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PSOE vence eleições espanholas, extrema-direita é terceira força

Os resultados das eleições legislativas espanholas confirmaram a tendência esperada. O PSOE vence mas fica longe da maioria absoluta, à direita o PP recupera terreno enquanto que o Ciudadanos se afunda, a extrema-direita duplica resultados, alcançando o terceiro lugar, e o Unidas Podemos recua.
Cenário do debate eleitoral televisivo em Espanha. Novembro de 2019.
Cenário do debate eleitoral televisivo em Espanha. Novembro de 2019. Foto de: FOTOGRAFÍAS CANAL SUR/Flickr.

Não foi uma repetição eleitoral mas o impasse entre os dois blocos, esquerda e direita, mantém-se com nenhum deles a alcançar uma maioria suficientemente sólida de governo. A aposta de Pedro Sánchez em voltar às urnas para reforçar o seu resultado não surtiu efeito, acabando por perder até alguns lugares.

Esta vitória do PSOE teve um sabor amargo não só porque o caminho da constituição de um governo estável se complicou mas também porque a distância para o segundo partido mais votado encurta. A estratégia de ganhar votos ao centro não logrou convencer os votantes do Ciudadanos que estavam em debandada deste partido.

O PP é, assim, o perdedor que recupera. Ganhando votos ao Ciudadanos, que deixou de se poder apresentar como a grande alternativa centrista à política instituída, não tem, contudo, espaço para respirar de alívio por ter ultrapassado a ameaça existencial que enfrentava. O resultado deste domingo é, relembre-se, o segundo pior da história do partido. E diminuída a força do Cs, aumentou por outro lado a do Vox. PP e Vox disputam desta forma abertamente o eleitorado mais conservador com a extrema-direita a manter a violência discursiva que vai fazendo caminho e ganhando aceitação social. A extrema-direita chega aos 52 deputados, mais do dobro dos 24 anteriores e ultrapassando claramente a quarta força política.

O partido de Albert Rivera, o Ciudadanos, apresenta-se como o fenómeno negativo destas legislativas. Da disputa da liderança da oposição à direita até à crise profunda em poucos meses, o partido que surgiu como um Podemos do centro-direita, que se apresentava ao mesmo tempo moderado e com vontade de mudar tudo na política desiludiu os seus eleitores. Num primeiro momento foi-lhe criticado ser um partido que escondia que parte significativa da sua direção vinha da direita tradicional. A seguir vieram os acordos em governos regionais e locais com a extrema-direita. Por último a recusa de diálogo com o PSOE. E não terá ajudado a mudança súbita destas eleições em que o partido passou a disponibilizar-se para viabilizar o governo que anteriormente se recusava terminantemente a aceitar.

Os 35 deputados do Unidas Podemos também não são uma boa notícia para este partido, tendo baixado dos 42 anteriores e não se tornando, como pretendia, garantia indispensável para um governo maioritário. Toda a estratégia eleitoral do partido se centrou no piscar de olhos ao eleitorado socialista quer atacando-o com a ideia de que o PSOE tinha um pacto de governo preparado com a direita que seria preciso recusar nas urnas, quer mostrando-se como a força que mais queria um governo com os socialistas. O mantra de Iglesias nas últimas semanas foi: “queremos um governo que misture a experiência do PSOE com a valentia do Unidas Podemos.” Este objetivo de entrar no governo do Partido Socialista parece este domingo mais longe.

Mas ainda assim, na reação aos resultados Iglesias não recua no caminho traçado. Afirmou que a teimosia do PSOE apenas conduziu ao reforço da direita e que “se dorme pior” com o crescimento da extrema-direita do que com ministros do Podemos. E que a sua entrada no governo deixa de ser uma “oportunidade histórica” e passa a ser uma “necessidade histórica” para impedir o crescimento da extrema-direita.

A dissidência do Podemos Más País, liderada por Íñigo Errejón, também não conseguiu o seu objetivo de obter, nas primeiras eleições a que concorre, um grupo parlamentar. Com três deputados eleitos, o partido que tinha nascido para desbloquear os debates sobre o governo e que se manifestado pronto a integrá-lo terá ainda de mostrar trabalho para se impor na cena política espanhola.

À esquerda melhores notícias tiveram os partidos que defendem as nacionalidades. A Esquerda Republicana da Catalunha foi o partido mais votado na Catalunha com 13 deputados, face aos 8 dos JxCat. E as CUP, Candidaturas de Unidade Popular, entram no Parlamento com dois deputados. A sua porta-voz, Mireia Vehí, com um discurso radicalmente pró-independência declarou “a solução não é ajudar o regime a estabilizar-se mas sim torná-lo ingovernável.”

Num cenário consensualmente ensombrado à esquerda pelos resultados da extrema-direita, também o Bloco Nacionalista Galego tem razões para satisfação. Consegue voltar ao Parlamento e impede que o Vox eleja um deputado pela Galiza.

Nestas eleições, a abstenção subiu ligeiramente, apesar de menos do que aquilo que se chegou a temer. A percentagem de votantes, que em abril tinha sido de 71,76%, foi agora de 69,79%. Houve ainda 1.03% de votos nulos e 0,9% de votos em branco.

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