brutalidade”, descreveu Inês Rodrigues em declarações ao Porto Canal.

À Lusa, a testemunha assinalou ainda que “muita gente interveio, incluindo funcionários do Pingo Doce, porque viram que a situação estava a escalar de uma maneira que não era suposto”. “O gerente de loja chegou a aceitar que nós pagássemos o que ele [sem-abrigo] tinha tirado, mas o segurança pegou em dois carrinhos e manteve-o preso”, continuou.

Entretanto, surgiu um forte aparato policial, com "10/12 agentes" dentro da loja e "imensos carros da polícia e mais 15 agentes" no exterior. As testemunhas terão tentado explicar à polícia o sucedido, mas um dos agentes terá respondido que não estava interessado em ouvir a sua versão.

Quando uma das mulheres, de 28 anos, pediu a sua identificação e exigiu falar com o seu superior, o agente tê-la-á empurrado violentamente contra a parede e algemado. Sob a mesma pende uma acusação de resistência e coação à autoridade. Inês Rodrigues, de 31 anos, questionou o procedimento e, ao tocar no braço do polícia, terá sido agredida na perna e nádegas com bastonadas. Posteriormente, terá ido ao hospital e ao Instituto de Medicina Legal e apresentou queixa na esquadra de Cedofeita, onde terá sido humilhada pelos agentes de autoridade.

“Uma amiga minha falou com um agente da PSP para explicar a situação. O mesmo disse que não queria saber disso, afastando-a (…), por isso a minha amiga pediu a intervenção do superior do agente. Aí, o agente pegou nela e encostou-a contra a parede com brutalidade, começando a algemá-la”, contou Inês Rodrigues.

A alegada vítima explicou que pediu ao agente “para não fazer aquilo” e tocou-lhe no braço. “Logo nesse momento [o agente] pegou no cassetete e bateu-me na parte superior da perna, atrás do joelho” e depois nas nádegas, indicou.

Orquídea Oliveira, testemunha de Inês Rodrigues no processo, referiu à Lusa que prestou depoimento na esquadra da PSP após ter assistido a "agressões brutais e desmedidas".

Contactado pelo Porto Canal, o Comando Metropolitano do Porto da PSP confirmou ter sido chamada ao Pingo Doce de Cedofeita face a uma situação de alegado furto e relatou ter procedido à detenção de uma cidadã de 28 anos de idade por resistência e coação à autoridade.

Não foi dada, no entanto, qualquer informação sobre a alegada agressão a Inês Rodrigues, tendo sido apenas confirmado que a mesma apresentou queixa, nem sobre a razão que levou à mobilização de um tão expressivo contingente policial perante um alegado furto no Pingo Doce por parte de um sem abrigo. Também não há conhecimento de qualquer reação face ao alegado comportamento violento do segurança do Pingo Doce, ainda que o controlo, licenciamento e fiscalização da atividade de segurança privada constituam uma competência específica da Polícia.

O Bloco de Esquerda irá questionar o Governo sobre as queixas de violência no Pingo Doce de Cedofeita por parte do segurança e da PSP.