Em Maio de 2011, a revista italiana Domus, de arte e arquitectura, lança um concurso de ideias a todos os seus leitores dando-lhe o nome de “Projecto Herácles, uma Ponte Euro-Africana”. O projecto parte do texto de uma troca de correspondência entre dois filósofos belgas, Lieven de Cauter e Dieter Lesage, datada de 2005 e previamente publicada na revista Hunch, do Instituto Berlage em Roterdão.
A proposta seria a construção de uma ponte entre Gibraltar e Ceuta por ser o ponto mais perto entre as duas margens, ressalvando de certa forma a ironia de estarmos sempre a falar de território europeu quando falamos destas duas cidades.
O texto entre os dois resulta da discussão sobre a inexistência de qualquer ponte, ou seja, estrutura material, entre as duas margens do mar mediterrâneo. Esta inexistência significa, não só, a ausência de um elemento físico que marque a paisagem mas também a simboliza a inexistência de vontade política em que os dois continentes se unam, apesar da história comum (e conflituosa) que partilham. A proposta seria a construção de uma ponte entre Gibraltar e Ceuta por ser o ponto mais perto entre as duas margens, ressalvando de certa forma a ironia de estarmos sempre a falar de território europeu quando falamos destas duas cidades.
O concurso de ideias considerou o texto seriamente e lançou o desafio aos seus leitores para que imaginassem como poderia ser tal ponte. Pouco, ou nada, importava que as propostas representassem ideias fazíveis ou navegassem num universo mais especulativo. Assim, se nalgumas respostas o conceito ponte foi tido como literal, noutros houve que ponte se transformou numa metáfora de um possível começo de diálogo, questionando a relação cultural, histórica e política entre a Europa e África. O resultado final foram 200 propostas apresentadas.
Quando no número de Julho/Agosto, de 2011, a revista publica o resultado, acrescenta também uma carta aberta, escrita pelo então director, o arquitecto Joseph Grima, endereçada a Herman Von Rompuy, Presidente do Conselho Europeu, desafiando-o a responder. Ao que se sabe não houve qualquer resposta.
Mas em Dezembro do ano passado, e depois de vários meses de preparação, a exposição chegou ao interior do edifício do Parlamento Europeu pela mão da delegação do Bloco de Esquerda.
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Lieven de Cauter e Dieter Lesage no debate promovido na abertura da exposição. Foto Cláudia Oliveira[/caption]
Os 200 postais foram expostos, dois painéis (um com a imagem de capa da revista e um outro com a carta endereçada a Herman Von Rompuy) e uma mesa coberta com uma tela impressa com a imagem das duas margens do mediterrâneo. O cenário fica completo por cadeiras e assim se monta uma sala para que discutir.
Convidar a que apresentem o projecto ali é também dizer que a Europa que queremos não é a fortaleza que nos propõe, não é o Frontex, não é Lampedusa.
A ideia de levar a exposição até ao Parlamento Europeu foi, sem dúvida, uma forma de resposta indirecta à chamada da revista Domus para este debate. Convidar a que apresentem o projecto ali é também dizer que a Europa que queremos não é a fortaleza que nos propõe, não é o Frontex, não é Lampedusa. Foi uma forma de dizer que queremos discutir deve ser o papel da Europa no mundo. Como é que nós, colectivamente, nos posicionamos perante o outro, que somos também nós.
A iniciativa foi apresentada enquanto proposta politico-cultural porque, embora tendo origem no campo artístico, digamos assim, o seu carácter político nunca foi escamoteado. E é também uma forma de afirmar que o Parlamento não pode ser uma casa fechada sobre si mesma.
O desafio em levar tal empreitada a bom porto foi, ainda assim, considerável. Primeiro perceber como resolver problemas práticos de querer construir uma cenografia própria e não ficar dependente do material do próprio Parlamento, mas também perceber que a arte é um acto político quando nos ameaçam de censura. A exposição passou por várias fases de autorização, e recusa, com argumentos por vezes rocambolescos como acusarem a iniciativa de ser política e não artística. Ou seja, nem a arte pode ser política nem o Parlamento pode ter exposições políticas.
Mas a verdade é que a fizemos, ela existiu durante uma semana no interior do edifício do Parlamento Europeu em Bruxelas.
Na vernissage, encenou-se um debate conduzido pelo arquitecto Joseph Grima, pela equipa da Domus (com Marco Ferrari responsável pelo desenho do espaço) que imaginou um debate entre os dois filósofos e com quem a nós se quis juntar. Os dois filósofos aceitaram o desafio juntando-se a nós. O video em baixo mostra a sessão completa.